Sinna Nasseri/The New York Times
Sinna Nasseri/The New York Times

Nicolas Cage enfrenta um novo inimigo: ele mesmo

Em 'O Peso do Talento', ator interpreta uma versão de si mesmo obrigada a interagir com outra, mais jovem

Jake Coyle, AP

25 de abril de 2022 | 15h01

Metrópole. Bruce Lee. Pica-pau. Uma cobra de estimação. Todas foram inspirações por trás das performances de Nicolas Cage - às vezes, homenagens particulares que o ator usou como guias para construir alguns de seus personagens mais exagerados, erráticos e comoventes.

Da mesma forma, uma conversa com Cage aborda fontes das mais variadas. Em uma entrevista recente e tipicamente abrangente, antes do lançamento de O Peso do Talento, o ator falou de Picasso, Elia Kazan, Timothee Chalamet e Francis Bacon. Um livro de entrevistas com Bacon, por exemplo, The Brutality of Fact, ajudou Cage a definir sua atração por performances intensas e até grotescas - “o que não é obviamente bonito”, ele diz - em vez de retratos naturalistas.

“Eu meio que abordei minha percepção do público, bem como a maneira como eu projeto meu trabalho no cinema, como ator, com esse conceito em mente. Não ter medo de ser feio no comportamento ou mesmo na aparência”, diz Cage.

Com mais de cem filmes, Cage, de 58 anos - vencedor do Oscar (Leaving Las Vegas), estrela de ação (Con Air) e fonte de inúmeros memes da internet - não tem sido unanimidade com seus filmes. No entanto, por ser “um surrealista amador”, como diz, Cage emergiu como uma das estrelas mais amadas de Hollywood. Como diz o diretor de Unbearable Weight, Tom Gormican, “a visão de seu rosto meio que deixa as pessoas felizes”.

Mas mesmo para o Cage intempestivo, O Peso do Talento (que tem previsão de estreia no Brasil para 12 de maio) representa algo diferente. Nele, o ator interpreta a si mesmo. Ou melhor, interpreta uma versão espelhada de si mesmo, que às vezes interage com uma versão mais jovem. O filme é uma grande homenagem a Cage, na qual o ator de alguma forma consegue satirizar as percepções a respeito de si próprio e representar essas personas com sinceridade.

“A questão para mim sempre é: não importa o que estou interpretando, se é ridículo - e muitas vezes é - ou se é sublime. O conteúdo emocional da interpretação precisa sempre ser genuíno”, ele diz. “Não importa o que as pessoas acham, se gostam ou não. Ou se acham que atingi o limite do exagero. O sentimento era genuíno.” Mas, para Cage, onde estaria esse limite? Eu não sei. Mas, mostre-me onde ele está e eu te direi se já o ultrapassei ou não.”

“Eu cresci em uma casa onde minha mãe fazia coisas que, se você colocasse em um filme, diriam que era inverossímil”, diz Cage, cuja mãe, Joy Coppola, era dançarina e coreógrafa. Seu pai, August Coppola, irmão de Francis, era professor de literatura. “Mas o que é o limite? Quando você quer projetar algo e pensa em estilos diferentes - naturalismo, impressionismo, surrealismo, abstrato - então você começa a pensar de uma maneira diferente. Não será para todos e não necessariamente venderá ingressos. Mas tudo bem.”

"Filmes são um negócio e não foi sem algum risco que busquei esse caminho, mas foi importante para mim”, acrescenta. “Eu aguentei e, claro, muitos tomates podres foram jogados na minha cara. Mas eu sabia que isso ia acontecer, então não era nada que eu já não estivesse esperando.”

Mas o mais incomum sobre Cage é que muitos desses experimentos venderam ingressos. Muitos deles. Seus filmes são responsáveis por quase US$ 5 bilhões em bilheteria mundial. Ainda assim, já fazia tempo que ele não estrelava um filme de um grande estúdio.

O Peso do Talento, que estreou no festival South by Southwest, recebendo críticas calorosas, permite que ele brinque com a ideia de um retorno. No filme, ele está desesperado para conseguir melhores papéis do que a festa de aniversário para a qual o chamaram como atração - e pela qual lhe ofereceram US$ 1 milhão. O filme, assim, foi uma oportunidade de lutar, muitas vezes de forma cônica, com sua própria mitologia.

“Ele vinha até mim e dizia: Tom, há um cara em Las Vegas que usa anéis e jaquetas de couro e ele nunca diria essa frase”, conta Gormican. “E eu respondia: você está falando de você? Ele dizia que sim e eu tentava explicar que o filme era sobre um personagem apenas baseado em você. Mas ele insistia: ele tem meu nome. Às vezes, eu pensava: vamos, cara, apenas diga a fala.”

Gormican lembra com uma risada: “Tínhamos enormes discussões sobre quem entendia Nicolas Cage melhor, ele ou eu”.

Cage recusou-se a participar do projeto várias vezes, até que uma emocionante carta o convenceu a fazer o filme. A questão era que Cage, mesmo em sua forma mais estranha, nunca colocou aspas em suas performances. Ele tende a investir totalmente até mesmo nos personagens mais desequilibrados. (Vem à mente Bad Lieutenant: Port of New Orleans, de Werner Herzog.) Cage inicialmente temeu que o filme de Gormican fosse uma paródia ridícula de si mesmo e, embora tenha uma peculiar imagem própria, Cage prefere dirigi-la em direções mais imprevisíveis.

“Não vou mencionar nomes, mas há atores que pensei serem realmente sinceros e profundamente emocionais e honestos, mas depois se tornaram muito arrogantes e suscétíveis aos outros”, diz Cage. “Eles começaram a piscar para o público e, na minha opinião, perderam a conexão emocional.”

Os gostos exóticos - ele já precisou devolver um crânio de dinossauro que comprou sem saber que havia sido roubado na Mongólia - contribuíram para a construção de uma lenda em torno de Cage. Mas ele insiste: é normal em sua vida para poder ser extremo em seu trabalho. O Peso do Talento encerra um capítulo para o ator. Ele finalmente saiu do vermelho depois de fazer cerca de trinta filmes de qualidade discutível para pagar o fisco e seus credores. Mas Cage não pede desculpas por esses trabalhos. Eles o tornaram um ator melhor, diz. “Eu estava praticando. Consegui manter o acesso à minha imaginação na ponta dos dedos. Foi uma maneira muito melhor de tirar essa crise financeira das minhas costas do que fazer algo como um comercial do Super Bowl - e, acredite, eles ofereceram”, diz. “Eu não sou um vendedor, sou um ator.'”

Cage agora pode mais uma vez sentir um impulso atrás dele. Seu desempenho em Pig, do ano passado, em que vivia um caçador de trufas grisalho, rendeu a ele algumas de suas melhores críticas em anos. Foi um desempenho mais naturalista do que de costume - e um lembrete de seu alcance ilimitado.

Tendo começado profissionalmente aos 15 anos, Cage lembra que já faz isso há muito tempo. E, para ele, seu caminho começou, apropriadamente, com uma atuação audaciosa, em casa. O pai do ator teve enorme influência sobre ele, expondo-o a livros, filmes e pinturas. Mas era também capaz de derrubar o filho com palavras. “E eu simplesmente não aceitava. E o enganei uma vez. Fiz algo que nunca mais fiz: menti. Disse a ele que havia escrito uma música e toquei Is She Really Going Out With Him?, de Joe Jackson.  E ele acreditou, achou aquilo incrível. Então entendi que precisava acreditar em mim mesmo. Essa foi a única vez que uma mentira me salvou.”

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Filmes são um negócio e não foi sem algum risco que busquei esse caminho, mas foi importante para mim
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Nicolas Cage, ator

 

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