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No Festival de Brasilia, ‘Depois da Chuva’ mantém atualidade nos quase 30 anos das Diretas-Já

Filme situa-se na transição para a democracia

Luiz Zanin Oricchio / Brasília, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2013 | 22h14

O público aplaudiu bastante Depois da Chuva, longa-metragem baiano de Cláudio Marques e Marilia Hughes. O longa entra numa seara ainda pouco explorada pela produção nacional, tão pródiga em filmes sobre a ditadura: debruça-se sobre outro momento histórico, justamente a transição para a democracia com a campanha das Diretas-Já, a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral e a posse de José Sarney em virtude da morte do presidente eleito.

“A motivação para fazer o filme foi de fato a ausência de outros trabalhos sobre esse período tão importante da nossa história”, diz Cláudio Marques. “Eu me lembro do período das Diretas como aquele em que despertei para a vida adulta, para as questões políticas e amorosas”, acrescenta. “Lembro da sensação de liberdade e, ao mesmo tempo, a impotência ao ver Sarney assumir.” O filme adquire maior atualidade ainda quando se pensa que 2014 marcará os 50 anos do golpe civil-militar e os 30 das Diretas-Já. O que tudo isso significou para as cabeças jovens, adolescentes que chegavam à idade adulta justamente naquele período?

É o que tenta responder Depois da Chuva, usando as ferramentas da ficção. No meio do torvelinho político, o foco recai sobre Caio (Pedro Maia, em sua estreia no cinema), aluno de um colégio de classe média em Salvador, filho de pais separados e coração pendendo para o lado das ideias anarquistas. Ao mesmo tempo, na escola realiza-se a eleição para o grêmio estudantil, a primeira desde o golpe. Para vencê-la será preciso assumir um compromisso com a diretoria. Ou vale a pena lutar por princípios, mesmo que estes inviabilizem a eleição? Esse dilema interno da escola é óbvia metáfora do que ocorre com a sociedade brasileira em seu todo.

O filme respira por sua pulsão e frescor, impulsionados em especial pela espontaneidade do elenco jovem. Mas a direção acerta ao buscar tom pouco épico, contrapondo a política oficial à política dos corpos dos jovens. A inspiração, segundo a diretora Marília Hughes, veio de filmes como Água Fria, de Olivier Assayas, e Amores Constantes, de Philippe Garrel. A contradição entre os políticos e os jovens aparece, por exemplo, no confronto entre uma cena documental com Tancredo Neves pronunciando um discurso muito formal e os jovens, descontraídos, fumando um baseado.

O outro concorrente da noite foi o interessante e divertido O Mestre e o Divino, de Tiago Campos, documentário que faz parte do projeto Vídeo nas Aldeias, de Vincent Carelli. A ideia básica é fazer dos índios cineastas, para que produzam suas próprias imagens. Mas, aqui, a situação é mais complexa.

No caso, temos o encontro entre dois cineastas, filmados por um terceiro – um, o xavante Divino Tserewahú; outro, o excêntrico missionário alemão Adalbert Heide, possuidor de grande acervo fílmico sobre os xavantes. A amizade entre o índio e o missionário é registrada por Tiago Campos.

O resultado é muito curioso. Rapidamente a ponta da cena é assumida pelo alemão, Adalberto, um padre salesiano rígido, porém de grande carisma. Seu gigantesco acervo possui registros interessantes de rituais e também das façanhas do padre. Registra cerimoniais híbridos, como a hóstia sendo servida em cabaças indígenas, o que ele define como “autêntica (sic) missa xavante”. Há, assim, um lado quase surreal, como sugere essa evangelização à moda antiga.

Na maneira de filmar, e na interação entre o Mestre (Adalberto) e o Divino, o índio xavante, há suficiente distanciamento e ironia para percebermos as contradições dessa relação assimétrica. Para definir os salesianos, Divino, que compareceu ao debate, usa a expressão precisa: “Eles são funcionários de Deus”.

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