Monica Almeida/The New York Times
Monica Almeida/The New York Times

No filme 'A Colina Escarlate', Guillermo del Toro revisita terror da infância

Diretor mexicano fala sobre o filme

Mariane Morisawa, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 17h00

LOS ANGELES - Os espíritos sempre estão presentes nos filmes escritos e dirigidos pelo mexicano Guillermo del Toro. Em A Colina Escarlate eles fazem parte de um romance gótico com toques de terror e de conto de fadas sobre Edith (Mia Wasikowska), uma jovem à frente do seu tempo, na Nova York de 1901. Amada por seu amigo de infância, Dr. Alan McMichael (Charlie Hunnam), ela se encanta pelo misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), com quem se casa e se muda para o interior da Inglaterra. Na mansão caindo aos pedaços da família Sharpe, Edith começa a ver coisas estranhas e precisa lidar com a possessiva Lucille (Jessica Chastain), a irmã mais velha de seu marido. Del Toro conversou com o Estado em Los Angeles sobre sua nova aventura. 

Todos sabem da sua paixão por fantasmas. O que quis explorar em A Colina Escarlate?

Para mim, os fantasmas sempre são um passado não-resolvido e como ele se intromete na sua vida, no seu futuro. A Colina Escarlate é isso, é um choque entre o passado e o presente. Edith é o presente, é uma mulher moderna. Em 1901, ela tem de enfrentar um monte de coisas do passado, inclusive Lucille, que é uma mulher antiga. Lucille é ao mesmo tempo possessiva e subserviente, rígida e reprimida. Queria obedecer às regras do romance gótico. Não estamos reinventando o gênero, mas subvertendo um pouquinho.

 

Qual sua inspiração para A Colina Escarlate?

Gosto da proximidade entre contos de fada e histórias góticas. Há, na verdade, um conto de fadas chamado O Barba Azul, cuja história é bem parecida com a de A Colina Escarlate. E existe também um romance gótico chamado Uncle Silas, de Sheridan Le Fanu, que também é parecido com A Colina Escarlate. São três formas de literatura relacionadas, o conto de fadas, o gótico e o terror. Mas não são a mesma coisa. Então, minha inspiração foi tentar fazer uma mistura dessas três coisas que amo. 

Você escreve com o objetivo de ser assustador ou é só quando o público traz seu próprio passado para o filme que sente medo?

A realidade é que não dá para garantir sustos, risos ou estimulação erótica. Esses são três impulsos íntimos. A piada que é super engraçada para 80% do cinema é estúpida para os outros 20%. Então você só pode confiar no que te deixa com medo, te faz rir ou te deixa excitado. E aí torce para que parte do público concorde. 

Que elementos pessoais trouxe para a casa?

Ela foi desenhada para ser um mausoléu. A casa da minha família tinha longos corredores. Eu morria de medo. Então meus filmes sempre têm coisas no fim do corredor. Quando era pequeno, eu dormia com minha avó e, para ir ao banheiro, tinha de atravessar esse corredor comprido (risos). Sempre achava que ia ter alguma coisa me esperando lá.

 

Verdade que sentiu pena de Mia Wasikowska porque a filmagem foi dura para ela?

O filme exigia muita tensão. Ela precisa estar em pânico por um longo período. Vinte minutos na tela são semanas de filmagem. E é muito exaustivo. Fora o frio, rodamos no norte do Canadá, com temperaturas a baixo de zero e muito vento. Não foi um ambiente amigável. Mas ela é ótima.

 

Então tentava ajudá-la?

Sim. Com Charlie Hunnam era diferente, eu o torturava um pouco. Nas cenas no frio, colocava um cubo de gelo em suas axilas (risos). 

Hoje em dia você é um dos grandes nomes de Hollywood. Ainda precisa lutar pelo que quer?

Sim. Não me sinto assim como você descreveu (risos). A matemática é cruel, eu escrevi ou co-escrevi 23 roteiros e fiz dez filmes. Então foi apenas 40% do que tentei. Por exemplo, estou tentando financiar Pinóquio há cinco anos. 

Que outros sonhos tem?

Gostaria de voltar ao México e fazer um filme mexicano. Sinto muita falta do meu país. Nunca imaginei ter uma carreira internacional, ela aconteceu. E depois do sequestro do meu pai, não podia viver mais no México, então me tornei esse cineasta itinerante. Mas minha imaginação e tudo o mais são totalmente mexicanos, dá para perceber pela maneira como filmo o sobrenatural, de forma muito realista, e pela crueldade e a violência dos meus projetos. 

O que o impede de voltar?

Segurança. Não posso fazer enquanto minhas filhas são menores de idade. Meu pai foi sequestrado por 72 dias, pagamos o resgate, e eles não prenderam todos os bandidos. Posso ser ousado com minha vida, mas não com minha família. 

Você é viciado em trabalho?

Sim, mas neste ano vou oficialmente me aposentar da minha carreira de produtor. Agora vou só dirigir e escrever. 

 

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