Omer Messinger/EFE
Omer Messinger/EFE

No documentário 'Coronation', Ai Weiwei retrata o lockdown em Wuhan

Artista chinês driblou a censura do país para produzir o filme

Ian Johnson, The New York Times

25 de agosto de 2020 | 05h00

LONDRES - Em janeiro, a cidade de Wuhan, na China, foi a primeira no mundo a ser submetida a um severo confinamento para combater a pandemia do coronavírus. Sob muitos aspectos esse período crucial permanece um mistério, com poucas imagens escapando do controle dos censores.

Um novo filme do artista e ativista chinês Ai Weiwei preenche parte dessa história oculta. Embora viva hoje na Europa, ele dirigiu remotamente dezenas de voluntários por toda a China para produzir o documentário Coronation, um retrato do draconiano lockdown de Wuhan e de um país que conseguiu mobilizar enormes recursos, mesmo que o custo humano tenha sido muito alto.

“O público tem de compreender que se trata da China. Sim, e é sobre o lockdown acarretado pela pandemia, mas tentamos refletir o que os chineses comuns vivenciaram”, disse Ai em entrevista por telefone de Portugal.

Apesar dos deslizes no início, a China se saiu melhor do que muitos países no controle da epidemia, com 4.700 mortes, em comparação com as mais de 172 mil nos Estados Unidos. O Partido Comunista fez o máximo para ocultar as imagens de dor e raiva, mas ainda retém um amplo apoio da sua população pelos esforços empreendidos.

O filme reflete essa história mais ampla por meio de vinhetas que acompanham os eventos cronologicamente. Ela começa em 23 de janeiro, com um casal seguindo de carro à noite por uma rua coberta de neve em direção à sua casa, em um subúrbio de Wuhan, e termina em oito de abril com as pessoas queimando papel-moeda na esquina de uma rua – uma oferta aos mortos na tradição chinesa.

O filme está entremeado de cenas e histórias excepcionais por seu raro acesso à máquina do Estado chinês, incluindo imagens de um hospital sendo construído em questão de dias e dentro de uma unidade de terapia intensiva, além de cenas de funcionários da área médica sendo recompensados com sua adesão ao Partido Comunista e de trabalhadores em um crematório amassando sacos de cinza humana de modo que caibam nas urnas.

A impressão geral, especialmente na primeira meia hora do filme, é de uma eficiência impressionante. Equipes rapidamente levantam quartos pré-fabricados. Os aparelhos de UTI apitam e emitem ruídos surdos. Os novos membros do Partido prestam juramento com o punho direito levantado e os trabalhadores no crematório trabalham tanto que se queixam de dor nas mãos.

À medida que o filme avança, o custo humano fica mais aparente. Um trabalhador voluntário cuja tarefa foi concluída não tem permissão para deixar a zona de quarentena, de modo que dorme no seu carro numa garagem de estacionamento. Pessoas que perderam familiares choram inconsoláveis num crematório e um homem luta para ser autorizado a levar a urna do seu pai sem autoridades do governo presentes – o que não é permitido porque existe o temor de que a dor se transforme em ira contra o governo por ter permitido que o vírus se propagasse sem controle.

Embora mais conhecido por suas enormes instalações, Ai Weiwei com frequência aborda temas sensíveis na China por meio de filmes, incluindo um documentário sobre um homem que assassinou seis policiais em Xangai e um outro sobre as razões pelas quais tantas escolas desmoronaram no terremoto em Wenchuan, em 2008.

“Contei com uma equipe que conseguiu começar rapidamente. Nem mesmo perguntaram o que eu queria”, disse Ai, referindo-se à produção de Coronation. Além dos voluntários e equipes pagas, Ai foi auxiliado por sua sócia, Wang Fen, que tem irmãos que vivem em Wuhan. “Ela teve um envolvimento profundamente emotivo”, afirmou ainda o artista.

As cenas mais difíceis de filmar foram dentro da UTI, afirmou Ai, mas não pôde divulgar como foi filmado. Disse que muita coisa foi feita com câmeras de vídeo manuais do tamanho de um smartphone. O que ajudou foi o fato de muitas pessoas estarem usando máscaras, o que as deixou menos preocupadas em ter problemas por se expressar diante de uma câmera.

Ai reuniu quase 500 horas de gravação que ele e sua equipe editaram para realizar um documentário de aproximadamente duas horas.

O filme está disponível nos Estados Unidos no Alamo on Demand e em outras partes do mundo no Vimeo on Demand. Ai disse que esperava exibir o documentário primeiro num festival de cinema, mas festivais de Nova York, Toronto e Veneza, que manifestaram interesse no início, acabaram recusando sua oferta. Segundo ele, Amazon e Netflix também rejeitaram o filme.

Ele diz ter a impressão de que isso ocorreu porque muitos festivais e empresas querem manter negócios na China e assim evitam assuntos que podem irritar Pequim, o que outros diretores chineses dizem ser comum.

O Festival de Cinema de Veneza não comentou sua decisão e o Festival de Filmes Independentes de Toronto e a Amazon não se manifestaram. Outros negam que a política tenha influência. A Netflix diz estar trabalhando no seu próprio documentário sobre o vírus, ao passo que o assessor de imprensa do Festival de Cinema de Nova York alegou em um e-mail: “Desejamos enfatizar que pressões políticas nunca tiveram papel algum na seleção da curadoria do festival”.

Ai disse que o filme mostra como os sucessos tecnocratas da China constituem um enorme desafio para as sociedades abertas. Sua marca de capitalismo de Estado gerou décadas de crescimento rápido e tirou milhões de pessoas da pobreza absoluta. “Mas não se trata do quão eficientemente você toma decisões e sim do que você oferece para a sociedade. Neste aspecto, a China não tem respostas”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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