MARCOS D'PAULA/AGENCIA ESTADO/AE
MARCOS D'PAULA/AGENCIA ESTADO/AE

Nelson Pereira dos Santos fundou o cinema político no País, diz Roberto Farias; veja repercussões

Cineasta tinha discurso sobre o País desde muito jovem, ressaltou amigo

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 19h30

RIO – “Nelson Pereira dos Santos não era só precursor do Cinema Novo, ele era O Cinema Novo”, definiu o cineasta Roberto Farias, seu amigo desde os anos 1950, quando ambos iniciaram suas carreiras. Nelson morreu neste sábado, 21, aos 89 anos, de câncer. Ele deixou mulher, quatro filhos e cinco netos.

Jovem ainda – tinha 27 anos quando filmou “Rio, 40 graus” (1955), clássico do cinema nacional –, ele já tinha um discurso a ser impresso em sua produção, ressaltou Farias, para quem Nelson foi fundador do cinema político no Brasil.

“Ele será inesquecível. Não há praticamente nenhum outro comparável a ele, a não ser nos primórdios do cinema brasileiro. Era indispensável, um ícone, uma baliza, uma orientação, uma pessoa que determinava involuntariamente o caminho a se seguir”, disse o diretor, ainda sob o impacto da notícia da perda do amigo.

+ Nelson Pereira dos Santos foi um dos definidores da identidade brasileira

“Não impunha nada, não se colocava assim. Qualquer hesitação Nelson tirava”, explicou Farias, cujo primeiro filme, “Rico ri à toa”, data de 1957. “Nelson começou muito novo e saiba bem o que queria dizer. O cinema brasileiro até ali não era engajado, responsável. A partir dele, tomou características de análise da situação, da estrutura, da sociedade brasileira, das desigualdades. Era um camarada que tinha partido”.

Para Farias, Nelson não se colocava como farol para sua geração, mas acabou se tornando um, pela força de seus filmes. “Virou uma espécie de guia para aqueles que vinham depois. Ele tinha capacidade de analisar a vida brasileira através do cinema. Antecipou o cinema novo, os outros seguiram atrás”.

+ Nelson era um 'poeta da luz', diz presidente da Academia Brasileira de Letras

Veja outras repercussões:

"O mestre Nelson Pereira dos Santos partiu. Deixará muitas liçõess de vida, de cinema e saudades"

Silvio Tendler, diretor, via Facebook 

"Grande Pessoa! Na minha opinião, o mais importante cineasta brasileiro"

Daniel Filho, ator, diretor e produtor, via Facebook 

"Vamos celebrar uma existência profunda, que deixou um legado que servirá às futuras gerações. É o cinema útil, não cinema fútil" Luiz Carlos Barreto, diretor, à TV Globo 

"Nelson inventou o cinema moderno brasileiro. O País coube dentro do cinema dele"

Cacá Diegues, diretor, à TV Globo

"Quando #NelsonPereiradosSantos foi à Bahia para filmar #VidasSecas, choveu no sertão e as filmagens tiveram de ser adiadas. Para não perder o dinheiro gasto e a equipe já em campo, Nelson resolveu fazer um filme com história escrita por ele mesmo - e atuar como protagonista. O filme se chama Mandacaru Vermelho e é uma obra menor do grande cineasta. Mas, vendo o filme em Salvador, fiquei surpreso de ver como ele era bonito. Nelson tinha trazido para o cinema brasileiro um núcleo que lhe faltava. Tínhamos chanchadas e Vera Cruz: sucesso da bagunça e esforço de respeitabilidade. #Rio40Graus abriu uma espaço diferente. Tínhamos força própria, A Voz do Morro ecoa ainda hoje o que significou aquilo. Rio Zona Norte, com #ÂngelaMaria fazendo uma aparição no backstage da Rádio Nacional, confirmou. Eu conhecia o nome de Nelson ligado a essas conquistas que tornaram possível a realidade ainda mal avaliada do Cinema Novo. Vê-lo como um rapaz bonito na tela era fascinante. Depois veio Vidas Secas, com o rosto inesquecível de Maria Ribeiro, a harmonia entre as imagens, o som do carro de boi como música na cena da morte da cadela Baleia. Mais bonito do que o livro de Graciliano em que se baseou. Isso já era Cinema Novo feito por quem o fizera viável. Depois vieram coisas fortes. O meu preferido é Memórias do Cárcere, um dos melhores filmes já feitos no Brasil. Nelson Pereira dos Santos é um dos construtores deste país. A obra dele e sua memória hão de seguir sustentando os alicerces." Caetano Veloso, cantor e compositor, via Facebook

"Estou atordoada com a notícia. Me sinto órfã. Foi-se um amigo, um mestre, uma pessoa que tinha um profundo amor pelo cinema e pelos brasileiros. Nelson é a história do cinema brasileiro mais corajoso e bonito. Me ensinou a principal lição de cinema: ter coragem para filmar, e amar o que está filmando" Tizuka Yamasaki, diretor

 "Esta noite, as estrelas que brilham nos céus brasileiros nem imaginam a imensa tristeza que nos abate e, de certa forma, atinge o coração do país nesse momento crucial. Nelson foi o diretor que encarou sozinho a mudança de paradigma do nosso cinema ao filmar Rio 40º conforme os princípios do neorrealismo italiano.Formou inúmeros cineastas nas universidades em que lecionou e nas equipes que montou com jovens interessados em cinema. Gostava de ensinar e permaneceu mestre de gerações de cineastas, como Glauber Rocha de quem montou “Barravento”. Com ele estabeleceu amizade e cumplicidade na transformação do nosso cinema. Independente e com pensamento de bases humanistas bem fundamentado em qualquer área de conhecimento que, senão por razão específica, girava em torno dos temas que abordava nos filmes e da política. Durante as filmagens de Como era gostoso o meu francês li O Estado e a revolução, de Lenin, que provocou discussão inusitadamente retomada em um aniversário do nosso filho Diogo Dahl.Era sempre um prazer ouvi-lo no convívio em conversas de bar, sets de filmagens e salas de montagem quando reunia em torno de si pessoas de origens e idades diversas. Guardo com saudade nossas conversas ao longo das madrugadas.Nelson não sentia maior apelo por teorias cinematográficas, para ele prevalecia a prática. Filmar com ele era como embarcar em um carrossel de alegria e criatividade. Obrigada, Nelson, pela importância definitiva na minha escolha pelo cinema e na nossa vida, minha e do Diogo Dahl."

Ana Maria Magalhães, atriz, no Facebook

"A cultura brasileira está de luto. Perdemos hoje um dos mais importantes e premiados cineastas do país, Nelson Pereira dos Santos. Ele levou para a tela as mais importantes obras da nossa literatura. E o seu cinema retratou fielmente o âmago do povo brasileiro"

Michel Temer, presidente, via Twitter

"Nelson Pereira dos Santos partiu. Perdemos um dos grandes cineastas e pensadores do nosso cinema. Mais que um diretor, foi uma força, um dínamo, um vetor do cinema brasileiro. E uma inspiração. Deixa uma obra eterna, que seguirá influenciando jovens cineastas no futuro. Temos que reverenciá-lo por tudo o que fez e nos legou. RIP! Viva Nelson!"

Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura

"Dia triste. Nelson Pereira dos Santos faleceu hoje. Em qualquer lista, um dos melhores cineastas de todos os tempos. Autor de vários filmes marcantes e geniais. Rio 40 Graus, Boca de Ouro, Memórias do Cárcere. E a obra prima Vidas Secas! De um livro totalmente "literário" ele conseguiu fazer um filme absolutamente "cinematográfico" e ao mesmo tempo, fiel à obra original. Minhas homenagens a este genial artista!!"

André Sturm, diretor e secretário de Cultura de São Paulo, via Facebook 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.