"No Limite do Silêncio", uma opção pelo óbvio

Em No Limite do Silêncio, Andy Garcia é Michael Hunter, psicólogo que entra em crise depois do suicídio do filho. Abandona a clínica e sobrevive de livros e palestras - nos Estados Unidos dá para fazer isso; no Brasil, a receita serve apenas para ex-técnicos da Seleção e gurus daeconomia. Enfim, Hunter mantém-se distante do divã até serconvencido de que deve ajudar um jovem problemático, de restomuito parecido com o filho que perdeu.O garoto é Thomas Caffey (Vincent Kartheiser), que viveinternado num orfanato. Seu passado é trágico. O pai está nacadeia, preso por ter matado a mãe quando supostamente a teriaencontrado com um amante. O garoto é sedutor, muito inteligentee consegue interessar um homem que perdeu o filho adolescentecomo ele.A história parece sólida, e lembra, até certo ponto, omaravilhoso O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, vencedor doFestival de Cannes. Também na história de Moretti há umpsiquiatra, um filho que morre antes do pai, o abandono daclínica e um longo processo de luto. Trabalho de luto, comodefinia Freud, pois se trata disso quando se perde alguémquerido. A história de Moretti (que interpreta o papel do pai) ésimplesmente essa: o acompanhamento do luto e de sua resoluçãopossível.No Limite do Silêncio parte da mesma premissa echega a conclusões diferentes, o que é inevitável dado o oceanode distância que separa a cultura americana da italiana. Querdizer, por mais que as lojas do McDonald´s sejam onipresentes,há uma diferença cultural de fundo que dificilmente aglobalização poderá abolir. Pelo menos não a curto prazo.Desse modo, apesar do começo cheio de impasses (e porisso mesmo interessante), logo o filme será posto "nostrilhos", encaminhando-se para a solução de todos os problemase o inevitável final redentor. É, também, um traço cultural.Nesse meio caminho, quem escreveu o roteiro e o filmou - MiguelTejada-Flores e Tom McLoughlin, respectivamente - encontraespaço para perseguições de automóveis, cenas sanguinolentas eum suspense que não se resolve lá muito bem.Dessa maneira o filme suprime a inspiração contida notítulo original, The Unsaid. Como sabem todos os psis, onão-dito em geral é mais importante que o dito. Silêncios erecalques são reveladores e neles reside o xis do problema.Dessa forma, o espectador deveria ser conduzido por alguns fatosdo passado que nem o psiquiatra nem o seu paciente dizem, umaespécie de verdade latente que traria mistério e densidade paraa trama. Mas nesse caso, pensa Hollywood, o espectador teriadificuldade de entender. Então é preciso mastigar tudo, tornarclaros todos os detalhes. Assim, adeus mistério, adeus sutileza.E adeus filme.No Limite Do Silêncio (The Unsaid) - Suspense.Dir. TomMcLoughlin. Can-EUA/2001. Dur. 109 min. 16 anos.

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