Les Films Impéria
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Noitão do Belas Artes exibe o rebelde, trangressor e cult 'Acossado'

Filme de estreia de Jean-Luc Godard é ícone dos tempos heroicos da nouvelle vague; evento é na noite de sexta, 19 de janeiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 Janeiro 2018 | 12h21

No final de L'Atalante/La Chaland qui Passe, último filme de Jean Vigo, de 1934, Jean Dasté e Dita Parlo deitam-se e François Truffaut escreveu, anos mais tarde, que gostava de acreditar que naquela noite eles haviam feito um filho – o Michel Poiccard de Acossado/À Bout de Souffle. Truffaut talvez falasse em causa própria, pois, afinal, foi ele quem forneceu a Jean-Luc Godard, diretor de Acossado, a história de seu longa de estreia. Eram os tempos heroicos da nouvelle vague, o movimento que estava dando uma cara nova ao cinema francês – e mundial -, Truffaut e Godard eram companheiros de lutas. Depois, viraram desafetos, talvez inimigos, mas tudo isso foi mais tarde.

Acossado, o filme rebelde, transgressor, virou cult. Foi há quase 60 anos – em 1959 – e na noite de sexta, 19 de janeiro de 2018, Acossado vai abrir o primeiro Noitão do ano, no Belas Artes, em São Paulo. Sob o título – apropriado – de Rebeldes, a programação reúne três títulos anunciados, mais dois que serão surpresas para quem se dispuser a atravessar a madrugada no conjunto de salas da Rua da Consolação. Além de Acossado, Bullitt, o policial de Peter Yates, e Jovens, Loucos e Rebeldes, de Richard Linklater. Nada mau, começar o ano tão importante – de Copa do Mundo e eleições – com personagens que não se enquadram nem querem se enquadrar em normas comportamentais, mas que buscam o próprio caminho. A seguir, um pouco sobre cada um desses filmes.

Acossado

Cinéfilo de carteirinha revê a cena de olhos fechados. Jean Seberg, a americana em Paris, vende jornais nos Champs Elysées. Seu nome é Patricia, mas com acentinho no segundo A, como dizem os franceses. Patriciá. Chega Michel Poiccard/Jean-Paul Belmondo, o feio charmoso, na tradição de Humphrey Bogart. A câmera – na mão – dança ao redor deles. E logo as coisas se complicam. Michel rouba um carro, mata um policial. Agora, não tem mais volta. É preciso ir até o fim – até perder o fôlego (à bout de souffle).

Detalhes importantes. 1) A dupla vai ao cinema. O filme é o clássico noir Mortalmente Perigosa/Gun Crazy, de Joseph H. Lewis, de 1949. O revólver louco, como o de Michel, que parece fugir ao seu controle quando dispara no policial. E o título brasileiro – Patriciá terminará sendo perigosa, e mortal, para o herói.

2) O filme é um compêndio da liberdade de filmar da nouvelle vague. Custo baixo, câmera na mão, atores-personagens, muita improvisação. Na época, os críticos diziam 'um faroeste urbano' e 'um musical sem canto nem dança'. Tributos ao cinema de gênero. Não por acaso, Godard o dedica à Monogram, um estúdio de Hollywood que só fazia filmes pequenos, B.

3) Houve um remake norte-americano, um filme muito bom (melhor?) de Jim McBride, A Força do Amor, com Richard Gere no papel de Belmondo. E, sim, o espírito 'nova onda' de Acossado impregnou O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, de 1968.

Bullitt

Steve McQueen faz policial de São Francisco que deve proteger criminoso que vai depor no Senado contra político corrupto. Bullitt perde o seu homem, descobre o envolvimento do político e sai à caça. Sob medida para a persona de rebelde que McQueen estabeleceu em Fugindo do Inferno, de John Sturges, de 1964, o filme esculpe um personagem elegante, viril, bom de briga e melhor ainda de volante.

Detalhes importantes. 1) O diretor Peter Yates não estabeleceu, propriamente, parâmetros para a filmagem de perseguição de carros na cidade grande, mas a caçada urbana do filme dele é das mais eletrizantes do cinema. Envolve, no desfecho, carros e aviões no aeroporto. Antes, Don Siegel já realizara uma cena tão boa em outro filme passado em São Francisco – O Sádico Selvagem, de 1958. E, depois, veio a perseguição emblemática, em Nova York, de Operação França, de William Friedkin, que venceu o Oscar de 1971.

2) A elegância de Bullitt, o personagem, não é só uma questão de gestos do ator. Passa pelo vestuário, também. Bullitt/McQueen está sempre impecavelmente vestido, e nisso o herói se assemelha a um detetive pioneiro da TV, nos anos 1960 – Peter Gunn.

3) Os créditos da Pablo Ferro Films e a trilha de Lalo Schifrin estão de acordo com o padrão sofisticado da produção.

Jovens, Loucos e Rebeldes

Este foi um dos primeiros filmes do diretor e roteirista Richard Linklater, anterior a Antes do Amanhecer, de 1995, com o qual ele iniciou sua trilogia com Ethan Hawke e Julie Delpy (Antes do Por do Sol e Antes da Meia-Noite). Baseado em experiências pessoais do autor, mostra as confusões em que se envolvem veteranos e calouros numa high school do Texas, nos anos 1970.

Detalhes importantes. 1) Como o filme é de 1993, há 25 anos, tem um elenco de jovens que hoje talvez fosse mais difícil reunir – Matthew McConaughey, Ben Affleck, Milla Jovovich, Parker Posey, Adam Goldberg, Renee Zellweger, etc.

2) Linklater sempre foi um diretor atraído pelo tempo e, assim como fez a trilogia 'Antes' com Ethan Hawke e Julie Delpy, ele também fez Boyhood, acompanhando seu protagonista da infância à juventude, no longa de 2014. No caso desse filme, ele voltou, em 2016, ao seu conceito e em Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompasnhou outro grupo de jovens, numa 'república' e na escola, nos anos 1980. Outros jovens, outro elenco – Blake Jenner, Tyler Hoechlin, etc.

3) A trilha reúne os maiores hits de 1976, ano em que se passa a história, e isso fornece ao longa a dimensão também de uma viagem musical – The Runaways, Alice Cooper, Kiss, War, Deep Purple. Chega? Pois tem mais, muito mais...

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