ADAM BERRY/EFE
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Nível dos filmes oscila no Festival de Berlim

Um dos destaques é 'God Existis', Her Name Is Petrunya', produção da Macedônia cheia de questões religiosas

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL / BERLIM

12 de fevereiro de 2019 | 03h00

Dieter Kosslick assinou no sábado, 9, o termo de paridade, uma conquista do movimento 50x50 20x20 que propõe a igualdade de gênero na seleção dos maiores festivais do mundo. Ele até brincou – disse que a demora não se deveu a nenhuma hesitação de sua parte.

Cannes, em maio do ano passado, foi o primeiro a assinar o acordo e depois vieram Annecy, Sarajevo, Locarno, Veneza, Toronto, Roterdã. Berlim foi o último por uma questão de calendário. Kosslick sempre foi um apoiador desse tipo de reivindicação. Este ano, por exemplo, o júri é presidido por uma mulher, a atriz Juliette Binoche, e são varias as diretoras na competição.

A qualidade dos filmes tem oscilado, e se trata de um problema. Se a qualidade dos filmes oscilar, a paridade terá de ser mantida? Não é uma questão imediata. Os melhores filmes, até agora, apontam para a igualdade. Dois dirigidos por homens, Ondog e Grâce à Dieu, de Wang Quanan e François Ozon; dois por mulheres, Crasher System e God Existis, Her Name Is Petrunya, de Nora Fingscheidt e Teona Strugar-Mitevska. O último é uma joia vinda da Macedônia. Uma heroína meio outsider – gordinha, 32 anos, solteira, desempregada. Logo no começo, ela vai para uma entrevista de emprego que não dá muito certo. De volta para casa, Petrunya atravessa um evento religioso.

A Macedônia, vale lembrar, é um país com uma religiosidade muito forte – basta lembrar do mosteiro de Antes das Chuva, de Milcho Manchevski, que venceu Veneza no começo dos anos 1990. O arcebispo lança um crucifixo no rio e os fiéis disputam entre si paras pegá-lo. Impulsivamente, Petrunya se lança nas águas e sai delas com a relíquia. O problema é que, tradicionalmente, somente homens participam da caça ao crucifixo. Cria-se o impasse. O caso vai parar na delegacia, na televisão. O arcebispo, o delegado, todos querem que Petrunya devolva o crucifixo. Uma repórter fareja a grande matéria. É uma tradição medieval num mundo que reconhece, cada vez mais, o empoderamento feminino. É um mundo masculino, e o bando de machos que ameaça invadir a delegacia é formado por neonazis. Alguém lança a questão – e se Deus fosse mulher? Seu nome seria Petunya. A garota ganha até um admirador – seu príncipe? Inteligente, o filme espelha o espírito da época. Ainda é cedo para avaliar as chances de Petrunya, de Grâce à Dieu, mas, com certeza, são obras que terão de ser consideradas pelo júri.

É bem mais do que se pode dizer do Fatih Akin. The Golden Glove/A Luva de Ouro é o nome de um bordel no distrito da luz vermelha de Hamburgo, nos anos 1970. Velhas prostitutas, um bando de beberrões. Dentro dessa pobre e um tanto grotesca representação da humanidade, age um serial killer. O tema voltou com força no ano passado com o Jack de Lars Von Trier. Tudo, agora, é diferente – o conceito, a realização –, e pior. Mas a imprensa alemã ficou dividida, menos pela recriação de época que por uma particularidade local. Atkin escolheu para o papel – a história é real, com direito a fotos do assassino e das vítimas – um galã jovem e bonito, Jonas Dassler, a quem transformou por meio de próteses faciais (nariz, boca, dentes). Por ruim que seja o filme, Dassler habilita-se para o prêmio de interpretação. O esforço físico sempre cativa os jurados, mas seria – será? – um tiro no vazio.

Fora da competição, o Brasil tem tido salas cheias nas sessões dos filmes brasileiros no Forum, no Panorama. Helvécio Marins Jr. mostrou Querência numa sala gigantesca, e Imax. Uma história de roubo de gado, um peão que quer iniciar vida nova como apresentador de rodeios. As paisagens, o linguajar caboclo, tudo reluziu na tela imensa. Marcelo Gomes apresentou seu primeiro documentário, no qual, além de realizador, é personagem. Uma cidade no sertão – a capital do jeans. Homens e mulheres donos de seus pequenos negócios, e que trabalham feito escravos. A rotina dos gestos repetidos, o sonho da autonomia, do dinheiro no bolso. E aí chega o carnaval e aquela gente que deu duro o ano inteiro enlouquece. Vende tudo para ir à praia. Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar tem personagens maravilhosos – um certo Leo e, como cinema de primeira, coloca o liberalismo econômico em xeque e reflete o Brasil no espelho.

 

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