Gianni Fiorito
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No filme 'A Mão de Deus', Paolo Sorrentino usa Maradona para falar de sua cidade

Longa que concorre ao Oscar Internacional está no catálogo da Netflix

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 10h36

Na Copa de 1986, Maradona marcou um gol com a mão, na disputa com o goleiro. Foi uma espécie de desforra simbólica da derrota da Argentina pela Inglaterra na Guerra das Malvinas. Questionado sobre o lance irregular, Maradona limitou-se a dizer: “Foi a mão de Deus”. Ou seja, a Sua mão. A resposta, irônica e egóica, serve de título ao novo filme de Paolo Sorrentino, disponível na Netflix

Mas se engana quem pensa que A Mão de Deus é uma cinebiografia de Diego Armando Maradona. Interpretado por um ator (Daniele Vicorito), Maradona tem aparição fugaz neste que é, de fato, um filme memorialístico do napolitano Paolo Sorrentino. Através de Maradona, Sorrentino fala de si mesmo e de sua cidade. 

Seu alter ego é um rapaz jovem, Fabietto (Filippo Scotti), que vive com a família em Nápoles. Sonha deixar a cidade, mudar-se para Roma e tornar-se diretor de cinema. Mais ou menos como no passado fez o seu ídolo, Federico Fellini (1920-1993), ao deixar sua Rimini natal para trás e empregar-se em Roma como jornalista e desenhista, primeiro passo para sua estupenda carreira artística.

Fellini é uma espécie de modelo para Sorrentino, e já o reprovaram por isso. Seu A Grande Beleza (2013) é uma homenagem escancarada a uma das obras-primas fellinianas, A Doce Vida (1960), visão inaugural da modernidade com sua crítica irônica ao mundo do exibicionismo e ao jornalismo de celebridades. Em sua releitura, Sorrentino foi fiel à essência de A Doce Vida, que é o vazio inerente ao glamour da sociedade do espetáculo. 

Com 17 anos, Fabietto vive com sua família um tanto excêntrica. Nesse particular, o diálogo de Sorrentino é com outro filme de Fellini, o memorialístico Amarcord, talvez sua obra mais estimada pelo público porque faz da família seu núcleo temático. Todos sabem que o título, em dialeto de Rimini, significa “Eu me recordo". Em muitos sentidos, A Mão de Deus é o Amarcord de Paolo Sorrentino.

Nesse tour de memória, a família ocupa o centro, mas também aparece em relevo a confusa e excitante Nápoles, à qual chega Diego Armando Maradona para dar o primeiro “scudetto” ao time local. Fabietto acelera sua iniciação na vida depois de perder os pais num acidente trágico (fato real da biografia de Sorrentino). Conhece um marginal com o qual atravessa uma longa noite de loucuras, com direito a um passeio à Ilha de Capri em busca de companhia feminina. Também é apresentado a um artista local, o falastrão cineasta Capuano (Ciro Capano), que o desencoraja em seus planos de ir para Roma. Preferível ficar em casa, Nápoles, junto às suas raízes. 

Quem considera Sorrentino um epígono de Fellini, diz que ele se move pela mesma temática, com personagens semelhantes, mas sem o dom de misturar ternura e ironia com a sabedoria do mestre. Bom, esse é um tipo de comparação exigente demais, que nem deveria ser feita. É a mesma coisa que comparar um jogador de futebol emergente com Pelé ou Maradona. É covardia. 

Isso porque deve-se admitir que, mesmo com irregularidades, a obra de Sorrentino tem muitas qualidades. Seu diálogo com Fellini, se não for pura imitação, pode se mostrar produtivo. É o que acontece neste A Mão de Deus, típico filme de formação, portanto muito pessoal, usando o ponto de vista do adolescente como filtro para a realidade. 

Com suas lembranças transfiguradas pela memória e pela fantasia, Sorrentino impregna de verdade este filme evocativo. Vai da panorâmica ao plano fechado dos personagens, com a vista aérea do início aproximando-se da cidade, pouco a pouco. Depois, fixando-se na primeira figura do imaginário do autor, a exuberante tia Patrizia (Luisa Ranieri), objeto dos devaneios eróticos de Fabietto. Depois, entram em cena o pai e a mãe (Toni Servillo e Teresa Saponangelo), a avó desbocada (Dora Romano), a aristocrata do andar de cima (Betty Pedrazzi), os tios, os convidados dos intermináveis almoços e jantares na casa da família. Tudo tão Fellini, mas também tão napolitano, típico, saboroso, visceral. 

Alimentado pela própria experiência de vida, desta vez o barroquismo de Sorrentino parece não apenas natural como obrigatório. Não se trata de ostentação performática, mas de conteúdo em sua forma necessária. Por esse ajuste, A Mão de Deus logra colocar-se entre o riso, a emoção e a alegria pois o espectador se reconhece na tela, mesmo que sua experiência factual seja diferente. É assim, a arte: o diferente feito universal.

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