Divulgação
Divulgação

Nicolas Philibert ganha retrospectiva no CCBB

Mostra com 8 documentários celebra a trajetória do diretor francês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 19h57

No começo dos anos 1990, Nicolas Philibert fez um documentário que teve muita repercussão na França e no mundo, Le Pays des Sourds. Filmando de forma não sentimental o mundo dos deficientes auditivos, ele estabeleceu as bases do seu cinema. O País dos Surdos aborda de forma documentária algo que, como ficção, está em A Família Bélier. Os surdos possuem a sua linguagem de sinais. Como essa linguagem se articula com a das pessoas que podem ouvir - e falar?

Dez anos depois, com Ser e Ter, Philibert logrou extraordinário sucesso nos cinemas brasileiros e é essa trajetória que um ciclo que começa hoje no CCBB vai recuperar. Numa época em que a cultura do documentário já estava solidificada no Brasil - e o festival É Tudo Verdade contribuiu para isso, por mais que documentaristas como Silvio Tendler e Eduardo Coutinho já estivessem dialogando com o público -, Ser e Ter ficou muito tempo em cartaz no País, no começo dos anos 2000, discutindo as particularidades do sistema de ensino de primeiro grau na França. O que ocorre quando estudantes com diferentes graus de informação e conhecimento, entre 4 e 12 anos, convivem na mesma sala? 


Assim como filmara comunidades de surdos, Philibert filmou uma pequena comunidade rural no interior da França, com poucas centenas de habitantes. Ser e Ter são os dois verbos auxiliares do idioma francês e, por meio deles, Philibert toca questões profundas que não dizem respeito somente à linguagem, mas ao ser, à identidade, e ao ter, a base da propriedade no sistema social.

A par de suas qualidades cinematográficas, reconhecidas até no Festival de Cannes, Ser e Ter foi objeto de polêmica na França porque Philibert acompanhou um ano letivo inteiro na escola e, quando o filme estourou, pais e professores foram à Justiça pedindo indenização. A decisão judicial criou jurisprudência, que o objeto de interesse de um documentário, mesmo que seja(m) pessoa(s), não pode ser remunerado. Não apenas nesses casos, os temas da linguagem e da cultura têm estado na obra do diretor que já filmou o Louvre e a Rádio France, e em Nénette documenta uma fêmea de orangotango, natural de Bornéu, que vive com o filhote em zoo de Paris.

No estilo cinema verdade característico do começo de sua carreira, Philibert não interfere na ação e gruda a câmera em Nénette, que viveu mais da metade dos seus 40 anos em cativeiro e é separada do público por um vidro. É intrigante acompanhar o processo de comunicação da mãe com o filho, quando ela, obviamente, lhe está ensinando e cobrando coisas. O filme também documenta as reações do público, que sempre se desconcerta diante desses animais. Afinal, segundo a teoria evolucionista, é deles que descende o homem. A retrospectiva de Philibert resgata um autor importante. Por meio do documentário, ele investiga a linguagem e o mundo.

O CINEMA DE NICOLAS PHILIBERT CCBB

Rua Álvares Penteado, 112, centro, 3113-3651.De 11 a 23/2. R$ 4. 

Tudo o que sabemos sobre:
Nicolas Philibertcinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.