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No Cine Ceará, o minimalismo melancólico uruguaio

'Rincón de Darwin', de Diego Fernandez Pujol, é encantador road movie

Luiz Zanin Oricchio / Fortaleza, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2013 | 20h02

Com Rincón de Darwin, o diretor Diego Fernandez Pujol dá seguimento a uma tradição forte do cinema uruguaio contemporâneo. Filmes pequenos, poucos personagens, tom um tanto melancólico. Inteligentes, muito bem interpretados na linha dos dois mais famosos entre eles, 25 Watts e Whisky, da dupla Pablo Stoll & Juan Pablo Rebella.

De qualquer forma, Pujol reconhece que esse "minimalismo melancólico" é mesmo um traço de geração e se espalha de filme em filme. "Não somos brasileiros", brinca. "Não conseguimos fazer filmes eufóricos, embora haja uma diversidade no cinema uruguaio. "Mas esta é mesmo uma marca de geração. Somos companheiros de escola que trabalham juntos, de modo que a repetição de traços é inevitável."

O título se refere a uma localidade um tanto distante de Montevidéu, pela qual Charles Darwin passou em sua viagem do Beagle. Ocasionalmente, ouve-se uma voz em off, em inglês, narrando os apontamentos de Darwin em seu diário. Os textos servem de contraponto ao que está acontecendo. E o que acontece? Pouca coisa, em aparência. Um jovem, Gastón, plugado em tecnologia vai a esse lugar, com dois companheiros de estrada, o mais idoso Américo, advogado, e um malandro de meia-idade, Beto. O objetivo é darem uma observada numa velha casa a ser vendida, deixada pelo avô de Gastón, que acaba de morrer.

O filme é um encantador road movie mambembe, a bordo de uma camioneta caindo aos pedaços pertencente a Beto. Com ela, Beto ganha seus trocados fazendo transportes e pequenas mudanças. Só está na viagem por ser dono do veículo e ter sido confundido por Américo como um membro da família de Gastón.

O acento é sempre no precário. E, no caso, também nas diferenças entre os personagens. O velho advogado é o mais convencional. Gastón só pensa nas maravilhas do seu iPhone. E Beto conta suas histórias um tanto delirantes, como sua passagem de oito anos pela Espanha, interrompida por razões obscuras. O fato é, com tais diferenças, o trio vive sempre à beira de uma ruptura, ao mesmo tempo em que certa empatia se estabelece entre eles.

É filme de homem. Mulher não aparece em cena. Surgem apenas na voz dos personagens e nem sempre com boas referências. Américo está planejando o casamento da filha, com tudo o que isso comporta de dor de cabeça. À beira de uma fogueira, entre um mate e um churrasco, Beto confessa que deixou um filho na Espanha, e que a separação com a mãe não foi lá muito amistosa. Gastón descobre que sua ex está grávida. Não sabe se dele.

Questionado se o filme era misógino, Pujol disse que não sentia assim: "É uma história masculina, não machista. Não me parece que os personagens tenham ódio ou desprezo pelas mulheres, apenas que passaram alguns maus bocados com elas". 

Pujol justifica também a voz off em inglês. "Me parecia interessante saber que esse caminho foi feito em 1833, por um aristocrata inglês, um sábio que conseguia tirar grandes conclusões a partir de pequenas pistas. É como um discurso paralelo feito de extratos do diário ele no Rio da Prata."

No final, a conclusão de Darwin para suas reflexões são implacáveis:  Sobrevivem não os mais fortes ou os mais inteligentes, mas as espécies que mais bem se adaptam às mudanças. Ficamos nos perguntando se a sentença de Darwin, aplicada aos indivíduos, daria a esse melancólico trio uruguaio alguma chance de passar pela seleção natural. A sorte é que a lei de Darwin se aplica às espécies e não às pessoas isoladas.

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