No cinema, o velho e bom tango como prática de liberdade

'Tango Livre' ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2014 | 18h59

Os argentinos não podem se queixar. Na tradição aberta por O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, sua dança nacional continua na ordem do dia no imaginário europeu, um posto que, por exemplo, o samba jamais atingiu. Ponto para os hermanos. O mais recente avatar dessa devoção musical é Tango Livre, do belga Fréderic Fonteyne, o mesmo de Uma Relação Pornográfica (1999), já lançado por aqui. Tango Livre concorreu em Veneza, na mostra paralela Horizontes, e lá ganhou o Prêmio Especial do Júri, uma distinção nada desprezível. Pelo contrário, muitas vezes na Horizontes se encontram concorrentes mais interessantes do que na mostra principal.

E há mesmo alguma coisa de especial na história do guarda de prisão que frequenta uma academia de tango e lá conhece a mulher de um detento sob sua guarda. JC (François Damiens) se encanta por Alice (Anne Paulicevich), sem desconfiar da complicada vida amorosa da mulher. Tímido e desajeitado, JC mexe com dinamite pura enquanto ensaia seus primeiros passos na complicada dança portenha.

Mas o que conquista o espectador não é tanto a ciranda sensual de Alice e sim o papel da dança nessa história que, de realista no início, evolui para um registro quase da fábula em seu desenvolvimento. Enciumado por saber que sua mulher dança com o guarda da cadeia, o prisioneiro Fernand (Sergi López) pede lições de tango a um presidiário argentino. A este, interpretado pelo bailarino Mariano ‘Chico’ Frumboli, se devem alguns dos momentos mais plásticos e inesperados desse estranho tango bailado no cárcere.

A mudança de registro, do realista para o fabular, pede alguma adaptação ao espectador. Um certo jogo de cintura típico de um bom bailarino. Se você disser algo do tipo “Ah, as coisas não são bem assim” já se coloca fora do jogo proposto. Melhor é suspender a incredulidade e ver até onde esses passos ora indecisos ora muito destros ainda podem levar a história.

Sem adiantar-se ao seu desenvolvimento, pode-se garantir que não falta a Tango Livre um certo engenho. Não é aquele tipo de filme previsível a cada passo, como costumam ser as produções de grande orçamento. Ele surpreende.

Bons intérpretes, uma ideia inspirada e um espírito original a guiá-la: falta, no entanto, a esse filme de alma feminina, um pouco de confiança maior no poder da imagem. Onde esse poderio falha, cai-se no excesso retórico. Daí serem marcantes as cenas de dança nas quais, sem necessidade de afirmação verbal, a equação central fica clara. Tango = liberdade.

A dança, a arte em geral, não precisa ser promessa de felicidade, nem de paz ou mesmo de consolo. Pode ser tudo isso, mas é sobretudo promessa de liberação. Pena que nem sempre, ao longo da história, essa característica se imponha. Mas é um bonito filme, afinal.

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