Neil Jordan joga com a mentira em "Lance de Sorte"

Ao buscar inspiração para seu mais recente filme, o diretor irlandês Neil Jordan deparou-se com um famoso longa francês dos anos 1950, Bob le Flambeur, dirigido por Jean-Pierre Melville, considerado o pai espiritual da nouvelle vague. O contato foi decisivo para sua inspiração - "Eu estava apenas rascunhando meu roteiro mas a figura de Bob, do filme de Melville, não me saía da cabeça", contou o cineasta que, da Irlanda, conversou com o Estado por telefone. "Ele é aquele cara que constantemente está se reinventando em suas histórias." A força do personagem se impôs e está presente em Lance de Sorte, que estréia nesta sexta em São Paulo. Trata-se da história de um veterano vigarista que vive na Riviera Francesa e atravessa uma maré de azar até que um amigo lhe propõe um golpe fabuloso. Nick Nolte vive Bob, o americano que se exilou na cidade de Nice e que vai se envolver com figuras de todas as partes do mundo, interpretadas por artistas de procedências diversas como Ralph Fiennes, Emir Kusturica, Tchéky Karyo, Ouassini Embarek, Marc Lavoine e a estreante Nutsa Kukhianidze. Jordan, que completou 54 anos na Quarta-Feira de Cinzas, não fez necessariamente um remake de Bob le Flambeur. Diretor de sucessos como Mona Lisa, Traídos pelo Desejo, Entrevista com o Vampiro e o recente Fim de Caso, o nome de Jordan figura, ao lado de Peter Greenaway, Stephen Frears e Michael Radford, como a geração que iniciou um novo começo para o cinema britânico nos anos 1980. Também romancista (fundou, em 1974, a Cooperativa de Escritores da Irlanda), ele se especializou na tradição mitológica de seu país. É também sobre a conciliação entre cinema e literatura que ele trata na entrevista a seguir. O que de fato o atraiu em Bob le Flambeur? Foi basicamente o assunto de um roubo e a transformação que esse ato provoca em um homem. Esse personagem, Bob, é interessante pelas suas contradições: apesar de viciado em heroína, ele tenta se curar; apesar de ladrão, tenta se regenerar. Tanto que, na metade da história, ele passa a observar como isso influenciou sua vida e, a partir daí, trata-se menos da história de um roubo e mais a de alguém que tenta dar uma virada em sua vida. Não sei se você notou, mas a história começa em um lugar escuro e então vem para a luz. Eu realmente fui convidado para fazer o remake de Bob le Flambeur, mas percebi que era apenas um ponto de partida ao qual não precisaria me prender muito. O que realmente é diferente entre um e outro? Basicamente, é a mesma história. Mas procurei contá-la da forma mais irônica possível e, para isso, praticamente dobrei tudo que era unitário no original: são duas coleções de arte e também um par de gêmeos que tenta executar o roubo planejado por Bob. Por isso me concentrei nas características de Bob. O filme original, que é muito lindo, trata mais de estilo, ou seja, é uma versão européia da realidade americana, enquanto que eu procurei fazer mais um estudo sobre as qualidades e defeitos de Bob. Neste caso, Nick Nolte no papel principal assumiu um importante papel, não? Oh, sim, muito. Escrevi o roteiro baseado especialmente no papel de Bob, portanto precisava do ator certo. Não pensava em ninguém enquanto escrevia até que o encontrei em Los Angeles. Para mim, ele se tornou o nome certo para dar consistência a um papel que um grande estúdio certamente destinaria a atores como Bruce Willis. Por falar em escolha de elenco, por que você se decidiu por atores de diferentes nacionalidades? Quando decidi que a história se passaria em Nice, que é uma cidade muito procurada por imigrantes, especialmente do leste europeu, tornou-se natural para mim que os personagens seriam também de diferentes regiões.Sendo também um escritor, como é compartilhar essa função com a de diretor? Não consigo separar uma função da outra. Mesmo dirigindo, continuo com a visão de escritor. Não consigo dirigir um filme se não participei da criação de seu roteiro. Para mim, é impossível imaginar a posição da câmera se não escrevi antes a cena. Como comecei minha carreira artística como escritor, preciso trabalhar antes com uma idéia a tal ponto que ela exploda dentro de mim e que se torne necessária transformá-la em um filme, em algo visual. "Em Lance de Sorte", os personagens falam muito, o que deixa o filme mais engraçado. Foi intencional transformá-lo em uma comédia meio amalucada? Não pensei nisso. O fato de os personagens falarem muito explica sua origem, ou seja, são todos mentirosos e precisam, com muitas palavras, se fazerem convencer. O Bob de Nick Nolte é um mentiroso contumaz. O que, convenhamos, não é nada estranho na era em que vivemos, quando um presidente como George W. Bush se esforça em falar muito para tentar convencer que suas idéias são verdadeiras.

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