Reprodução do filme 'O Empregado e o Patrão' (2021)/Vitrine Filmes
Reprodução do filme 'O Empregado e o Patrão' (2021)/Vitrine Filmes

Nieto Zas reflete sobre 'O Empregado e o Patrão', em cartaz no Brasil

'Escolhi filmar na região próxima à fronteira brasileira', comenta diretor uruguaio sobre longa que aborda tensão entre duas famílias

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

16 de agosto de 2021 | 05h00

Lá atrás, no começo de sua carreira, o uruguaio Manuel Nieto Zas foi assistente do mais secreto autor do cinema argentino, Lisandro Alonso. Nem a argentina Lucrecia Martel faria um filme tão enigmático como Jauja. Como ela, Alonso é queridinho nas seções paralelas de Cannes. Isso pode ter ajudado Nieto Zas a integrar a seleção da Quinzena dos Realizadores deste ano, com O Empregado e o Patrão, em cartaz nos cinemas, distribuído pela Vitrine. É coprodução uruguaio-argentino-brasileira. Nieto Zas, também conhecido como Manolo, conversou com o Estadão no dia seguinte à apresentação de seu filme na Quinzena. Estava eufórico com a acolhida. 

Num filme anterior, O Lugar do Filho, já abordara o universo interiorano das fazendas. “O terço final passava-se numa hacienda, embora numa perspectiva diferente da de agora. Sempre quis voltar a esse mundo, a esses personagens. Sempre achei que seria interessante aprofundar essas relações.” De novo o lugar do filho. Interpretado por Nahuel Pérez Biscayart, de 120 Batimentos por Segundo. Rodrigo é o patrão, o filho do dono que ainda tenta impressionar o pai. Contrata um operador para o trator, Carlos, o não profissional Cristian Borges. 

O que aproxima os dois homens é o fato de serem ambos pais. Uma tragédia vai ligar os dois. “Sou pai de três filhos, e como todo pai amoroso acho que não existe preocupação maior, para mim, do que a saúde e segurança deles. A morte do filho seria meu maior pavor.” Na ficção de O Empregado e o Patrão, a relação entre ambos é posta à prova em mais de uma oportunidade. “Escolhi filmar na região próxima à fronteira brasileira, mas a corrida de cavalos que ocupa o centro da narrativa na sua segunda parte é uma coisa que ocorre em todo o Uruguai. Faz parte de nossas tradições. Correm, e concorrem, patrões e empregados.” 

Na quinta, também estreou Ema, do chileno Pablo Larraín. E, nesta sexta, 13, começou o Festival de Cinema Brasileiro e Latino de Gramado, que Nieto Zas já venceu, justamente com O Lugar do Filho. “É uma vitrine importante”, diz ele, o que permite ao repórter lembrar a distribuidora do filme no Brasil. “Ojalá – ele manifesta o desejo – tivéssemos mais integração entre nossas cinematografias.” A noção de família, a disputa esportiva, el caballo. “Queria dois personagens diferentes, mas parecidos. Muita coisa os aproxima, apesar da distância social. Creio que, em todas as culturas, o cavalo é sinônimo de liberdade. Está até no brasão de nossa bandeira (do Uruguai). Na segunda metade, o cavalo media a ligação de Rodrigo e Carlos.” 

É possível fazer a radiografia de toda uma sociedade somente a partir da aproximação do antagonismo desses personagens. Mas existe algo mais, a má estrela de Carlos. “Nada do que ele sonha ou deseja dá certo. Isso produz uma tensão interna. Não queria filmar explosões de violência. Optei por um meio caminho, mostrando partes das situações e estimulando, creio eu, o espectador a compor o quadro todo, emocional e intelectualmente.” Embora diferente de uma fábrica, por exemplo, a tensão entre patrão e empregado, o abismo entre eles, dá o tom do filme.

“Não queria fazer um filme político, mas de personagens. Se excetuarmos os westerns, com seus caubóis, o cinema e as séries costumam privilegiar o patrão, o dono de terras. Por isso o roteiro começa com a história do filho do patrão, para que o espectador se familiarize com um mundo conhecido. Só depois o quadro fica mais complexo. As coisas começam a mudar na cena do churrasco.” Manuel Nieto Zas acredita no processo. Gosta de misturar atores naturais e profissionais. Nahuel Pérez Biscayart era uma aposta até para o mercado internacional. 

Ele admite que exigiu muito não apenas dele, mas também de Justina Bustos, que faz sua mulher. “Cristian (Bastos) se revelou melhor do que eu pensava, mas o filme trabalha o tempo todo com os dois núcleos, patrão e empregado. Pedi a Nahuel que baixasse o tom para chegar ao nível de Cristian, mas aí descobri que ele (Cristian) era capaz de modulações inesperadas. Na cena do churrasco, Carlos tem reações que cheguei a pensar que Cristian não conseguiria expressar, mas ele foi surpreendente. É o que faz a beleza do cinema, quando toda a equipe se entrega para que o filme ganhe vida e se sustente.” 

Para o diretor, seu filme é sobre um mundo em vias de desaparecimento. “A produção de grãos está substituindo os cavalos e o gado em muitas regiões. Com isso, os gaúchos tendem ao anacronismo. Havia muito mais camaradagem nas fazendas. Por menos político que eu quisesse que fosse o filme, a dialética do amo e do escravo se faz presente, e de forma intensa.” Ecos de Hegel, e de Karl Marx. “Sem dúvida, mas o que me interessa são os homens, sua fragilidade, mesmo quando tentam bancar os fortes.”

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