AP
AP

'Nocaute' traz o pugilista Billy Hope, vivido por Jake Gyllenhaal

Esportista tenta superar uma tragédia em sua vida

Piya Sinha-Roy - REUTERS, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 03h30

LOS ANGELES  - Nos últimos anos, Jake Gyllenhaal vem mostrando uma queda pelo lado negro da existência ao interpretar personagens atormentados, às vezes sociopatas, à margem da sociedade, mas ele acaba de atuar no papel “mais adulto e amadurecido” de sua carreira, como um pugilista profissional. 

Em Nocaute, com previsão de estreia no Brasil em 10 de setembro, Gyllenhaal é Billy Hope, um órfão de NY que se transforma num sucesso do boxe e, em seguida, cai novamente na pobreza e é incapaz de cuidar da filha depois da morte da mulher Maureen (Rachel McAdams). 

“Não sei se ele acredita em si como finge acreditar”, disse Gyllenhaal à Reuters. “Gasta o dinheiro que recebe e se agarra às coisas, acreditando que as ganha e as merece, mas todas desaparecem rapidamente.” Dirigido por Antonio Fuqua, Nocaute acompanha Billy quando ele sofre um colapso mental e luta para sair de uma violenta crise quando a filha pré-adolescente (Oona Laurence) deixa de se comunicar com ele. O filme, produzido pelo estúdio independente da Weinstein Co., também mergulha no mundo glamouroso, mas volúvel, do boxe profissional. Quando o seu mundo desmorona, o círculo de amigos fiéis logo se dissipa e o seu agente Jordan (50 Cent) trata de abandonar o barco quando Billy se recusa a disputar uma luta. “Jordan é uma pessoa que ama Billy Hole e tenta convencê-lo: ‘Você não entende que precisamos fazer isso? Você precisa lutar’”, diz o rapper 50 Cent. Para interpretar o personagem de Billy, Gyllenhaal teve de malhar um bocado para adequar o físico ao de um pugilista. “Foi um trabalho duro.” E atribuiu o fato de ter vencido o desafio também ao intenso preparo psicológico.

No ano passado, Gyllenhaal foi muito elogiado pela interpretação de um impiedoso repórter de polícia em O Abutre. O papel exigiu que ele perdesse 10 quilos para personificar um personagem que chega ao limite. Com Billy Hope, papel que deve render-lhe prêmios, ele disse que procurou captar a compaixão e o conflito do personagem. “Billy é todo coração. Ele se dedica à família, que ama profundamente, mas guarda dentro de si a raiva e a ira que permitiu que alcançasse um grande sucesso, mas, no fim, destrói tudo o que o sucesso lhe proporcionou.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Grandes filmes de boxe fizeram história e um agora poderá fazer justiça ao astro injustiçado de 'O Abutre'

 

Houve tititi na imprensa norte-americana quando Jake Gyllenhaal ficou fora da lista do Oscar de melhor ator do ano passado. Ele era considerado aposta segura por seu papel em O Abutre, de Dan Gilroy. Boa parte da imprensa dos EUA preferiria que tivesse sido indicado para o prêmio da Academia, em vez de, por exemplo, Bradley Cooper - embora o sniper americano e o filme de Clint Eastwood tenham sido os melhores de 2014, mas essa é uma discussão que fica para outra hora. O importante é que Gyllenhaal já está no páreo novamente. Ele não apenas consegue seu papel mais adulto (leia acima) no novo Antoine Fucqua, Southpaw/Nocaute, como prossegue com as metamorfoses físicas que tanto atraem a mídia. O próximo promete ser o ano de Jake.

Cinema e boxe. Desde que Martin Scorsese colocou Robert De Niro como um touro indomável no ringue, no papel de Jake La Motta, um filme de boxe não provocava tanta sensação em Hollywood. Há dez anos, o diretor Ron Howard e o astro Russell Crowe decepcionaram com A Luta pela Esperança, que ficou abaixo da expectativa do público e da crítica. Vale lembrar que há uma longa e bela tradição do gênero em Hollywood. Remonta ao passado, aos anos 1940 e 50, mesmo que 1939 tenha sido o ano de O Conflito de Duas Almas, de Rouben Mamoulian, com William Holden dividido entre o pugilismo e o violino.

Na sequência, Raoul Walsh fez história com O Ídolo do Público, de 1942, com Errol Flynn no papel do lendário pugilista Jim Corbett. Sete anos mais tarde, Robert Wise fez Punhos de Campeão/The Set-Up, com Robert Ryan, e até hoje o tempo real daquela luta - que, por ser arranjada, Ryan deveria perder, mas vence - inflama o imaginário de cinéfilos e críticos. Mais alguns anos - 1956 - e o jovem (e belo) Paul Newman colheu seu primeiro grande sucesso como o Rocky Graziano de Marcado pela Sarjeta, de novo com direção de Wise. A história mostra como jovem ítalo-americano das ruas vira lutador, ganha o título e a garota (Pier Angeli). No final, a justificativa, que por sinal, é o título original - Somebody Up There Likes Me, ou Alguém Lá em Cima Gosta de Mim. O próprio Deus?, quem sabe.

Também em 1956, Mark Robson fez Trágica Farsa, com Humphrey Bogart no papel do jornalista de esportes que toma consciência de como lutadores são manipulados por seus agentes. Na farsa das lutas arranjadas nem Deus se apieda dos pugilistas servidos ao público como gado no abatedouro. Naquele mesmo ano, Martin Ritt iniciou a carreira que o levou várias vezes a confrontar o racismo. Seu mais duro ataque ao tema foi com A Grande Esperança Branca, de 1970, em que fez de James Earl Jones o campeão negro massacrado por ousar se unir a uma branca (Jane Alexander). Era um filmaço, e o componente sexual era forte como em Touro Indomável, em que La Motta/De Niro, devorado pelo ciúme, transforma sua vida e a da mulher num inferno. Na concepção de Scorsese e seu roteirista, Paul Schrader, La Motta é um Otelo que consegue ser o próprio Iago.

Para o público jovem, o emblema do pugilista é Rocky, o lutador de Sylvester Stallone. Nascido no fim da era Jimmy Carter, ele virou, como outra criação de Stallone, Rambo, uma das caras da era Ronald Reagan na tela. Em Rocky 4, que Syl também dirigiu, a luta contra o russo Drago (Dolph Lundgren) foi a pá de cal no comunismo e logo até o Muro de Berlim ia cair. Agora, Gyllenhaal. Vai ser Nocaute? Só tem uma coisa. E se Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, for o maior dos filmes de boxe? Por que não? Naquela tragédia familiar, Alain Delon faz um campeão cuja vida é destruída pelo irmão.(LUIZ CARLOS MERTEN)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.