Nicole Kidman é "A Isca Perfeita"

Não existe melhor título do que AIsca Perfeita para um filme que tenha Nicole Kidman comoprotagonista. Ela faz o papel de Nadia, uma russa que atende aum pedido de casamento pela internet feito pelo inglês solitáriovivido por Ben Chaplin. John, o personagem de Chaplin, é umbancário que vive sozinho e preenche sua vida sexual commaterial pornográfico. Revistas, vídeos eróticos, coisas assim.Decide resolver o problema "encomendando" uma russa. Nadia não fala uma palavra de inglês, mas mostra-sevirtuosa em outras áreas, incluindo a sexual. O arranjo parecefuncionar perfeitamente até a chegada de dois russos na casa deJohn, Yuri (Mathieu Kassowitz) e Alexei (Vincent Cassel). Yuriseria primo de Nadia e Alexei é um amigo. Põem a vida de John, eseu tão confortável arranjo sexual, em xeque. E, como oespectador verá, causam um desdobramento adicional à história,levando-a para um desfecho inesperado. Enfim, esse filme dirigido por Jez Butterwork funcionapor meio de uma mistura de gêneros. Pode ser uma comédiaromântica moderninha, em que uma gata borralheira meio bandidaencontra num homem insípido seu príncipe encantado. Mexe comalguns aspectos do filme de ação, sem deixar de lado algumaviolência. Coloca algumas doses de humor e outras tantas dedrama. E, lateralmente, não deixa de falar sobre a situação daRússia pós-comunista, vivendo de expedientes desse tipo, comoexportar suas mulheres para serem boas amantes ocidentais. O filme poderia perfeitamente entrar na bitola dacomédia romântica comercial, não fossem algumas diferenças. Emprimeiro lugar, há um tratamento mais livre de questões comosexualidade e hábitos de saúde. As pessoas transam, bebem efumam - Nadia, em particular, é uma chaminé. Segundo, não háreceio em retratar os russos de forma esquemática - sãoaproveitadores, bebedores full time, alegres e traiçoeiros.Terceiro, esses russos são interpretados por uma havaiana(Nicole) e dois franceses (Cassel e Kassowitz, este últimodiretor, ator de talento e possivelmente um dos maiores egos doOcidente). Quer dizer, o filme não dá a mínima para o politicamentecorreto, fato que se não chega a ser uma virtude em si,proporciona algum alívio ao espectador saturado de um cinemacomercial que pisa em ovos sobre qualquer assunto. Dito isso, é preciso que o espectador esteja ciente doslimites do filme para que possa apreciar algumas de suasqualidades. Há nele um retrato bastante interessante da vidachata em St. Albans, um subúrbio londrino. John vive uma vidaabsolutamente vazia entre sua casa e um trabalho ao qual dedicao corpo mas não a alma. Apenas como comentário lateral: paramotivar os empregados, a direção do banco promove um dessescursos de dinâmica de grupo para estimular a confiança mútua.Uma pessoa fica de costas para outra e deixa-se cair, para que ocolega a ampare antes que bata no chão. Chama-se a isso "Confiee deixe-se levar", ou alguma coisa semelhante. Dessa chatice à moda de Lair Ribeiro, John tira uma liçãopessoal interessante: a de que a confiança talvez seja umradical ato de fé, que pode levar a pessoa tanto à danação comoao paraíso. Amar é um risco e ele viverá essa experiência nacompanhia nada doce, mas em todo caso tentadora, de NicoleKidman. No fundo, o filme fala um pouco disso, de que valequalquer coisa para se livrar do tédio, mesmo colocando em riscoa segurança própria e a dos demais. O desfecho também nada temde moralizante, outra marca registrada de uma produçãoindependente de origem controlada.A Isca Perfeita (Birthday Girl) - Comédia romântica.Direção de Jez Butterwork. EUA-GBret/2001. Duração: 90 minutos.14 anos

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