No Cine Ceará, dois filmes ONG e nenhuma consistência

Noite de filmes "ONG" no Cine Ceará. O venezuelano Maroa, de Solveig Hoogensteijn, e Smile, do norte-americano Jeffrey Kramer (fora de concurso) apostam nos bons sentimentos, mas ficam a dever em termos cinematográficos. A primeira coisa a estranhar é que uma venezuelana se chame Solveig Hoogensteijn. Trata-se de diretora sueca, radicada no país de Hugo Chávez e que faz filmes com notório sentimento de culpa do Primeiro Mundo em relação ao Terceiro.A Maroa do título é uma garota de rua que mora com a avó e ajuda nas despesas de casa vendendo revistas pornográficas. Há certa autenticidade nas cenas de infância desvalida de cidade dividida por contrastes sociais, como Caracas. Mas o restante da história não cola. No albergue a que é recolhida, uma espécie de reformatório humanista, Maroa conhece um maestro espanhol, que a converte à música erudita. Conversão rápida, como acontece nos piores filmes, com a menina atravessando o espaço da ignorância a Mozart com a facilidade de quem cruza uma rua sem movimento.Afora essa política de bons sentimentos (às vezes explícitos demais, o que encobre as possíveis contradições), Maroa exibe alguns bons momentos. Mas destoa em relação aos concorrentes anteriores, todos filmes de maior consistência e vigor.Quanto a Smile, melhor falar pouco. Supostamente trata de um auxílio a pacientes (crianças em especial) com deformidades na face, que são submetidas a cirurgias plásticas reparadoras. A paciente no caso é uma menina chinesa e os bons samaritanos são americanos. Faz-se certo paralelo forçado entre o artificialismo da classe média nos Estados Unidos e a possibilidade de as pessoas darem sentido às suas vidas ajudando aos necessitados. Tudo bem, mas o problema é a estética novelesca (no mau sentido), os diálogos incríveis e uma projeção digital que parecia manter um véu leitoso entre o olho do espectador e a tela. Experiência penosa. Um erro de curadoria do festival.DiversidadeMas nenhum dos filmes teve a aclamação popular do segundo conferencista do Seminário sobre a Diversidade Cultural, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna. Recebido como astro pop, aplaudido em pé no início e fim da palestra, Ariano contou anedotas, falou de coisas sérias, cantou e fez a platéia universitária chegar ao delírio quando disse que havia votado quatro vezes em Lula e iria votar pela quinta vez, pois lhe parecia o único presidente capaz de defender o Brasil de uma política de entreguismo cultural. Disse que a senadora Heloisa Helena é bem-intencionada, mas faz o "jogo da direita" e elogiou, mais uma vez, a criatividade do povo brasileiro, agora destacando a arquitetura popular. O brilho da "aula-espetáculo" manteve a sala em suspenso durante duas horas, uma platéia majoritariamente jovem no auditório da Unifor (Universidade de Fortaleza). O repórter viajou a convite da organização do festival

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