"Nina" traz Dostoievski para o século 21

Heitor Dhalia seguiu o conselho do avô: "Leia os clássicos." Tinha 16 anos quando leu seu primeiro Dostoievski. Adorou O Idiota. Foi ler Crime e Castigo e nunca se desvencilhou do livro nem dos personagens. "Não são muitas as obras que ficam com a gente", comenta. Em 2000, Dhalia, hoje com 34 anos, já era roteirista de cinema - escreveu As Três Marias para o diretor Aluizio Abranches. Queria dirigir o próprio filme, mas qual? "Um dia, estava de cama, com febre, e me veio, como um raio, a idéia de que devia adaptar Crime e Castigo." Não queria fazer uma leitura tradicional do clássico dostoievskiano. Queria atualizar Crime e Castigo. E fez Nina, o longa que estréia hoje na cidade. Nina pode ser um filme de recorte difícil - autoral, conceitual, sombrio. "Mas queriam o quê, numa adaptação de Dostoievski?", Dhalia pergunta. Nina já fez uma expressiva carreira no exterior, em festivais como Roterdã, Los Angeles, Moscou. Na Rússia, achou que seria crucificado pelo que fez com Dostoievski. Foi aplaudido na sessão de imprensa e ganhou o prêmio da crítica. A justificativa o enche de orgulho - "Eles destacaram o expressionismo visual e a paráfrase da obra de um grande escritor." Heitor Dhalia sabe que reinventou Crime e Castigo para permanecer fiel a Dostoievski. Dhalia transfere a tragédia de Raskolnikov para uma garota, Nina, cuja vida é infernizada pela dona da casa na qual aluga um quarto. O diretor buscou inspiração numa frase do fim do livro, quando o narrador diz que não sabe se os eventos se passaram exatamente daquela maneira ou naquela ordem para desconstruir o que poderia ser uma dramaturgia tradicional. A velha, interpretada por Myrian Muniz, é um pavor. A atriz, persuadida a participar da aventura - "O Heitor é diabolicamente calmo, eu sou ansiosa até demais" -, conta que encarnou aquela endemoniada de tal forma que precisou até do acompanhamento de psicanalista. "É horrível. Representa uma geração que quer destruir a outra. Comecei a ter palpitação, falta de ar. Parecia que ia morrer." Outras parcerias foram importantes, como a do roteirista Marçal Aquino, associado aos filmes de Beto Brant. O realismo, a urgência de Marçal e Beto não têm muito a ver com os conceitos estéticos de Dhalia em Nina.O roteirista e a atriz - as atrizes, porque Dhalia destaca muito o empenho de Guta Stresser, a Nina ("Ela enlouqueceu para fazer o papel; dizia que se era para fazer uma louca tinha de ir até o fim"), mas ninguém foi mais decisivo do que o escritor e desenhista Lourenço Mutarelli, com suas HQs bizarras. "Ele é depressivo, obsessivo, anti-social, mas gênio." Desde o início, Dhalia queria ser autoral. Preparou-se assistindo a filmes de Stanley Kubrick. Quando Mutarelli entrou no projeto, o filme escureceu de vez. O diretor pensava inicialmente numa produção modesta, de uns R$ 300 mil. O filme custou quase dez vezes mais - R$ 2,5 milhões. Dhalia agradece aos produtores, os irmãos Gullane. "O Caio me dizia que foi o filme que ele mais demorou para entender, entre todos os que fez. Quando entendeu, foi um grande parceiro." Um filme assim tem vez no mercado? "Toda experiência artística visceral sempre alcança seu público, mais cedo ou mais tarde." Até pela continuidade de seu projeto autoral de cinema, Dhalia espera que Nina encontre logo.

Agencia Estado,

05 de novembro de 2004 | 18h02

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