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No Cine PE, ‘Anos Felizes’ reata tradição da comédia italiana

Adaptação de Fernando Sabino, ‘O Menino do Espelho’ enche os olhos do cinéfilo

Luiz Carlos Merten, Recife - O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2014 | 18h25

Na coletiva de O Mercado de Notícias, belo documentário que ganhou o prêmio da categoria no Cine PE, Jorge Furtado fez uma confissão. Disse que o próximo filme, já em produção, será um drama, o primeiro de sua carreira. Até aqui tem feito comédias, e prefere as tristes, como as de Charles Chaplin, que definiu como "o maior artista do cinema".

Jorge Furtado poderia estar falando de Anos Felizes, de Daniele Luchetti, que integra a competição internacional e passou na quarta-feira à noite. O Cine PE termina nesta sexta-feira. Ainda faltava exibir na quinta-feira os últimos filmes da competição, dois nacionais: Romance Policial, de Jorge Durán, e Muitos Homens Num Só, de Mini Kerti. Pode ter vindo surpresa daí, mas só um júri muito louco poderá ignorar Luchetti.

Na entrevista que deu ao Estado, explicando sua curadoria no Cine PE, o crítico Rodrigo Fonseca disse que a seleção privilegiava um recorte (de temas e filmes). Ele selecionou obras preocupadas em discutir a identidade e a memória, e esta última subentendia não apenas a lembrança individual, mas algo que está no inconsciente coletivo. Anos Felizes tenta reatar com a tradição da grande comédia italiana dos anos 1960. Nosso imaginário de cinéfilos está cheio de lembranças de grandes filmes de Dino Risi, Mario Monicelli, Luigi Comencini, os mestres italianos do humor. Daniele Luchetti debruça-se sobre aquela grande escola. É o diretor de Meu Irmão É Filho Único e A Nossa Vida.

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Seu filme conta a história de um garoto que toma consciência do mundo munido de uma câmera de filmar. Com o irmão mais jovem, ele acompanha a mãe, que parte em viagem de férias. Vão para o mar, e a mãe é acompanhada por uma amiga lésbica.

Vai surgir daí uma história que a mãe define como "importante". Ao contrário do pai, um artista que não resiste a um rabo de saia, mas para quem as outras mulheres não significam nada, a experiência homoerótica será decisiva para a mãe.

A família desintegra-se, reintegra-se. O garoto filma tudo, mas só agora, como narrador, com a distância proporcionada pelo tempo, ele pode dizer que aqueles foram anos felizes de sua vida.

Anni Felici é um filme encantador e a sessão terminou sob uma trovoada de aplausos. Kim Rossi Stuart, que faz o pai, e Micaela Ramazzotti, a mãe, são ótimos e o garoto Samuel Garofalo também é muito bom. Existem momentos em que seu olhar grave faz dele o verdadeiro adulto da história.

Infância. Um outro menino ocupou a segunda parte da noite de quarta, no Cine PE. Foi o pequeno protagonista de O Menino no Espelho, que Guilherme Fiúza Zenha adaptou do livro de Fernando Sabino (que está sendo reeditado numa edição belíssima, com as ilustrações da edição original). Como A Guerra dos Botões, de Yves Robert, e Os Meninos da Rua Paulo, que teve várias versões, e o próprio Pequeno Nicolas, de Laurent Tirard, O Menino no Espelho coloca a questão da memória, mas outra que ecoa no imaginário do cinéfilo.

Filme infantil ou sobre a infância? A história passa-se em Belo Horizonte, numa data que Sabino não precisa e Guilherme Fiúza situou em 1938. Ele filmou em Cataguases, onde o pioneiro Humberto Mauro iniciou seu ciclo que forjou o cinema brasileiro. Há um cinema na ficção do diretor, que não está no livro. Exibe clássicos dos anos 1930 que marcaram Fiúza – O Anjo Azul, de Josef von Sternberg, com a cena mítica em que a jovem Marlene (Dietrich) canta no cabaré, e Ganga Bruta, de Mauro (claro). O menino olha-se no espelho e dele salta o seu reflexo, querendo usurpar sua vida. E tudo se passa nessa cidade cheia de folguedos, com uma casa assombrada e um grupo de integralistas liderado pelo major.

Exemplarmente produzido – pela Camisa Listrada –, o filme enche os olhos com seu cuidado cenográfico e plástico. A primeira parte é a mais sedutora. Recria os folguedos infantis – a tentativa de voar, num avião que o menino cria a partir da Mademoiselle de Santos Dumont.

A segunda tem mais a ver com o mundo adulto, que é, segundo o próprio Guilherme Fiúza, "mais chato". E tudo termina com uma citação do próprio Sabino, integrado ao diálogo.

Numa entrevista, o escritor disse certa vez que, quando criança, todo mundo lhe perguntava o que queria ser quando adulto. Crescido, ninguém nunca lhe perguntou o que gostaria – de voltar a ser menino.

O filme já tem estreia programada – 19 de junho, em plena Copa. Será um lançamento regional, em Minas, que só depois a Downtown e a Paris, empresas associadas, vão abrir para o Brasil. Nesta semana, não haverá jogo da seleção, as crianças estarão de férias. A expectativa é que, como O Pequeno Nicolas, outro filme sobre a infância, O Menino no Espelho também funcione como filme infantil. O carinho com que foi feito, uma certa perspectiva de distanciamento, o gosto pelos detalhes, tudo deve funcionar muito bem com os adultos.

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