No Rio, Jeanne Moreau fala sobre vida, carreira, cinema e MPB

'Tenho impressão que minha vida inteira deu preferência aos novos talentos', diz a atriz francesa; leia entrevista

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

26 de setembro de 2009 | 14h39

Mademoiselle Moreau é a prova viva de que cigarro, às vezes, pode não fazer tanto mal assim à saúde. Octogenária, a diva da nouvelle vague, ícone de cinéfilos e musa dos maiores diretores, fuma um cigarro atrás do outro e está ótima . Ela recebe o repórter do Estado no 15º andar de um prédio na praia do Flamengo. É a residência do cônsul da França. A vista é espetacular, mas Jeanne Moreau fica de costas para o mar. Ela sorri. "Podemos começar", diz.

Simpática, a assessora de imprensa havia informado que Jeanne não gosta muito de ficar remoendo o passado. O repórter lembra que já se encontrou com ela, há quatro anos, em Cannes, no lançamento de Le Temps Qui Reste, de François Ozon. Foi justamente naquela entrevista que Jeanne o informou de uma atriz francesa, não importa que tenha 100 anos, é sempre mademoiselle. É um bom ponto de partida - o trabalho de Jeanne com os novos diretores.

Ontem, no palco do Odeon, você manifestou seu apoio incondicional aos novos cinemas e autores. Ozon, por exemplo...?

Tenho a impressão que a minha vida inteira deu preferência aos novos talentos. Comecei no teatro, mas no cinema, a despeito de alguns primeiros filmes, só aconteci graças à nouvelle vague e depois filmes muitas vezes com novos diretores. Mesmo quando eles não eram novos, (Joseph) Losey é um bom exemplo, muitas vezes eram artistas que tinham dificuldade para levar sua obra adiante. Losey vivia exilado na Europa, foi muito maltratado pelos produtores de Eva...

Losey é um autor que a crítica brasileira ainda tem dificuldade para apreciar. O próprio Cacá Diegues, na apresentação dos grandes diretores com quem você trabalhou, citou vários, François Truffaut e Luis Buñuel, Michelangelo Antonioni e Orson Welles, mas não fez referência a Losey.

Losey foi um diretor extraordinário, um dos maiores com quem trabalhei. Fez grandes filmes e a gente pode lembrar O Criado, no qual eu não estava. É um filme maravilhoso.

Mas Eva, como você lembrou, foi remontado à revelia do diretor. Até hoje não sei se houve uma versão restaurada do próprio Losey.

O filme foi lançado em DVD nos EUA numa versão extensa, não a de Losey, mas com muito material que ele filmou e havia ficado de fora. Aliás, não possuo essa versão. Preciso adquiri-la para conferir, mas não é um hábito meu rever os velhos filmes que fiz. Digo velhos carinhosamente. Muitos deles eram obras adiante de seu tempo.

E um exemplo pode ser Joanna Francesa, que você fez com Cacá Diegues no Brasil. O filme foi recebido com certa reserva, mas hoje é reconhecido como um dos melhores de Cacá.

Vou ver Joanna Francesa na semana que vem, numa homenagem que o consulado vai me prestar aqui no Rio. Estou muito entusiasmada, porque a lembrança desse filme é muito forte - tudo foi muito forte, como aconteceu. Cacá me havia conhecido em Paris. Foi na Cinemateca, na exibição de um filme de Jacques Rivette, Paris Nous Appartient, e eu estava acompanhada por Jean Renoir. Cacá disse que gostaria de fazer um filme comigo, eu respondi por que não? Mas a produção não foi muito fácil. Ele não conseguia levantar o dinheiro e Pierre Cardin, com quem eu vivia, terminou se envolvendo no projeto.

Você já havia feito Viva Maria!, de Louis Malle, com Brigitte Bardot, no México. Joanna Francesa foi sua segunda experiência de filmar na América Latina...

E foi muito diferente, não apenas os dois filmes, mas os dois países (e isso você sabe). Guardo uma lembrança um pouco estranha do México. Para mim, está associado a Don Luis (Buñuel) e eu nunca mais voltei, depois que ele morreu. Vi fotos da casa de Don Luis, após seu desaparecimento, e lá estava o bar, um autêntico bistrô parisiense que ele importou, com as bebidas que gostava, mas faltava o essencial. O Brasil me apaixonou imediatamente. Fazia muito calor, a caipirinha subia rapidamente à cabeça, mas a miscigenação (de raças) foi uma grande descoberta para mim. Em Maceió, me puseram numa cabana. As pessoas chegavam e me chamavam assim (ela bate palmas), às vezes eu estava nua, no banho, e vinha correndo. Era uma época de violência, coisas horríveis estavam ocorrendo e todos tratavam de me preservar, mas tudo aquilo era novo e apaixonante para mim. Havia esse maquiador de quem fiquei grande amiga. Foi quem me apresentou ao candomblé. Tenho até hoje minha mãe de santo e por isso me visto de branco e vermelho, cores de Iansã.

Aproveito para lhe informar que a obra de Louis Malle, um dos diretores que foram essenciais em sua carreira, está sendo inteiramente lançado em DVD no Brasil.

Mas é formidável! Louis foi outro grande diretor que, às vezes, não obteve reconhecimento para suas ousadias. Gosto muito de Perdas e Danos, que ele fez na Inglaterra, com Juliette Binoche, e os críticos em geral negligenciam o filme. Eu, não. Acho que poucos diretores abordaram com tanta intensidade a questão de desejo.

Confesso que gosto de 30 Anos Esta Noite e Adeus, Meninos, mas meu Malle preferido é O Ladrão Aventureiro, o único que ainda não foi lançado no Brasil.

Pode ser por uma questão de direitos. O espólio de Louis Malle é administrado pelo filho que ele teve com uma alemã e essa pessoa não mantém as melhores relações com Jean-Paul Belmondo. É pena, porque o próprio Louis também tinha muito carinho por O Ladrão Aventureiro.

Você dirigiu um filme, Lumière.

Na verdade, foram dois, Lumière e L"Adolescente. Orson Welles me incentivava a seguir adiante como realizadora, mas eu própria não fiquei muito satisfeita com o resultado desses dois filmes. Tenho um grau de exigência que não preenchi como diretora. Achei melhor parar. Estava escrito que não seria diretora.

Você com certeza serviu aos maiores diretores, mas com certeza também se beneficiou dessa parceria com os grandes. É, de qualquer maneira, uma das carreiras mais brilhantes do cinema...

Ah, mas não é uma carreira... Uma carreira a gente constrói. O cinema é uma paixão, a minha vida. As coisas foram ocorrendo sem que eu planejasse.

Um de seus filmes recentes é Mais Tarde Você Vai Entender, com direção de Amos Gitai, com quem você também fez um espetáculo, em janeiro, em Avignon. O teatro também é uma paixão?

Com certeza, porque nasci nele. Amos é um diretor muito original e criativo. Tenho uma relação muito intensa com ele, de amor e ódio. O espetáculo teatral trata da questão judaica, como o filme também trata, só que em outro nível. O filme rediscute a herança do Holocausto, a peça vai às origens, a episódios como os macabeus. Adoro teatro. O espetáculo vivo, a troca com o público, tudo isso é energizante.

Nestes anos todos, o teatro e o cinema mudaram muito...

Mas o cinema é um espelho da vida. Se a vida se transforma, é claro que o cinema também tem de mudar.

O cinema mudou muito nestes últimos anos. Para quem trabalhou com grandes diretores, autores preocupados em dar seu testemunho sobre o mundo em que vivemos, devem ser decepcionantes todos esses filmes à base de efeitos especiais.

Pas tu tout (não). Há um cinema de arte e ensaio e outro de diversão, mas eu acho que esse último também é importante e necessário. Vejo filmes pela pura diversão e muitos deles eu adoro. O próprio fato de ser autoral não desobriga o diretor de tentar se fazer entender pelo público. Engana-se quem pensa que cinema autoral é só o que o público não entende.

No palco do Odeon, você manifestou seu apoio ao Novo Cinema Novo e agora estou sabendo que amanhã à tarde você vai ao Vidigal para conhecer o Nós do Morro e parte dos jovens que estão fazendo a nova versão de Cinco Vezes Favela.

Reafirmo o que disse (no palco do Odeon). O Brasil tem potencial para ser uma grande cinematografia e se fazer admirar em todo o mundo. Estou muito interessada, sim, em conhecer essa garotada que vai fazer o cinema brasileiro de amanhã. No que eu puder ajudá-los, o farei.

Foi bonito, na homenagem do Telecine, vê-la cantando o tema de Chico Buarque para Joanna Francesa. Sua voz continua bela, inconfundível. Por que não canta mais?

Cantar exige dedicação integral. Quanto a Chico... Ele não irá à homenagem do consulado, porque está em Paris, mas Caetano (Veloso), sim. São grandes artistas. A música brasileira me encanta.

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