An Rong Xu/ The New York Times
An Rong Xu/ The New York Times

Netflix aluga cinema em Nova York para exibir produções candidatas ao Oscar

Espaço será usado para eventos e lançamentos de filmes selecionados; associações dos EUA vinham se recusando a reproduzir longas da plataforma

Steven Zeitchik, The Washington Post

26 de novembro de 2019 | 14h49

Desde que começou a lançar filmes de alta qualidade há alguns anos, Netflix se defronta com a pergunta: onde colocá-los?

Muitas salas de cinema não se dispuseram a aceitar seus filmes porque são lançados rapidamente online. Por outro lado, a distribuição digital é insuficiente para atender às regras estabelecidas pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas ou ao gosto de diretores de alto nível.

Agora a plataforma resolveu o problema. A gigante do streaming assinou um contrato de locação com o proprietário do Paris Theater, em Nova York, que foi fechado recentemente, e reabrirá o cinema para exibição contínua dos seus filmes.

“Depois de 17 anos o Paris Theatre tem um legado permanente e continua a ser palco de uma experiência cinéfila única”, disse o diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, em comunicado. “Estamos orgulhosos em preservar essa histórica instituição de Nova York de modo a que ela continue a ser a casa dos amantes de cinema”;

Segundo a companhia, o cinema será usado para eventos especiais e exibição de filmes selecionados. A Netflix não deu detalhes sobre os termos e duração do contrato.

O cinema Paris está situado num local privilegiado entre a área central de Manhattan e o Upper West Side, perto da entrada para o Central Park. É o único espaço que ainda mantinha uma única sala de cinema – símbolo da era anterior ao multiplex – à medida que outras salas, como o vizinho Ziegfield, deixaram de operar.

O acordo foi assinado com o corretor imobiliário Sheldon Solow, que além do Paris Theater possui o prédio da 9 West 57 Street e outras torres em Manhattan. A empresa de Sheldon Solow, avaliada pela Forbes em mais de US$ 5 bilhões, não renovou o contrato de locação do City Cinemas, que foi por muito tempo locatário do Paris Theater.

Mas a Netflix havia firmado firmou um acordo com Solow para exibir o filme Marriage Story (História de um Casamento) dirigido por Noah Baumbach, futura indicação ao Oscar. Este contrato se tornou o prelúdio de um acerto mais amplo.

Atualmente a Netflix vem usando o Belasco Theater, na Broadway, para exibir o filme O Irlandês, de Martin Scorsese, um acordo inusitado que para muitos especialistas não era sustentável no caso de filmes futuros, pois aguardar a disponibilidade de cinemas na Broadway no momento do lançamento é contar muito com a sorte.

As maiores cadeias de cinema do país se recusaram a exibir filmes da Netflix porque a empresa em regra não respeita a exclusividade de exibição no cinema, antes do lançamento online, de 30 e 90 dias.

E a Academia de cinema, que administra os Oscars, exige que os filmes sejam exibidos durante uma semana em Nova York ou Los Angeles para se candidatarem aos prêmios.

Talvez mais importante seja o fato de muitos diretores que trabalham com a Netflix desejarem que seus filmes estejam em cinemas importantes. Mas a dúvida é se um único cinema obsoleto será suficiente para essa finalidade.

A Netflix não especificou como decidirá que diretores ou filmes estarão nesse cinema, especialmente no final do ano quando uma única sala estará sob intensa demanda.

Também não está claro se salas de cinemas independentes, que algumas vezes abriram as portas para filmes da Netflix, ficarão mais resistentes agora com a gigante do streaming entrando no negócio.

O contrato com o Paris Theater deve acalmar a pressão sobre a Netflix num momento em que ela é atacada duramente pela Associação Nacional de Proprietários de Cinemas por se recusar a prolongar o tempo de exibição do seu filme O Irlandês.

Mas alguns executivos de estúdios rivais também não devem estar felizes com o contrato. Eles já vêm se queixando de que filmes como O Irlandês permitem à Netflix persistir numa estratégia não tradicional e fazer apenas o necessário para apaziguar a academia e outros grupos dominantes.

A Netflix negocia também a compra do Egyptian Theater, cinema que fica no Hollywood Boulevard em Los Angeles. Se o negócio for efetivado, ela provavelmente usará o cinema do mesmo modo que utiliza o Paris Theater em Nova York.

(Tradução de Terezinha Martino)

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