No Brasil, Julianne Moore fala da riqueza do filme de Meirelles

'Ensaio Sobre a Cegueira', adaptação da obra de José Saramago, estréia dia 12 em 100 salas de todo o País

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 Agosto 2026 | 18h10

Julianne Moore diverte-se com a observação do repórter, que foi procurar na internet e encontrou a indicação de que ela está envolvida atualmente em cinco ou seis projetos. "Quer dizer que eu sou a mais popular da rede, então?", ela ri gostosamente. Segundo um site de pesquisa, Julianne tem Ensaio sobre a Cegueira para estrear, Hateship, Friendship, Courtship concluído, Shelter em pós-produção, The Private Lives of Pippa Lee sendo filmado e mais dois filmes anunciados - Boone’s Lick, que já estaria em pré-produção, e Morgan’s Summit, em produção. "Nooooo (Nãooooo), não estou filmando nada neste momento. Estava agora na Amazônia, numa viagem de férias com meu marido e filhos. Viajamos pelo Rio Negro, o que foi muito interessante. Vim diretamente para São Paulo, vou ao Rio rapidinho e volto para casa, em Nova York. Meu próximo projeto é um filme com Bart (o marido, Bart Freundlich, que a dirigiu em Totalmente Apaixonados)."   Veja também: Trailer de 'Ensaio sobre a Cegueira'    Julianne está no Brasil participando da campanha de lançamento de Ensaio sobre a Cegueira. O filme que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago estréia dia 12 em 100 salas de todo o País. Menos de duas semanas depois, Blindness estará estreando nos EUA e aí, sim, será um lançamento enorme - 1.500 cópias. O próprio Meirelles acha exagerado. "Eles me dizem que estão fazendo isso porque confiam no potencial do filme, mas, com toda sinceridade, acho que estão é com medo das críticas. Tivemos já, nos EUA, algumas críticas boas, mas a da Variety, em Cannes (onde o filme passou na noite de abertura), foi muito restritiva. Quando não confiam nas críticas, ou acham que serão negativas, os estúdios fazem lançamentos grandes para faturar rapidamente, antes que o filme morra no boca-a-boca", avalia o diretor.   Meirelles encontrou-se com o repórter do Estado segunda-feira à tarde no Hotel Hyatt da Marginal Pinheiros. Há uma muvuca no corredor do primeiro andar. Meirelles e suas duas atrizes - Julianne Moore e Alice Braga - estão dando as entrevistas de Ensaio sobre a Cegueira. Jornalistas esperam, assessores correm de um lado para outro. Julianne está sentada, serena. É extremamente simpática - e cordial - com o repórter, mas na seqüência ela vai pedir que as entrevistas não sejam mais acompanhadas pela presença do fotógrafo, porque ele fica caminhando e clicando e isso lhe tira a concentração. Não chega a ser um incidente, nem lhe tira o humor, mas confirma o que o diretor de fotografia César Charlone já dissera ao repórter, anteriormente. Julianne é, como Ralph Fiennes - com quem Meirelles e ele fizeram O Jardineiro Fiel - , uma atriz de cinema. Representa para a câmera. "Julianne quer sempre saber a posição da câmera, a lente. Delimitado o espaço, e consciente disso, fica à vontade para atuar."   Ela gostou muito de São Paulo (‘uma cidade moderna, arrojada") e, por motivos opostos, de Montevidéu, onde Cegueira também foi filmado ("Tem um charme antigo"). Julianne não havia lido o romance de Saramago, quando o roteiro lhe foi enviado. "Achei muito bem escrito e, ao mesmo tempo, intrigante, porque os personagens não têm nome e, na verdade, não sabemos muita coisa deles, do seu passado. Tudo o que sabemos vem da construção das cenas, dos seus diálogos e gestos. Isso é bem próprio do método de Fernando (Meirelles) e eu queria muito trabalhar com ele." Julianne adorou City of God (Cidade de Deus) e O Jardineiro Fiel. "Fernando é um grande contador de histórias, conta histórias que me atraem e eu gosto do método dele de trabalhar com o elenco. Sabia que ele improvisa muito com os atores, que reinventa as cenas no set. Muitas das indicações que tive para construir minha personagem em Cegueira vieram dele, diretamente. Não estavam escritas, talvez sugeridas, mas o olhar de Fernando é que vale."   Embora tenha participado de filmes de ação - Assassinos, de Richard Donner, com Sylvester Stallone; Hannibal, de Ridley Scott; e Os Esquecidos, de Joseph Ruben -, Julianne privilegia, em suas escolhas, o chamado cinema de autor. Ela se aplica nessas cenas de correrias e tiroteios, mas sabe que lhe caem muito melhor a tensão e o silêncio de filmes mais concentrados, como os de Todd Haynes e Tom Kalin. São dois de seus autores preferidos. Haynes lhe ofereceu um grande papel em Longe do Paraíso (e depois ela teve uma pequena, mas importante, participação em I’m not There). Kalin fez dela a mãe incestuosa de Pecados Inocentes (Savage Grace). Foram papéis que ela amou representar, personagens ambíguas, matizadas, mas antes mesmo que tenha tempo de responder à pergunta - tem algum favorito, entre os filmes que fez -, o próprio repórter se antecipa e diz que tem o dele, Fim de Caso, de Neil Jordan, com Ralph Fiennes, baseado no romance de Graham Greene. "Adoro. Também é um dos meus favoritos. Uma história de redenção e perdão muito bonita." A redenção da humanidade também é, de alguma forma, o tema de Ensaio sobre a Cegueira, onde as pessoas, atingidas por uma epidemia, vivem essa cegueira branca que as fragiliza e também fortalece, numa metáfora sobre o próprio mundo. O casal formado por Julianne e Mark Ruffalo passa por uma transformação.   No começo, ele é um médico, um oftalmologista de sucesso, ela é uma dona de casa um pouco tonta. A cena inicial não chega a expressar uma crise entre ambos, mas mostra um cansaço da relação. Ao longo do relato, esse homem que pensa que é líder vai revelar sua fraqueza, vítima da cegueira branca. A personagem de Julianne, por ser a única que enxerga, assume a liderança não só da relação, mas do núcleo de personagens centrais. Foi difícil fazer a única personagem que consegue ver, num filme sobre a cegueira? "Você diz, tecnicamente? Nãoooo. Mark (Ruffalo), Alice (Braga) e Danny (Glover) tiveram de se preparar para ver sem enxergar. Minha personagem é muito mais uma testemunha." A riqueza metafórica do livro recebe um comentário acurado. "Vivemos num mundo em que as pessoas se recusam a ver o que está diante de sua cara. Continuamos gastando combustível e poluindo o planeta, como se isso não pudesse ameaçar nossa sobrevivência enquanto espécie." Enquanto pode, ela curte sua família, sua cidade ("Amo Nova York") e a carreira. Julianne já recebeu várias indicações para o Oscar, mas nunca o prêmio da academia. Ela irá de novo para o Oscar com Ensaio sobre a Cegueira? "Não sei, isso é sempre imprevisível", ela diz. Lhe agradaria receber o prêmio? "Todo mundo gosta de ser reconhecido no que faz, mas o fato de não ter o Oscar não me tira o sono", conclui.

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