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‘Nine’ é citação pura de Fellini, pois o maestro é inimitável

Depois de '8 1/2', todo diretor devia repensar o que haviam feito até então, pensar-se a si mesmo, antes de dar um passo adiante

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2015 | 05h00

 Hoje em dia tudo parece meio distante, mas 8 1/2, de Federico Fellini, foi um dos filmes mais influentes do seu tempo, 1963. A tal ponto que se passou a dizer que todo diretor, pelo menos os diretores autorais, precisavam de alguma maneira fazer o “seu” 8 1/2. Isso queria dizer que, em determinado ponto de carreira, deviam repensar o que haviam feito até então, pensar-se a si mesmos, antes de dar um passo adiante. Era como superar uma crise. Como se sabe, para ultrapassar uma crise, é preciso jogar fora os paliativos e nela afundar-se de vez, para elaborá-la e depois regressar à superfície com novo alento. Caso se sobreviva ao mergulho, claro.

Quando dirigiu 8 1/2, Fellini era já uma celebridade, um cineasta de sucesso com mais de 10 anos de estrada. Já tinha feito Mulheres e Luzes (1950), em parceria com Alberto Lattuada, Abismo de um Sonho (1952), Os Boas-Vidas(1953), um episódio de Amores na Cidade (1953), A Estrada da Vida (1954), A Trapaça (1955), Noites de Cabíria(1957), A Doce Vida (1960) e um episódio de Boccaccio 70 (1962). A Doce Vida marcara toda uma época, seu título virara expressão corrente para um modo frenético de encarar a existência, e introduzira na linguagem comum o termo “paparazzo” para significar o fotógrafo sensacionalista – espécie que teria grande futuro na sociedade do culto às celebridades. O filme, por resumir o sentimento de uma época, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1960.

Mas o que fazer dali para a frente? Com tudo conquistado, e uma obra-prima no currículo, Fellini entrava na meia-idade e, teoricamente no auge do poder criativo. Com seus 42 anos de idade, pode ter sentido uma crise de inspiração. É dúvida recorrente entre grandes artistas – será que esse poder imenso de criar continuará para sempre ou vai se esgotar um dia? E, caso se esgote, qual será o sentido de continuar vivendo? A resposta para essas inquietações viria na forma de um novo longa-metragem. Toda a obra, somada até então, entre curtas e longas, seria o oitavo filme de Fellini. E mais meio, incluindo aí sua parceria com Lattuada. Daí o título 8 1/2.

O alter ego de Fellini seria o cineasta Guido Anselmi, vivido por Marcello Mastroianni, que já estrelara A Doce Vida. Guido está às voltas com uma produção complicada e não sabe como iniciar o filme. Ao mesmo tempo, tem problemas com a mulher, Luisa (Anouk Aimée), com a amante Carla (Sandra Milo) e conhece uma atriz deslumbrante, Claudia (Claudia Cardinale). Seu produtor o atormenta para que a filmagem tenha início. Imerso em problemas do presente, Guido relembra sua vida passada, a época do colégio, a iniciação sexual, as dúvidas, a repressão religiosa, as esperanças, a relação com o pai e com a mãe. Na rememoração da vida real, inclui fantasias, como a de possuir um harém.

No desespero em sair da crise, Guido se afunda cada vez mais em dúvidas, até descobrir, num desfecho fantástico, a maneira (imaginária) de conciliar os tantos contrários de que é feita uma vida. Vivendo na contradição, só nos é dado reunir tantos opostos através da fantasia. Vale dizer, da arte. É a resposta que dá a fabulosa ciranda final, reunindo todos os personagens, ao som de uma marcha circense de Nino Rota.

Ao imergir nessa crise criativa, Fellini nos entrega uma imagem muito mais ampla do que a das dificuldades circunstanciais de um artista. Traça um painel da humana limitação e da maneira como lidamos com nossa ambição, ilimitada, tendo apenas as armas disponíveis do nosso frágil talento. Por expor essa condição humana de forma tão abrangente, 8 1/2 é uma das criações artísticas – cinematográficas ou não – que mais se aproximam do ideal da arte total.

Em referência a Fellini, Woody Allen rodou Memórias (1980), o “seu” 8 1/2. Rob Marshall retoma o legado felliniano em Nine, que segue de perto a matriz original. Marshall presta seu tributo a Fellini. Não procura desgarrar-se dele e muito menos imitá-lo. Seu filme é citação pura. Mesmo porque maestro Federico é inimitável.

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