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'No Caminho das Setas' consegue dar conta da complexidade de Marcelo Yuka

Documentário estreia em 8 cidades brasileiras e traz a vida do ex-integrante d'O Rappa

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

29 de novembro de 2012 | 20h24

Há uma cena de Marcelo Yuka no Caminho das Setas em que o artista que ficou paraplégico ao ser atingido num tiroteio pede ao irmão mais novo que escolha uma entre suas antigas pranchas de surfe. O garoto diz que não, que tem as próprias pranchas. Yuka insiste. A situação vai num crescendo até que o garoto brada - "O que houve, Marcelo? Desistiu de ter esperança?". Marcelo Yuka no Caminho das Setas estreia nesta sexta-feira, 30, em São Paulo, Rio e mais seis cidades (Brasília, Florianópolis, Salvador, São Luís, Porto Alegre e Palmas). É um documentário de Daniela Broitman, ex-jornalista do Estado, sobre o baterista e compositor que já foi do Rappa. Não se assemelha a nada que você tenha visto, mas a vida de Marcelo Yuka também tem singularidades que a tornam especial.

O filme consegue dar conta disso. Cenas como a que foi citada são decisivas. O próprio Yuka concorda - "Que bom que você citou essa cena. Eu também gosto muito. Minha vida tem essa coisa trágica, mas por outro lado tem aspectos que são de um homem comum". É preciso acrescentar - comum, em termos. Em Yuka coexistem o artista, o militante, o sedutor e, por que não dizer, o revoltado. Não é fácil, aos 30 e poucos anos, receber tiros e ficar confinado numa cadeira de rodas. Logo na abertura, o próprio Yuka, lembrando aquele momento, diz que sua vida acabou. Não acabou, não. Estava começando uma outra etapa.

Houve a ruptura do Rappa e a banda seguiu em frente, sem ele. O próprio Yuka buscou novos parceiros musicais, fez outra banda - F.U.R.T.O. - e agora grava um CD que já virou mítico - um CD que começou de samba e hoje, sem se desligar das origens, está muito mais complexo. Ele tem livros para sair. Muita poesia, mas em tudo a música está presente. Há muita música no Caminho das Setas - o título vem de uma referência a Wally Salomão. Foi algo que Yuka ouviu do poeta, e relata. As setas disparadas contra Yuka o atingiram, mas ele não apenas sobreviveu como recomeçou.

Estima. Não foi fácil, nunca é. Logo após o incidente, a mídia tentou transformá-lo em herói. Ele teria sido atingido ao tentar salvar uma garota. Yuka declina do heroísmo. Repetidas vezes, diz, em cena, que sempre teve baixa estima. Será? Ao abordar um assunto tabu entre cadeirantes - e deficientes, de maneira geral -, comenta que nunca teve problemas com as mulheres, nem antes nem depois. Mas, após os tiros, chegou a usar fraldas. Lembra-se da sensação esquisita quando se deitou, de novo, pela primeira vez, com uma mulher. O que ela está querendo?, pensou. O repórter não resiste e dispara - teve medo de ser estuprado? Ele diz com um sorriso que não é tímido - "É, mas foi com ternura".

A briga com o Rappa está na tela, e pode-se perceber um certo constrangimento entre os antigos parceiros. Eles reclamam de dinheiro, dizem que Yuka ganhava mais (como compositor) e era usado - a banda toda - pelos movimentos sociais a que se associou. Yuka ainda convalescia quando os caras lhe deram um ultimato. Foi demitido. "Eu não estaria na banda hoje porque ela é uma farsa ideológica, mas me tirar num momento daqueles... Foi desumano, um crime", avalia. "O estranhamento, o constrangimento que você percebeu é de culpa, que eles ainda têm. Eu não tenho culpa nenhuma no episódio."

Yuka parece durão. Ficou mais amargurado, talvez - mas como não ficar? "Já fui mais", ele diz. Militante em questões políticas e sociais, sobre a violência, ele sempre foi (e suas letras o refletiam). Agora, é o cadeirante, numa nova etapa de sua luta. Numa cena, ele reflete sobre o álbum. Diz que está numa transição, pergunta-se a quem interessará? O caminho foi retraçado e, no ano passado, no Rock in Rio, ele apresentou, com Cibele, uma música do CD prometido para 2013 - Agora Nesse Momento. Lembra que, na ambulância, logo após ser atingido, precisava desesperadamente de referências pessoais e cantou baixinho, para si mesmo, Jorge da Capadócia. Jorge Ben, Seu Jorge, São João - são inúmeras, no filme, as imagens do santo guerreiro.

A entrevista realiza-se no Hotel Marabá, no centro de São Paulo, a dois passos da esquina famosa - Avenida Ipiranga com São João. No filme, Yuka trata de questões espinhosas. Seu apoio às pesquisas com células-tronco, o sonho com uma cirurgia que terminou não se viabilizando - e o oferecimento, que ele faz ao irmão, daquela prancha, tem muito a ver com a consciência de que a operação foi um sonho que não deu certo. Yuka achava que o filme seria tão invasivo de sua personalidade, de sua vida? "Cara, se eu temia que pudesse ser, ele se revelou muito mais. Teve momentos em que eu brigava com a Daniela (a diretora). Isso aqui não é um roteiro, é a minha vida."

Síntese. Realizado ao longo de sete anos - este é o oitavo -, o filme teve um roteiro escrupuloso, traçado pela diretora, amiga de Marcelo Yuka (e isso facilitou o acesso e a confiança dele). Neste tempo todo, Daniela gravou mais de 100 horas em DVD, HDV e HD. Partiu de uma resolução mais baixa à alta definição. Todo esse material foi reduzido, com a montadora Jordana Berg - dos filmes de Eduardo Coutinho -, para hora e meia. A montagem primorosa foi premiada com o troféu Redentor no Festival do Rio do ano passado. É um documentário com música, mas não musical, no mesmo sentido de outros que dominam a produção brasileira do gênero. Questões sociais - a inclusão - o permeiam. E existem as questões familiares.

O pai e a mãe separaram-se, o pai casou-se de novo. Teve um filho, esse meio-irmão que ama Marcelo Yuka e, numa cena, deita-se sobre ele, num abraço carinhoso. Pai e mãe brigam em cena - "Estou aqui no meio de uma guerra fria, entre União Soviética e EUA", Yuka brinca. De repente, a extensão do filme é ampla. O artista que se reinventa, o homem atingido por uma tragédia, o cadeirante. Uma questão recorrente é a dor que Yuka sente. Se não tem mais esperança de voltar a caminhar, o desejo é de que a dor, pelo menos, não o consuma tanto.

A maconha medicinal tem sido um bálsamo. Em pleno debate sobre drogas - a legalização já é uma velha questão -, Marcelo Yuka traz um testemunho importante. "Nunca gostei de ficar doidão, de perder o controle sobre mim, mas a maconha me produz relaxamento. Não tenho mais a percepção da dor. A vida fica mais tolerável", ele explica. E acrescenta - "Tenho todo direito, mais que isso, necessidade desse alívio".

Há muita ideologia, muita indagação estética no pensamento de Yuka, e elas se manifestam no seu processo artístico. O filme ilumina o artista, e é valioso, por isso. Mas a dimensão mais bela de Marcelo Yuka no Caminho das Setas é o resgate do ser humano. Ele reflete que é natural do homem querer deixar a marca de sua passagem pela Terra. Yuka sonha com a paternidade, com um filho. Seu carinho com o irmão mais novo já é uma antecipação do pai que ele pode (e quer) ser.

MARCELO YUKA NO CAMINHO DAS SETAS

Direção: Daniela Broitman. Gênero: (Brasil/2011, 95 min.). Classificação: 12 anos.

 

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