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No filme ‘Amonite’, Kate Winslet brilha como uma esquecida paleontóloga

Diretor Francis Lee fala ao 'Estadão' sobre o longa que chega ao Brasil nesta quarta, 2, para aluguel e compra em plataformas como Now e Apple TV

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADÃO 

02 de junho de 2021 | 05h00

Provavelmente, você nunca ouviu falar de Mary Anning. Nascida na Inglaterra em 1799, ela foi uma das maiores paleontólogas da história. Mas nascida mulher, de classe trabalhadora e pobre, seus feitos foram apagados. Em alguns casos, literalmente, com homens comprando fósseis descobertos por ela por pouco dinheiro e tomando o crédito para si. Então foi por acaso que o diretor Francis Lee (Reino de Deus) topou com ela. “Eu estava procurando um presente. Queria uma pedra ou um fóssil”, disse o cineasta em entrevista ao Estadão. “E o nome de Mary Anning aparecia toda hora na minha pesquisa.”

Foi assim que nasceu Amonite, que criou um certo barulho pela interpretação primorosa de Kate Winslet, mas acabou se perdendo no caminho para o Oscar. O filme chega nesta quarta, 2, ao Brasil para aluguel e compra em plataformas como Now e Apple TV. “Fiquei imediatamente atraído por ser essa mulher da classe operária, pobre, com pouco acesso à educação, que por meio de seu talento, conhecimento autodidata, determinação e uma vontade de sobreviver, tornou-se uma das maiores paleontólogas de sua geração”, disse Lee. “E, claro, tudo isso numa sociedade extremamente patriarcal.” 

O diretor viu em Mary Anning paralelos com sua própria vida. “Eu também vim de uma família da classe trabalhadora do norte da Inglaterra, não tive uma grande educação. Sempre soube que queria escrever e talvez dirigir, mas não sabia se era possível. Olhava para a indústria cinematográfica e via gente de classe média, educada, privilegiada.” 

Sua intenção não era fazer uma biografia clássica, mas sim um retrato de sua vida, da qual se sabia pouco. “Ela era uma voz escondida”, disse Lee. “Queria fazer tudo para exaltá-la, respeitá-la, dar a ela um pouco do status que deveria ter tido quando era viva.” Havia a informação de que Anning jamais se casou ou mesmo teve um relacionamento com um homem. E evidências de que ela tinha tido muitas amizades com mulheres. 

Francis Lee imaginou que Mary Anning teria tido relacionamentos amorosos e sexuais com outras mulheres. Especialmente com Charlotte, interpretada por Saoirse Ronan, uma mulher casada que realmente ficou na casa de Mary e trabalhou com ela. O diretor recebeu críticas por ter criado o romance. “A verdade é que, com figuras históricas, a não ser que houvesse provas irrefutáveis de homossexualidade, os historiadores assumiam que a pessoa era heterossexual. Mas isso é um preconceito.” 

Para Kate Winslet e Saoirse Ronan, foi uma honra fazer um filme de temática LGBTQ. “Espero que vejamos mais produções assim”, disse Winslet em entrevista com participação do Estadão. “É uma história de amor feminina. De amor do mesmo sexo. Ela tem essa conexão com outra mulher por causa do trabalho. É uma história importante de compartilhar.”

O relacionamento entre as duas é ditado pelas normas da época, mas as cenas de sexo foram ditadas pelas duas atrizes. “Elas não estavam muito estabelecidas no roteiro, e Francis nos deu espaço para tomar as rédeas da coreografia”, disse Ronan. Para Winslet, a experiência fez com que repensasse todas as cenas íntimas que fez no passado. “Fiquei me questionando se tinha caído nas armadilhas e nos estereótipos.” 

Isso já rendeu frutos em trabalhos posteriores, como Mare of Easttown, a série da HBO que terminou no domingo. Uma cena de sexo entre Mare e Richard (Guy Pearce) foi regravada a pedido da atriz. “Mudamos tudo, e ficou muito melhor. Porque era o certo para a história e para minha personagem.” Na cena em questão, os dois iam para a cama no quarto dele. E Winslet pensou: Mare jamais iria ao quarto de um estranho. A cena foi transferida para a sala, e Mare, transformada numa participante tão ativa quanto Richard. “Aprendi muito. Todos estamos aprendendo, porque queremos viver num lugar de mais inclusão, compaixão e equidade. É uma época interessante e um privilégio poder contribuir de alguma forma.”

Entrevista com Kate Winslet: '‘É difícil mulher ter seu projeto financiado’

Em Hollywood, as atrizes ainda não são levadas a sério?

Está mudando. Estamos vendo mais papéis interessantes para mulheres e diretoras, roteiristas, diretoras de fotografia. Em Mare of Easttown, tínhamos uma equipe 50/50. O que levará um pouco mais de tempo é a velocidade com que as pessoas estão preparadas para financiar e apoiar histórias femininas. Para uma mulher, ainda é muito difícil conseguir ter seu projeto financiado. 

Como ensina seus filhos sobre amor e diversidade?

Meu filho de seis anos estava desenhando e falamos de cores diferentes de rostos. Bear sabe disso, mas apenas para lembrar continuamente. Temos muitos amigos LGBTQ. Ele acha um absurdo haver um banheiro masculino e outro feminino na escola, mas não um para quem não decidiu ainda. Minha intenção não é fazer com que ele perceba como as pessoas são diferentes, mas apenas aceitar que estamos todos unidos. 

Atores heterossexuais podem interpretar pessoas gays?

No primeiro filme que fiz, Almas Gêmeas, de Peter Jackson, interpretei uma lésbica. Poderia não ter tido uma carreira se não tivesse sido escalada para esse papel. E se tivessem me perguntado, aos 16 anos, se eu era hétero ou gay, não sei o que isso teria feito comigo, emocionalmente. Minha esperança, com Amonite, é que de alguma forma tenhamos dado uma contribuição saudável para a evolução de como o público vê as pessoas LGBTQ e seus relacionamentos. / M.M.


Kate Winslet admite sentir falta da detetive que interpretou na produção e que lhe deixa como favorita ao Emmy

Ainda faltam três meses e meio para o Emmy, mas um prêmio já parece garantido: de melhor atriz de série limitada ou filme para Kate Winslet, por seu trabalho estupendo como a detetive de Mare of Easttown, que terminou no domingo, 30, com reviravolta e drama. Boas atuações de Winslet não são exatamente novidade – a atriz foi indicada sete vezes para o Oscar, vencendo uma, e duas para o Emmy, ganhando uma também. Mas sua interpretação de Mare Sheehan é uma daquelas de ficar na história. Junto com Amonite, prova que ela está no auge. 

Para começo de conversa, teve o sotaque. O jeito de falar dos moradores do Condado de Delaware, nos subúrbios da Filadélfia, é difícil de acertar. Mas a inglesa de 45 anos foi elogiada com unanimidade. Fora isso, ela faz uma mulher que tenta manter a fachada durona, enquanto desmorona por dentro por causa do luto, que é extremamente competente e responsável com a pequena comunidade onde vive. Ao jornal The New York Times, ela admitiu que ficou impressionada de o público ter se apaixonado “por essa mulher incrivelmente cheia de falhas, complicada, despedaçada, fragmentada, difícil. Eu amo suas marcas e suas cicatrizes e suas falhas e seus defeitos e o fato de que ela não tem botão de desligar, não tem botão de parar. Ela só conhece o ‘vá adiante’”. A atriz ainda disse: “Não apenas tive de me esconder completamente na personagem, mas também a história, carregar o segredo”, em referência ao mistério de quem matou a adolescente Erin (Cailee Spaeny). “Eu mantive em segredo desde 2018, quando li os roteiros.

Meu trabalho era levar o público nessa jornada horrenda e esperar que ele estivesse preparado a subir ao sótão comigo no final. Foi uma agonia. Você pode perceber que ainda estou... Eu não consigo lidar com isso. É ridículo”, disse a atriz, emocionada. 

Na série, muitos assuntos são abordados, das amizades femininas ao luto, da vida na cidade pequena à crise dos opioides, da violência contra a mulher à pobreza. Mas Winslet resume assim Mare of Easttown: “A série trata de mães protegendo seus filhos a todo custo, e o que uma mãe e um pai são capazes de fazer para proteger suas crias”. 

Para Winslet, Mare é como uma volta aos tempos de Titanic, em que interpretou uma outra garota da Filadélfia e ganhou fama mundial. “Estou nas laterais dos ônibus de novo!” A diferença é que desta vez ela brigou para ter suas linhas de expressão facial colocadas de volta nos anúncios, depois de retocadas. 

Ela se preparou mais para Mare do que para qualquer outro papel em sua vida. E valeu a pena. Até a primeira-dama Jill Biden, que é da área, elogiou a série. Kate Winslet admitiu à TV Line que adoraria voltar a interpretá-la. “Eu sinto falta dela. É como se estivesse de luto.” Nós também, Kate.

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