'Ninguém quer ser o Robocop. É o que o torna tão especial', diz José Padilha

Diretor e os atores Michael Keaton e Joel Kinnaman participaram de entrevista coletiva há pouco, no Rio

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2014 | 15h53

"A garotada quer ser o Homem Aranha, o Homem de Ferro... Mas ninguém quer ser o Robocop. Nem mesmo o Alex Murphy quer ser. E é isto que o torna um personagem tão especial.  Ele não é um típico heroi americano. É complexo, cheio de nuances, questões éticas, políticas. Estas características dele sempre me ajudaram a criar o filme que eu queria e não um tradicional filme de franquia e herois de Hollywood", comentou José Padilha sobre Robocop, seu novo filme, que chega aos cinemas nesta sexta.

 

 

 

 

"Padilha é incapaz de fazer um filme comum. Até se ele dirigisse Débi & Lóide vocês saíriam do cinema pensando: Hum...A estupidez até que é interessante", brincou o ator Michael Keaton quando questionado se, assim como Joel Kinnaman, o fato de José Padilha ser o diretor do novo Robocop foi decisivo para que ele aceitasse o  papel do vilão  Raymond Sellars , o criador da OmniCorp, corporação que criou os drones e o Robocop. "Além disso, houve o fato de eu devo ter sido um dos últimos que entrou para o projeto. E quando vi que o elenco era formado por atores que eu admirava, como Samuel (L Jackson, Gary Oldman etc) e ainda tinha o José na direção, foi impossível dizer não", completou o ator, durante a coletiva de imprensa  de Robocop há pouco, no Rio.

Keaton, Padilha e Joel Kinnaman, que dá vida ao personagem título, participam hoje à noite da pré-estreia do longa que leva para o ano de 2028 a trama originalmente criada por Paul Verhoeven em 1987. "Mas este, como já declarei, não é só mais um remake. É um filme que tem algo a dizer. O personagem tem o mesmo nome, mas uma jornada diferente da anterior. E a grande diferença entre eles que é quando o Robocop atual acorda, diferentemente do anterior, tem consciência do que está acontecendo. É um personagem complexo. Tem questões com sua família, pois perde o contato com sua mulher e seu filho  por conta de ter se tornado uma máquina. Ao mesmo tempo, ainda é humano também. E é isso que me interessa", declarou o ator sueco Kinnaman, que está há alguns dias no Brasil.  Fã de funk,  Seu Jorge e Atrid Gilberto, Kinnaman quer passar o dia livre que terá amanhã surfando. "Ainda não falo português, mas já sei dizer 'Valeu!" e estou aprendendo outras coisas. Gostei tanto do Rio de Janeiro que quero voltar logo para aprender  mais", comentou ele em conversa com o Estado logo após a coletiva.

Robocop estreia no Brasil depois de estrear  nos Estados Unidos no último fim de semana e ficar em terceiro lugar entre as maiores bilheterias, atrás de Uma Aventura Lego e About Last Night.

"Este filme tem muitas camadas e assuntos para serem discutidos.. E há um grande paralelo com nossa atual realidade. Sellars não faz o que faz somente por dinheiro, mas também por poder, pelo desafio, para deixar um legado, para testar seus limites. É como se estivesse jogando Monopoly em uma escala gigantesca. E isso eu só estou elaborando agora, que posso discutir mais o  assunto com distanciamento", declarou ao Estado o ator, cujo personagem luta para que seus Drones passem a habitar as ruas dos EUA e sejam sejam usados também para o combate ao crime nas grandes cidades. "A propósito, tenho que comentar que adoraria  ter ouvido as perguntas que vocês têm feito para mim desde ontem quando estávamos nos preparando para filmar. Questões ótimas sobre meu personagem e sobre o tema têm sido levantadas. Seria ótimo tê-las ouvido quando estava criando o personagem", acrescentou Keaton durante a entrevista coletiva.

Remake do longa dirigido por Paul Verhoeven em 1987, a história agora se passa em 2028, quando os drones são amplamente usados fora dos EUA para manter a ordem em países que recebem as forças armadas norte-americanas. A empresa que os criou, a OmniCorp, comandada por Raymond Sellars (Michael Keaton) quer que eles passem a habitar as ruas dos EUA, mantendo deseja que eles sejam usados também para o combate ao crime nas grandes cidades. Enfrentando resistência nos EUA, avessos ao fato de que os drones não possuem consciência humana, Sellars se aproveita do fato de que o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman)foi ferido e está entre a vida e a morte para transformá-lo no Robocop e criar o primeiro ‘drone humano’.

Um dos trunfos apontados pelos críticos norte-americanos e europeus é o fato de que o fator humano ganha destaque nesta nova trama. De fato. Sob as lentes atentas e irônicas de Padilha, Murphy burla a programação robótica que recebe e se torna de fato um ser híbrido. A trama, em vez de se calcar no duo em branco-e-preto do clássico ‘bemXmal’, ganha tons de cinza em que se evidencia a discussão sobre o avanço da ciência, a ética, a manipulação da mídia e os interesses das grandes corporações. Angustiado e obstinado, o novo Murphy é menos caricato e faz com que as cenas de vídeo-game se tornem uma busca humana. Destaque para o impecável Samuel L. Jackson no papel do apresentador de telejornal sensacionalista Pat Novak.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.