Nicole brilha em Cannes. E ofusca "Carandiru"

Uma pena para Carandiru. O filme de Hector Babenco teve de disputar a atenção da imprensa em Cannes com nada mais nada menos que Nicole Kidman e Lars Von Trier, que apresentaram hoje Dogville. Como esperado, o frisson causado pela ex-sra. Tom Cruise e pelo vencedor da Palma em 2000 mobilizou a imprensa e acabou ofuscando Carandiru.A sessão e a entrevista coletiva do concorrente dinamarquês foram disputadíssimas. Houve empurra-empurra, gritaria e por pouco os fotógrafos e jornalistas não saíram no tapa. Em seguida, foi a vez do candidato brasileiro. Mesmo prejudicado pela agenda, Babenco conseguiu atrair um razoável número de jornalistas interessados em discutir seu longa-metragem.Como há três anos, com Dançando no Escuro, o cineasta dinamarquês impressionou a platéia do festival francês. Dogville recebeu longos aplausos ao final da sessão e é desde já um forte candidato ao prêmio principal. O filme é a primeira parte de uma trilogia chamada USA. Como indica o título, os Estados Unidos estão na mira do diretor.Dogville conta a história de uma misteriosa mulher (Nicole) que chega a uma pequena cidade fugindo de uma quadrilha dos anos 30. A princípio, os moradores parecem acolhê-la. Voltam-se depois furiosamente contra ela (estuprando-a, inclusive), para depois sofrerem sua vingança.Avesso a viagens de avião, Von Trier nunca pisou nos Estados Unidos, mas não poupa o país de duras críticas. Americanos queixaram-se que ele teria de conhecer o país. "Eu me pergunto, por acaso eles foram ao Marrocos filmar Casablanca?", rebate o diretor.Embora Dogville seja antes de tudo um exame da desumanidade das sociedades modernas, no geral, o filme tem sido entendido com um retrato ferino da América em particular. Von Trier insiste que não se trata de uma história essencialmente americana. Mas a inspiração, ele não nega, vem da TV americana."Eu me sinto como um americano. Ich bin ein American", diz, parodiando o discurso de Kennedy em Berlim, em 1963, quando falou aos alemães, em alemão, que era também um berlinense. "Adoraria começar uma campanha para libertar a América. Porque nós acabamos de ver uma campanha para libertar o Iraque."

Agencia Estado,

19 de maio de 2003 | 13h23

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