Fernanda de Sena/Divulgação
Fernanda de Sena/Divulgação

Neta lança filme sobre Ângelo Machado, famoso cientista mineiro

Dirigido por Mariana Machado, o documentário de curta-metragem ‘Ângelo’ está em cartaz até 20 de setembro na Mostra Ecofalante e pode ser assistido online

Ítalo Lo Re, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2020 | 17h00

Entomólogo, escritor, dramaturgo, médico, professor, ambientalista… Se é difícil reunir em texto as profissões que descrevem o cientista mineiro Ângelo Machado, que faleceu em abril deste ano, que dirá por meio de um filme. Mas é justamente isso que tenta fazer uma de suas netas, a cineasta Mariana Machado — senão para abarcar toda a complexidade do avô, para revelar fragmentos que marcaram sua carreira e personalidade. Lançado no dia 12, o documentário de curta-metragem ‘Ângelo’ (28’) está em cartaz até 20 de setembro na Mostra Ecofalante de Cinema e pode ser assistido online. A produção, filmada quase inteiramente na casa onde o cientista viveu por 50 anos em Belo Horizonte, concorre aos prêmios de “Melhor Curta Ecofalante" e "Melhor Filme Pelo Público".

“É mais um filme retrato do que um filme biográfico. Mas, ao mesmo tempo, a produção conta com traços da carreira dele que dialogavam com os momentos em que as cenas foram filmadas”, conta a diretora Mariana Machado. Segundo ela, “a ideia do filme passou por vários lugares”, mas quatro motivações foram fundamentais. “A primeira é que meu avô era uma figura super interessante de conviver e observar, o que sempre me inspirou muito. Então, o filme foi pensado para que esse retrato dele permanecesse no tempo. Além disso, queria compartilhar um pouco da rotina dele, que era muito singular; falar das relações cotidianas ao nosso redor, as chamadas micropolíticas; e também tratar da velhice, que é uma estágio da vida que recebe um estigma muito forte”, explica.

Para a construção da narrativa, a cineasta coletou objetos que representassem as diferentes facetas do avô, lançou mão de um conto de que ele sempre falava, que inclusive é recitado por Ângelo Machado no filme, e buscou vias mais lúdicas, que também exaltassem o lado humano do cientista. O filme conta com narração em off da diretora e alia espontaneidade à performance.

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O cientista é escravo da verdade, é preso pela verdade. Eu queria fugir, queria criar o absurdo, e só o escritor pode criar o absurdo
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diz o cientista brasileiro Ângelo Machado em um dos trechos do filme, explicando sua carreira na literatura.

Mariana conta que elaborou vários roteiros para guiar a produção, “mas eles eram constantemente desrespeitados”, brinca. “Tinham coisas que estavam sendo delineadas na minha cabeça e meu avô não sabia, porque queria que ele se sentisse livre pra viver esse processo. Ao mesmo tempo, também criamos cenas juntos. Às vezes, ele me ligava à tarde falando que tinha pensado em uma cena”. Ainda que seja um filme sobre Ângelo Machado, como o próprio nome já diz, é também sobre sua relação com a neta, que partilha alguns quadros com o avô.

De acordo com Mariana, além das filmagens — que aconteceram entre 2018 e 2019 — o avô acompanhou todo o processo de montagem do filme e “gostou bastante da versão final”, mas não pôde participar do lançamento. Ângelo Machado faleceu no dia 6 de abril, aos 85 anos, vítima de enfarte. 

“Eu queria muito que ele estivesse aqui para ver esse lançamento. O festival, que trata de temáticas socioambientais, conflui diretamente com a trajetória dele enquanto cientista brasileiro e ambientalista, com a participação em ONGs. Ele ia ficar muito feliz vendo o retorno das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, sei que está acompanhando de alguma maneira. Daqui, tento entender essas transmutações da vida e sei que o filme é uma celebração à existência dele”, conta a diretora.

A importância de um filme sobre um cientista

No dia 14 de agosto, ganhou força nas redes sociais o Movimento #ExistePesquisaNoBR, que motivou pesquisadores a compartilharem seus trabalhos e a reforçarem a importância das universidades do País. Para Mariana Machado, o fato de o filme retratar um cientista brasileiro e estrear em um contexto de pandemia carrega uma série de significados. 

“Durante toda a vida dele, vovô foi um grande defensor do saber em diferentes frentes: dramaturgia, literatura, biologia, ambientalismo. E a ciência sempre foi o grande alicerce dele. Eu acho que, nesse contexto de pandemia, esse filme é especialmente importante, pois apresenta uma pessoa que viveu defendendo a importância do conhecimento e da curiosidade”, ressalta. 

“Desde a infância, ele sempre foi uma pessoa que me provocou muito e que instigou continuamente minha curiosidade. Ele adorava transmitir conhecimento e fazer palestras, principalmente quando eram em lugares que tinham campo para poder coletar libélulas”. Apaixonado por borboletas e libélulas, ao longo de sua vida, Ângelo Machado descreveu 102 novas espécies de libélulas e seu nome foi incorporado a 27 seres vivos, como homenagem de outros pesquisadores da ciência brasileira e internacional.

​A história de Ângelo Machado

Nascido em 22 de maio de 1934 em Belo Horizonte, Ângelo Machado graduou-se em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1958, mas optou por não seguir a profissão. Dedicou-se, em vez disso, ao ensino e à pesquisa na área de neurociência na mesma universidade, época em que escreveu o livro ‘Neuroanatomia Funcional’. 

Em 1963, obteve o título de doutor em medicina e passou a ser professor do departamento de morfologia, aposentando-se em 1987. Depois, ainda na UFMG, tornou-se professor de entomologia e constituiu uma das mais importantes coleções de libélulas da América do Sul, com mais de 35 mil exemplares. Como ambientalista, foi um dos fundadores do Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, uma das primeiras ONGs ambientalistas da América Latina, e presidente do Conselho Curador da Fundação Biodiversitas, especializada na conservação de espécies ameaçadas de extinção.

Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mineira de Letras, Ângelo Machado escreveu 35 livros infantis e três para adultos. Em 1993, foi agraciado com o Prêmio Jabuti de literatura infantil pelo livro ‘O Velho da Montanha, uma Aventura Amazônica’. Também foi dramaturgo e criou cinco peças infantis e duas para adultos. Até o fim de sua vida, continuou se dedicando ao livro 'Viagens de um zoólogo em busca de libélulas', que descreve sete viagens de coleta do cientista à Amazônia e ainda será lançado.

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