Guilherme Azevedo
Guilherme Azevedo

‘Noites de Alface’, que começa a ser filmado, retrata a dor de envelhecer com leveza

Filme de Zeca Ferreira tem Marieta Severo no elenco e é uma adaptação do romance de Vanessa Barbara

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2018 | 04h30

Pode ser que, do ponto de vista mercadológico, o título não tenha muito apelo – “Que filme você vai ver hoje? Noites de Alface. Hein? Que que é isso?” O produtor Marcelo Pedrazzi, da Afinal Filmes, esboça um sorriso. “Para a gente era importante manter o elo com o livro da escritora Vanessa Barbara, que é, duplamente, uma obra de sucesso e de prestígio, elogiada pela crítica. Mas também pode ser estimulante, em vez de desanimar. Noites de Alface – parece curioso, eu gostaria de ver.” Trata-se de uma aposta, bem entendido, e Marieta Severo, que faz a protagonista, Ada, observa – “Mas o cinema é sempre uma aposta. A gente faz o filme pedacinho por pedacinho, tentando acertar, mas o filme, pelo menos inicialmente, faz sentido na cabeça de poucas pessoas. O diretor, o roteirista. A gente faz na confiança, tentando acertar o tom, mas só vai descobrir realmente o que fez quando está pronto. É diferente do processo criativo do teatro”, ela explica.

Parecia programado. Num dia quente – muito quente – o repórter visitou o set de Noites de Alface na Ilha de Paquetá. Pegou a barca no centro do Rio, atravessou a Baía de Guanabara e desembarcou na ilha em que o imperador d. Pedro II tinha um palácio – atualmente, em ruínas. Tem ali a praia da Moreninha, que evoca a personagem do romance de Joaquim Manuel de Macedo. Paquetá parece um sonho. Mar calmo, a própria cidade é calma, vive em outro tempo. Carros não são permitidos. Somente bicicletas, e carros como aqueles de golfe, para o turismo. A cena filmada não poderia ser mais reveladora. Otto, Everaldo Pontes, está na janela e Marieta, como Ada, com luvas de jardinagem, cavouca no jardim da casa. Ele se queixa da insônia e ela diz que vai preparar o chazinho de alface da mamãe, “que é tiro e queda contra insônia”.

Na trama de Noites de Alface, Otto vive recluso após a morte da mulher. Leitor de romances policiais, ele continua sofrendo de insônia e passa o tempo bisbilhotando a vida dos vizinhos – como o fotógrafo James Stewart de A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Como ele, Otto também descobre um crime – ou será produto de sua imaginação? Desde a morte de Ada, tentando preparar o chá da mãe, Otto vive solitário e amargurado por lembranças. Ruminando o passado, traz à tona detalhes de conversas e fatos para os quais não deu tanta importância, mas que, agora, apontam para uma possível trama digna de suas histórias de suspense. Estaria Ada envolvida numa obscura trama arquitetada com os vizinhos, para matar o carteiro? E por quê?

A escritora nunca fez segredo de que se inspirou em sua vizinhança no Mandaqui, em São Paulo, para compor os personagens de Noites de Alface. A cidade da ficção é interiorana, sem nenhuma menção mais específica, e o diretor Zeca Ferreira chegou a pensar em fazer seu filme no interior de Minas, mas terminou filmando em casa. Sim, ele mora em Paquetá. “Pode parecer coisa de preguiçoso, mas esse é um espaço que conheço e isso facilitou muito na hora de colocar a câmera, mesmo que boa parte da história se passe em interiores.” Embora estreante em longa, Zeca Ferreira possui toda uma trajetória. Foi assistente de Nelson Pereira dos Santos em toda a fase final do grande diretor e, na Afinal Filmes, colaborou decisivamente na restauração de filmes clássicos, incluindo a remasterização digital de Vidas Secas, de Nelson. A empresa também realiza o Festival Remaster – Clássicos do Cinema Brasileiro.

“Se fosse necessário definir um grande tema para localizar o Noites de Alface, diria que é um filme sobre o envelhecimento, comportando toda uma série de subtemas dele derivados – a solidão, as perdas, o isolamento, as limitações físicas, o medo de perder a razão, e a proximidade da morte. O que torna o projeto original é a forma leve com que se aproxima de assuntos tão densos e espinhosos”, explica o diretor. Justamente essa leveza foi que atraiu Marieta Severo para o projeto. “É tão difícil falar desses temas sem puxar para baixo, mas o Zeca sempre deixou claro que o filme tinha de ser leve. Foi um desafio – fazer com leveza uma figura acabada como a Ada. O que ajudou bastante foi esse elenco fantástico que o Zeca reuniu.” Marieta refere-se a Everaldo Pontes, João Pedro Zappa, Inês Peixoto, Teuda Bara, etc. Inês e Teuda são do Grupo mineiro Galpão. “Estou adorando fazer todos esses filmes e novelas (na Globo). Esse clima interiorano em que todo mundo conhece todo mundo é muito gostoso de fazer. É muito minimal, contado através das roupas, dos gestos, dos objetos de cena e das locações. Faço a Teresa, dona dos cachorros que fazem barulho de noite e atormentam ainda mais o Otto”, conta Inês.

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