No Cine PE, documentários provocam: o que é a arquitetura sem gente?

‘1960’, de Rodrigo Areias, ecoa debate que já ocorreu em Berlim com ‘Catedrais da Cultura’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2014 | 18h57

Dois documentários de temas e estilos diversos integram a mostra competitiva do gênero no 18.º Cine PE. O primeiro deles, exibido na noite de domingo, foi 1960, de Rodrigo Areias. O outro, E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, passou na segunda à noite. 1960 passou tão tarde que boa parte, senão todo o público, desertou, e, por isso mesmo terá nova exibição na tarde de terça, precedendo a premiação de documentários, que será à noite.

E Agora? Acompanha a via-crúcis de um soropositivo que, por mais de 20 anos, tem sido cobaia de experimentos para se manter vivo. Por meio desse personagem, e da sua vontade de viver, o diretor aborda o tema da poderosa industria farmacêutica. Mas o filme é também o retrato desse homem e a viagem no tempo, nas lembranças, integra o filme no projeto de discutir a memória, que é o foco curatorial do crítico Rodrigo Fonseca. 1960 viaja em outro universo, o da arquitetura.

Rodrigo Eiras tem estado por trás de todos os filmes realizados na cidade portuguesa de Guimarães, com os recursos arregimentados quando ela foi a capital europeia da cultura, em 2012. Você se lembra de Centro Histórico, com o genial episódio de Victor Erice, e de 3X3-D, com curtas de, entre outros, Jean-Luc Godard e Peter Greenaway. 1960 baseia-se no Diário de Bordo do arquiteto Fernando Távora. Há 54 anos – em 1960 – ele deu uma volta ao mundo registrando em filmes domésticos em super-8 suas impressões sobre os países que visitava, e o seus prédios.

Os filmes de época dão certa precariedade ao longa, mas é justamente esse registro antigo que faz a beleza do filme. Nova York, Tóquio, Moscou, Hollywood, Paris, São Paulo, Cidade do México. Não apenas o olhar, mas o texto de Távora nos conduz nessa viagem pela memória das cidades. O que são os prédios? Qual é o sentido da arquitetura senão servir ao homem? Távora aproveita e tece discursos sobre comportamento, sobre arte. Critica Ben-Hur, o grande êxito nos cinemas norte-americanos em 1960. Sai da desumanidade de Nova York, que já era uma megalópole e cai no caos da Cidade do México. Descobre a vida em prédios que mesclam estilos, ou que não têm estilo nenhum, mas têm gente.

É a pergunta do filme – o quer é a arquitetura sem gente? Em São Paulo, Areias resgata o filme que Fernando Távora fez sobre o Edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, no Centro da Cidade. Com liberdade poéticas, mostra um áudio radiofônico de 1960, sobre a renúncia de Jânio Quadros, e chega às manifestações de meados do ano passado, em pleno governo Dilma Rousseff, meio século depois. É um trabalho bonito, delicado. Deve interessar mais que aos arquitetos, somente. Em Berlim, em fevereiro, já houve Catedrais da Cultura. O tema da arquitetura ganha espaço nos festivais. A par da estética, se isso ajudar a discutir o planejamento urbano, o resultado será mais que compensatório.

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