California Filmes
California Filmes

No filme 'Entardecer', de László Nemes, nada é claro nem é para ser

'Entardecer', em cartaz em São Paulo, é sobre o nascimento do século 20 e o diretor húngaro se recusa a dar informações adicionais para ajudar a entender o filme; assista ao trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2019 | 03h00

Desde que seu longa Entardecer foi exibido nos festivais de Veneza e Toronto, no ano passado, o húngaro László Nemes tem falado muito sobre suas opções narrativas, mas tem sido um tanto discreto quanto ao tema do longa que estreou no Brasil no dia 2.

Na coletiva que pode ser pesquisada no site de Veneza chegou a exasperar-se. “Não me peçam nenhuma informação adicional para ajudar a esclarecer as coisas.” Para ele, Entardecer é sobre o nascimento do século 20, a partir de um mergulho nas profundezas da alma humana.

Objetivamente, o filme adota o mesmo parti pris narrativo de O Filho de Saul, o longa anterior de Nemes, premiado em Cannes e no Oscar (com a estatueta de filme estrangeiro). Câmera grudada no personagem, reproduzindo seu ponto de vista ou direcionando o olhar. Não por acaso, o cineasta filma repetidas vezes a nuca da Juli Jakab, que se assemelha (um pouco) a Emma Watson, da série Harry Potter.

Nemes raramente abre os planos, permanecendo com seu campo limitado. E são planos-sequência de certa duração, para dar uma ideia de continuidade. É, claramente, um diretor que controla o que o espectador deve ver. Essa parcimônia não é só estilo, mas também carrega uma intenção dramática.

Em O Filho de Saul, o protagonista é um judeu que trabalha na limpeza dos fornos crematórios do campo de extermínio e busca encontrar o cadáver do filho, para lhe dar um enterro ritual. Aqui, a protagonista, Irisz Leiter, também busca alguma coisa. De volta a Budapeste, em 1913, no momento em que o império áustro-húngaro ainda está no auge, mas vai ruir, ela tenta conseguir trabalho no ateliê que pertenceu a seus pais. Descobre que a Casa Leiter vive um momento singular. O nome é malvisto por conta de um crime que teria sido cometido pelo irmão.

Ela busca esse irmão ligado a um grupo terrorista. E como a busca de Saul revelava toda a barbárie do nazismo, lançando um outro olhar sobre o Holocausto, a busca de Irisz é ferramenta para que Nemes reflita sobre a crise que lançou a Europa na Primeira Grande Guerra. Como a destruição segue-se ao ápice da civilização. Todo o movimento do filme converge para o final nas trincheiras, como se Nemes estivesse tentando decifrar os motivos daquela guerra. 

É um filme rigoroso, opressivo e belo – à sua maneira. Música, fotografia, direção de arte e figurinos recriam um mundo destinado a desaparecer.

Uma frase é decisiva – “Toda essa beleza do mundo (representada pelos elegantes chapéus da Casa Leiter) não basta para esconder o horror.” O fato de ser uma protagonista não se liga só a esse conceito de beleza, mas ao fato de o filme querer discutir a condição da mulher no alvorecer do século passado. A viúva do homem supostamente brutalizado pelo irmão de Irisz sofre o violento assédio de um aristocrata e, no próprio ateliê, há uma trama meio velada segundo a qual uma das trabalhadoras será premiada para servir na corte, mas esse prêmio carrega algo de sórdido. 

Tráfico de mulheres, prostituição? A chave é a relação de Irisz com o irmão o lugar (dele?) que ela ocupa ao se vestir de homem. Nada é claro, nem é para ser. O limite, a forma impõe-se ao conteúdo e o filme provoca uma admiração gélida. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
HolocaustoLászló Nemesnazismocinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.