Nelson Pereira filma 100 dias do governo Lula

Se perguntarem a Nelson Pereira dosSantos qual foi a cena que mais o deixou impressionado em 1º dejaneiro, na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eledará a seguinte e emblemática resposta: "Quando vi aquelerespeito que a polícia começou a ter pelo povo, pensei, ´ah,agora acabou a ditadura´. A ditadura terminou naquele dia." E oque isso significa? "Está instaurado o respeito pelo mais pobre,pelo oprimido. Estamos colocando como prioridade asnecessidades dessa grande massa de população." O maior cineastavivo do País fala com empolgação de seu novo projeto. Nos próximos três meses, ele estará atrás das câmeras,filmando os cem primeiros dias do governo Lula. Convidado hátrês semanas, Nelson Pereira dos Santos teve de interromper afinalização de seu filme sobre Sérgio Buarque de Holanda, paraseguir os passos do novo presidente. Viu no fato, aliás, uma feliz coincidência: "Ele foifundador do PT e as idéias dele, especialmente do últimocapítulo de Raízes do Brasil, são proféticas dessa grandemudança da sociedade brasileira." Ao seu lado, Nelson Pereiraterá o diretor de Fotografia Edgar Moura e Juarez Dagoberto nosom. Considera sua equipe excelente. Com Dagoberto já trabalhouem Jubiabá e Cinema de Lágrimas . Poderá, assim, ter apaz e a cumplicidade para criar em cima da história de como umex-retirante e ex-torneiro mecânico governará o Brasil. Eleitorde Lula na última eleição - e de Fernando Henrique Cardoso em1994 -, o cineasta alterna otimismo e realismo para falar desuas expectativas com o início do novo governo. "Imagino que haverá duas grandes questões: a lutacontra a fome e o fim da corrupção administrativa. Mas astransformações não acontecem de um dia para o outro nem pordecreto", afirmou na sexta-feira passada. No dia, preparava-separa uma entrevista com o ministro das Relações Exteriores,Celso Amorim. O documentário mesclará o dia-a-dia da políticapalaciana com depoimentos de artistas, comentaristas epopulares. Não há um roteiro definido, o que não é novidade paraa sua vasta filmografia. Em "Fome de Amor", um filme de ficçãode 1968, Nelson Pereira já havia deixado de lado o roteiro. A produção dessa obra, ainda sem título, deverá serdividida entre o Estúdio Millennium, de Brasília, e umaprodutora francesa. A concepção de filmar os cem primeiros diasfoi da parte francesa, mas os convites a Nelson Pereira, Moura eDagoberto foram feitos por Christian de Castro, da Millennium esócio da BSB Cinema Produções. Os nomes franceses não sãodivulgados porque as negociações estão em curso. Castro adianta que estão próximos de fechar um contratode exibição com uma TV francesa. No Brasil, ainda se estuda se opúblico verá a obra no cinema ou por meio de uma emissora de TV.Não se fala, em público, do orçamento do documentário. Aos 74 anos, o cineasta preocupa-se em não deixar passaras melhores imagens e momentos do início de governo. Privilégios já sabe que não terá, por ordem do comando petista decomunicação. Nos primeiros dias, trabalhou como se fosse umaequipe comum de jornalismo de TV. No dia 1º, esperou horas de péaté que Lula subisse a rampa do Palácio do Planalto. NelsonPereira não reclama, considera essa pouca consideração à suahistória cinematográfica parte do seu objeto de trabalho. "Todomundo tem os mesmos direitos." Prefere se entusiasmar com aatividade dos jornalistas, ávidos por notícias diárias do novogoverno. "Vou acabar transformando os jornalistas empersonagens. Eu me divirto muito com os fotógrafos. É incrívelcomo eles mergulham até debaixo de um cavalo para pegar asmelhores poses", disse. O mais novo "repórter" a captar osbastidores da República, Nelson Pereira pretende seguir Lula emmomentos que considerar relevantes para a mudança que vêacontecer no País. A viagem do presidente e sua equipeministerial para municípios miseráveis do sertão nordestino estános planos. "Esse será um momento muito importante,completamente novo de toda a história política brasileira, daadministração pública." É claro que ele não vai dar plantão noPalácio do Planalto. Estará lá sempre que julgar importante.Imagens de TV podem vir a ser utilizadas. Autor de obras-primas do cinema, como Rio, 40 Grause Vidas Secas, Nelson Pereira sempre imprimiu um olharcrítico e diferenciado sobre a realidade desigual dosbrasileiros. Sua história pessoal, de ex-militante do PartidoComunista e egresso do politizado Colégio do Estado PresidenteRoosevelt, de São Paulo, o mesmo por onde passou o ex-presidenteFernando Henrique Cardoso, poderia explicar um pouco doentusiasmo com o novo projeto. Mas ele dá outra resposta: "Lulalembra muito o meu pai, Antônio. Ele era um caboclo do interiorde São Paulo, Lula é um homem que veio do campo. Meu pai tinhamuita energia para viver e superar as dificuldades", afirmou,interrompendo a entrevista por alguns instantes. Seu Antônio era anticomunista, mas tinha uma práticamais socialista, explica o filho. Líder da Associação dosAlfaiates do Estado de São Paulo, defendia o interesse doscompanheiros. "Fico lembrando do meu pai jovem, com muitadisposição, vontade de acertar, aberto e amigo de todo mundo.Sempre muito interessado pelos destinos do País." Para Nelson Pereira, Lula tem o grande poder de fazercom que cada brasileiro se identifique a ele, cada qual à suamaneira. "O que eu espero, não estou esperando sozinho, estouesperando com milhões de pessoas, é a mudança, atransformação." Ainda com as imagens da posse vivas em suamemória, o cineasta disse que só o dia da morte de GetúlioVargas pode ser comparável ao que aconteceu dessa vez emBrasília. "Parecida, mas em outro extremo, o da pena, o do choro.A multidão chorando, acompanhando um momento de profunda mágoa,tristeza. Aqui foi o contrário." Das diversas imagens que elegravou, com outras duas equipes, no dia da posse, Nelson Pereirafaz piada particularmente com uma. Simbolicamente ela traduziu o fim da ditadura, mastambém um marco da nova história brasileira. "O pessoal lá deRamos, da zona norte do Rio, ficou com inveja dos brasilienses,porque esse piscinão (o espelho d´água do Congresso) é muitomelhor. Embora pequeno, é um piscinão democrático", brincou.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 15h46

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