Nelson Pereira dos Santos estréia "Raízes do Brasil"

Nelson Pereira dos Santos gosta de dizer que deve muito aos três autores que fizeram sua cabeça quando jovem - o Gilberto Freire de Casa Grande & Senzala, o Sérgio Buarque de Holanda de Raízes do Brasil e o Caio Prado Jr. de Formação do Brasil Contemporâneo. Ele estudava Direito e Ciências Sociais em São Paulo, no fim dos anos 1940, quando leu os três. Concluiu o primeiro curso, mas abandonou o segundo, sem abrir mão da sociologia, que volta e meia irrompe em seu cinema. Nelson já fez um documentário sobre Casa Grande & Senzala, lança hoje, na Sala Cinemateca, Raízes do Brasil e promete que ainda vai filmar A Formação - mas só depois de voltar à ficção, com um filme político sobre o Brasil atual que vai se chamar Brasília 17%. "Estou devolvendo o que eles me deram", diz Nelson sobre suas adaptações.Não são documentários convencionais. Mesclam informação e invenção. Raízes do Brasil estréia amanhã, dividido em duas partes, no Espaço Unibanco e no Unibanco Arteplex. O primeiro episódio de Raízes do Brasil, que fala do homem Sérgio Buarque, visto pela mulher, pelos filhos e pelos amigos, é um trabalho belíssimo. O segundo, mais informativo e até didático, estabelece uma cronologia para ligar vida e obra. O diretor lança mão de uma iconografia muito rica, com filmes e documentos de época, para contextualizar a produção do historiador. É menos feliz no recurso de fazer com que os netos de Sérgio leiam trechos da obra do avô, mas o resultado é expressivo e os dois filmes formam um bloco coerente e forte.Elogios do clã - Chico Buarque de Holanda deu a melhor definição para Raízes do Brasil, Uma Cinebiografia , na pré-estréia no Cinema Odeon-BR, no Rio, anteontem. "É um belíssimo filme caseiro", disse ele na sessão que lotou a sala. O clã Buarque de Holanda estava incompleto, mas ocupou três fileiras do primeiro andar. "Foi legal ver a nova geração, minhas filhas e todos os sobrinhos, falando da obra de meu pai", afirmou Chico. Maria Amélia, viúva do historiador, também estava lá, assediadíssima pelos fotógrafos, embora sempre tenha sido avessa à fama.É ela quem conduz o primeiro filme, em que os filhos, netos e amigos falam de Sérgio e é personagem importante no segundo, em que sua obra e sua biografia são esmiuçadas, a partir de uma cronologia escrita pelo próprio historiador. Ela, que recusou maquiar-se para as gravações, estava com um batom leve, sentada entre o filho Chico e a neta Sílvia, filha dele. "Não sabia que ia aparecer tanto, por isso não me maquiei." O público que lotou o Odeon aplaudiu-a antes e depois da projeção. Sergito, o filho mais velho, veio de São Paulo com a família. "Gostei de tudo no filme, remexer nas minhas lembranças, falar do meu pai", lembrou.Ciclo - A sessão de hoje na Sala Cinemateca (Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel.: 5084-2177) abre um miniciclo formado por três filmes de Nelson Pereira dos Santos. Vai até domingo - você poderá (re)ver Vidas Secas, Azyllo muito Louco e O Amuleto de Ogum. Na sexta, às 20 horas, haverá uma mesa-redonda com os professores Conrado Pires, Suely Queirós e Valnice Nogueira, para discutir o autor de Raízes do Brasil. No sábado, de novo às 20 horas, mais uma mesa-redonda, desta vez com os professores Fernando Novaes, Maria Odila Silva Dias e Pedro Meira Monteiro.

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