Neschling compõe trilha de "Desmundo"

O maestro e compositor John Neschling, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado, a Osesp, está concluindo a trilha sonora do filme Desmundo, de Alain Fresnot. Trata-se de sua volta a esse tipo de trabalho depois de sucessos como Pixote, Gaijin e O Beijo da Mulher Aranha.Baseado no livro de mesmo nome de Ana Miranda, Desmundo conta a história de órfãs portuguesas que, com a bênção da Igreja, eram mandadas para o Brasil na época da colônia para casarem-se com os marinheiros, desterrados e aventureiros enviados ao Novo Mundo pelo governo português. Em entrevista, Neschling conta que foi apenas após ver o filme que aceitou o trabalho. "Adorei o filme e aceitei o desafio. Não havia lido o romance, só o fiz depois, e toda minha inspiração acabou saindo do que havia sido filmado. Mas, creio que o clima do livro está no filme, a época, o estilo." Segundo o maestro, a participação de Fresnot foi decisiva no processo de composição. "Sua atitude tem sido muito ativa e positiva, ele tem me dado dicas valiosíssimas, o que me faz acreditar que o resultado será lindo."Há algum tempo longe desse tipo de trabalho, Neschling reencontrou o prazer e, da mesma forma, a angústia do trabalho do compositor. Na década de 80, quando havia acabado de compor a trilha para a peça A Serpente, de Nelson Rodrigues, ele definiu o trabalho do compositor como "um parto, um sofrimento que só acaba quando a música está no papel". E agora? A mesma coisa. "Quando aceito um trabalho sempre acho que vai ser simples a criação, que vou conseguir achar o caminho com facilidade. Ao começar, porém, sempre me vejo defronte ao branco total, virgem de sons, à espera de ser engravidado por uma idéia um conceito, e isso às vezes leva um tempão, me faz sofrer e penar o inferno."A primeira trilha escrita por Neschling foi conseqüência de um convite feito por Aylton Escobar, que pediu a ele que o ajudasse a compor uma trilha para o teatro. Isso foi na década de 70, no Rio, Neschling estava de volta ao Brasil após vencer concursos na Europa, e decidido a viver de música no País. A peça era Desgraças de uma Criança. "Este foi meu primeiro trabalho e por isso ficou na minha memória como uma criação especial. Foi minha entrada no teatro e meu primeiro contato com a classe teatral. Todos os participantes daquela montagem, principalmente Antonio Pedro e Marco Nanini, tornaram-se grandes amigos."O sucesso de Desgraças abriu portas para outros trabalhos no teatro. A Mais Sólida Mansão, Lola Morena, Rasga Coração, A Serpente e Mandrágora foram alguns de seus principais trabalhos. Do teatro para o cinema, Neschling assinou as trilhas de Os Condenados, Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, Pixote, O Cortiço (da qual faz parte a famosa canção ´Rita Baiana´), Gaijin e O Beijo da Mulher Aranha.Quando volta-se para o passado, para se lembrar de alguns desses projetos, Neschling, na verdade, toma consciência de sua relação atual com o trabalho de compositor, das mudanças no tempo em que ficou sem compor. "A composição é um exercício diário, como toda a criação. Parei muito tempo de compor para teatro, TV e cinema. Retomei este ano e foi duro. Sou outra pessoa, outro músico, com muito mais experiência, mas com pouca prática. Estou desenferrujando de novo, mas com imenso prazer." Para ele, outras coisas também mudaram. "A música muda, sem dúvida, a gente amadurece, traz mais informação, minha autocrítica surpreendentemente me trata melhor, talvez esteja mais seguro."Mas a concepção parece não ter mudado muito, o objetivo, ao que parece, ainda é tratar a música incidental em suas múltiplas possibilidades, como disse ele na década de 80, quando compunha a trilha para Pixote, de Hector Babenco, com quem diz ter mantido uma relação fraternal "desde sempre" (no ano que vem ele deve voltar a trabalhar com o cineasta em Carandiru). "Creio que, dependendo do momento, a trilha tem como objetivo realçar, tornar óbvio, desviar a atenção, lembrar, predispor, desdramatizar, comentar, criticar, ironizar e até consertar, quando a cena está fraca."A volta ao passado, também o faz ponderar a respeito das diferenças entre o teatro e o cinema. "Teatro é diferente, geralmente há menos dinheiro para trilha e ela não participa da linguagem da forma direta e constante, como acontece no cinema. Mas, quando é ao vivo, muda todo dia é isso é engraçado, é como um concerto." Com o cinema, o trabalho "fica" para sempre. "Ouço até hoje Pixote e O Beijo da Mulher Aranha, mas nunca mais soube da Sólida Mansão, que fiz com a Fernanda Montenegro ou da Mandrágora com Dina Sfat e Paulo José, da Serpente do Nélson Rodrigues, ou mesmo da Lola Morena, musical que escrevi com Geraldo Carneiro para a Lucélia (Santos, sua ex-mulher)." A trilha de Gaijin transformou-se, tempo mais tarde, em uma peça de câmara.

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