'Nervos de Aço' se baseia nas canções de Lupicinio Rodrigues

Novo longa é dirigido por Maurice Capovilla

O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2014 | 16h00

Só um clássico triângulo amoroso poderia ser tema à altura de um filme de ficção baseado nas letras do papa da dor de cotovelo, Lupicinio Rodrigues (1914-1974), cujo centenário de nascimento se comemora em 2014. Assim é Nervos de Aço, de Maurice Capovilla, que adota por título uma das mais festejadas canções de mal de amor do compositor gaúcho e tem previsão de estreia para 2015. Quem não conhece os versos? “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor/Ter loucura por uma mulher?/E então encontrar este amor, meu senhor/Nos braços de um tipo qualquer...”

Dói à beça, não é mesmo? E foi assim, ouvindo as músicas e prestando atenção às letras, que Capovilla, Capô para os íntimos, foi construindo a trama para seu filme-homenagem. “O roteiro é dele, Lupicinio, eu só fui juntado as peças.” E, juntando-as muito bem, trecho por trecho, enfileirando um samba-canção no outro, que chegou à clássica história da rivalidade amorosa, tendo por palco um teatro. Neste se ensaia um espetáculo, dirigido por Arrigo Barnabé, que ama a cantora Ana Lonardi, que se sente atraída pelo violonista Pedro Sol. E pronto. 

No todo, a maior parte da ação se dá mesmo no palco, onde 14 músicas de Lupicinio se encarregam de fornecer, comentar, e dar corpo dramático à história de amor, rivalidade e ciúmes. Entre elas, a canção-título, Nervos de Aço, mas também clássicos como Nunca, Ela Disse-me Assim: Vai Embora, Vingança, Quem Há de Dizer, entre outras. Elas são interpretadas na versão expressionista de Arrigo Barnabé e na bela voz suave de Ana Lonardi. O time de músicos é da pesada e os arranjos, a cargo do trombonista Matias Capovilla (filho do diretor), conseguem a proeza de modernizar Lupicinio sem deformá-lo ou descartar sua essência. Ela está lá, intacta e potente, vestida de modernidade, mas com o inconfundível ar de cabaré portuário que está em sua origem. 

O filme foi rodado em Porto Alegre, habitat de Lupi e, em especial na bela Casa da Cultura Mário Quintana, na tradicional Rua da Praia. De acordo com Capovilla, foi uma das filmagens mais deliciosas que já comandou, e com ótima qualidade técnica, “33 microfones de captação, um piano magnífico, todas as facilidades que se poderia desejar”, afirma ainda. 

A montadora e produtora Marília Alvim diz que o mais difícil foi editar o material, tamanha a sua riqueza e qualidade. “Trabalhávamos, Capô e eu, duro o dia inteiro e, quando chegava o final da tarde, abríamos uma garrafa de vinho para comemorar e ver o resultado da jornada. Foi muito prazeroso e a música está na alma do filme”, lembra. 

Esse prazer sem dúvida é sentido pelo espectador. Mas para apreciar de maneira profunda Nervos de Aço é preciso se despojar da expectativa realista em geral alimentada pelo cinema. Estamos mais diante de uma ópera popular do que de um drama amoroso convencional. O triângulo entre Arrigo-Ana e Pedro só adquire sentido por intermédio das músicas e estas, por sua vez, comentam o paroxismo amoroso e também os paradoxos dos encontros e desencontros entre casais. “Meu medo é que as pessoas apenas ouçam as músicas sem notar o enredo que elas constroem”, observa Capô. De fato, prestando-se atenção à trama, não apenas a história fica clara como as próprias músicas se iluminam umas às outras, testemunhando a visão de mundo desse autor genial e amorosamente atormentado que foi Lupicinio Rodrigues.

Para Lupi, a medida do desencanto amoroso era dada pela idealização inicial da amada. No início, enseja versos assim: “Deixe o sereno da noite/Molhar teus cabelos/Que eu quero enxugar, amor”. Para, depois de consumada a desilusão, inspirar palavras como “Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada/Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”. 

Considerado brega na época cool da bossa nova, Lupi foi redescoberto por intérpretes da elegância de um Paulinho da Viola, que gravou Nervos de Aço com voz de príncipe. Lupicinio ganhou a absolvição intelectual com Augusto de Campos, que o comparou a outro Rodrigues de gênio, Nelson, dizendo que as duas obras não podem ser compreendidas por um a priori intelectual do bom gosto. Se o dramaturgo de Vestido de Noiva prospectou visceralmente o recesso do sexo, o compositor de Vingança se dedicou “afincadamente, por toda a vida, a virar pelo avesso a dor de cotovelo amorosa”. 

Transformar esse testemunho sofrido do cancioneiro em estrutura dramática, como no filme de Capovilla, é, por assim dizer, trabalhar no avesso do avesso da paixão amorosa.

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