Nelson Pereira dos Santos vai filmar curta-metragem sobre Zé Kéti

O sambista não morre, ele viaja para o reino da glória. Convencido dessa que foi uma das inesquecíveis frases do músico Zé Kéti (1921-1999), o cineasta Nelson Pereira dos Santos prepara-se para prestar uma homenagem carinhosa ao amigo, a quem ainda trata de compadre: hoje pela manhã, no Rio, o programa Petrobras Cinema, uma das iniciativas culturais da empresa estatal, anunciou o convite oficial para o diretor realizar um curta-metragem em 35 milímetros, que será exibido em salas de cinema. Trata-se de Meu Compadre Zé Kéti um retrato afetivo de um dos maiores sambistas brasileiros."Será apenas um aperitivo para um documentário mais completo, que pretendo ainda realizar", comenta Pereira dos Santos, o primeiro cineasta a ser convidado pela Petrobras para participar de um inédito programa de apoio ao curta-metragem, desde a produção, passando pela distribuição, até chegar à exibição. Os projetos de nove outros diretores foram escolhidos e também anunciados hoje. Todos receberão uma verba de R$ 40 mil cada um para produzir um curta com até 15 minutos de duração .Satisfeito com o convite - a dificuldade em acertar financiamentos obrigou-o a manter uma produção espaçada na década passada, que teve apenas A Terceira Margem do Rio (1993), em que fundiu quatro contos de Guimarães Rosa, e Cinema de Lágrimas (1995), que fez a convite do Instituto Britânico de Cinema -, Nelson Pereira dos Santos decidiu que chegara o momento de homenagear Zé Kéti. "Venho acalentando a idéia há muitos anos, mas nunca consegui o financiamento ideal" comenta o cineasta, que realizou ainda uma delicada versão de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, para o canal a cabo GNT. "O convite da Petrobras me estimulou a fazer um filme simples, mas extremamente singelo."A amizade entre o diretor e o músico remonta à década de 50, especificamente no ano de 1955. Era a época gloriosa das chanchadas da Atlântida, mas um grupo, disposto a apresentar uma visão mais realista da sociedade brasileira, promoveu uma série de reuniões em um apartamento próximo à praça Cruz Vermelha, no Rio. Era a equipe de produção e elenco de um filme, todos trabalhando em regime de cooperativa, ou seja, sem que ninguém ganhasse salário ou cachê. Tratava-se da fermentação do filme Rio 40 Graus, estréia na direção de Nelson Pereira, então com 27 anos, e que lançou os fundamentos do que mais tarde seria conhecido como Cinema Novo.Intérprete de um dos papéis no filme, o de um compositor aspirante ao sucesso, Zé Kéti revelou-se com o samba A Voz do Morro, um dos maiores sucessos de sua carreria, composto especialmente para Rio 40 Graus. Brincalhão, lembrou, anos mais tarde, o penoso processo de filmagem: "No Cinema Novo, a gente passava a macarrão com alho e óleo. De sobremesa, só quando a mãe do assistente de câmera mandava as mangas que colhia", afirmou em uma entrevista a Tárik de Souza, citado no livro O Samba Sem Senhor, notável biografia escrita por Nei Lopes e lançada pela Relume Dumará."Zé Kéti tinha um humor infalível, que contagiava a todos no set de filmagem", lembra o cineasta, que voltou a convidar o sambista para participar de seu filme seguinte, Rio Zona Norte (1957), na verdade um roteiro baseado na própria vida de Zé Kéti, ao contar a história de um compositor popular, Espírito da Luz Soares, interpretado por Grande Otelo, obrigado a vender seus sambas para sobreviver. O sambista participa da trilha com Malvadeza Durão e Foi Ela, além de trabalhar como assistente de fotografia.A colaboração continuou no filme Boca de Ouro (1962) que incluiu sambas compostos por Zé Kéti, novamente participando do elenco, dessa vez como coadjuvante. A afinidade entre o cineasta e o sambista transformou-se em uma sólida e carinhosa amizade, a ponto de Nelson Pereira tornar-se padrinho de um dos filhos de Zé Kéti."É por esse motivo que sinto ter uma dívida sentimental com ele", comenta o cineasta que, tão logo acerte a liberação da verba pela Petrobras, inicia a produção de Meu Compadre Zé Kéti. Como ainda não será o filme que realmente ambiciona fazer sobre o sambista, Nelson Pereira dos Santos não pretende utilizar agora imagens de arquivo, seja de seus filmes, seja de apresentações do músico."Minha idéia é recuperar a imagem do homem bondoso e carinhoso que ele foi", afirma o cineasta, que vai centralizar a narrativa no encontro de antigos companheiros do sambista, como Wílson Moreira, Nélson Sargento, Zé Cruz, Elton Medeiros. "Quero reunir o Estado-Maior do Samba do Brasil", diverte-se Nelson Pereira, buscando na memória imagens da festa realizada em 1998, quando a comemoração de seu 70.º aniversário foi feita com o 77.º do sambista. "Foram momentos maravilhosos, que pretendo recontar nesse encontro", conta o diretor, que vai filmar na casa onde ainda moram os filhos de Zé Kéti, em Inhaúma no Rio.

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