Casa de Criação Cinema
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No filme 'O Pai da Rita', com Ailton Graça, a afirmação da negritude se dá pelo humor

Longa Joel Zito Araújo traz à luz a convivência no bairro do Bexiga, sem culpabilização; veja o trailer

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

01 de junho de 2022 | 05h01

Em O Pai da Rita, Pudim (Ailton Graça) e Roque (Wilson Rabelo) são dois amigos que dividem um apartamento no Bairro do Bexiga, em São Paulo. Sambistas e compositores da escola de samba do bairro, a tradicional Vai-Vai, veem a amizade abalada pela chegada de um fator externo. Certo dia, entra em cena outra personagem, a bela enfermeira Rita (Jéssica Barbosa) e bagunça o coreto da dupla. Triângulo amoroso? Nada disso. Algo ainda mais grave, uma feroz disputa pela paternidade. 

O enredo, que indica a princípio uma comédia de costumes, leva a assinatura de Joel Zito Araújo. Cineasta da causa da negritude, ele é autor de Filhas do Vento, que brilhou no Festival de Gramado de 2004 levando uma penca de prêmios. É também autor de documentários fundamentais como A Negação do Brasil e Meu Amigo Fela - este sobre o grande músico nigeriano Fela Kuti

Bastante apoiado pela fotografia calorosa de Lauro Escorel, Joel Zito retrata um Bexiga que pertence mais à tradição que à realidade atual. Aliás, um dos sambas da trilha musical denuncia a especulação imobiliária que está destruindo o bairro antigo e o transformando em outra coisa. Saem as classes populares, que fizeram a alma do local, e entra a classe média alta que vai ocupar os novos prédios de apartamento no bairro de localização privilegiada, encostado na Avenida Paulista. 

Não há, no entanto, qualquer saudosismo nem lamentações na maneira como esse reduto da paulistanidade raiz é retratado. Nele, está presente essa simbiose rica entre a população negra e os imigrantes italianos e seus descendentes.

Brasilidade

A escola de samba convive com as cantinas, o batuque rima com o sotaque cantado da italianada. Geraldo Filme e Adoniran Barbosa. Dá gosto ver. E ouvir. A história, saída do argumento do próprio Joel Zito e desenvolvida no roteiro de Di Moretti, evoca no fundo essa brasilidade em vias de se perder, ou talvez já completamente perdida num país amargo, polarizado e tomado por ódios. Uma certa malandragem ainda inocente, o convívio festivo e musical, o amor, a amizade, o despojamento, o valor dos laços afetivos.

Há trunfos fortes a favor desse filme e do tipo de cinema que representa. A afinação do trio central (Jéssica Barbosa, Ailton Graça e Wilson Rabelo) é a mais notória. Outros personagens se somam com destaque, como o dono da cantina vivido por Paulo Betti, o proprietário do boteco interpretado por Francisco Gaspar, além das presenças marcantes de divas como Léa Garcia e Elisa Lucinda. O grande Osvaldinho da Cuíca marca sua presença em cena em meio a outros músicos. 

Esse painel social destaca a importância da cultura negra, uma afirmação que se dá sem qualquer discurso externo à ação dos personagens em cena. Daí sua naturalidade, isenta de didatismos ou culpabilização. Afirma algo simples: a matriz do nosso país é essa e ponto final. Devemos celebrar esse encontro e não existe melhor afirmação antirracista do que esta. 

Em O Pai da Rita, a afirmação da negritude vem na contraluz de uma história bastante divertida e recheada de momentos de emoção. Essa mescla de sentimentos e alusões de fundo a um quadro social mais amplo faz pensar nas comédias italianas de Dino Risi e de Mário Monicelli. Brincando, divertindo o espectador, usando o humor e a ironia, eram capazes de abordar temas de profundidade, sem qualquer ostentação ou falso intelectualismo. O cinema de público ganha com isso. 

 

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