PARIS FILMES
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Natalie Portman volta com mais uma personagem perturbadora em 'Vox Lux'

Atriz fala sobre ter começado criança e a personagem do filme, uma garota que sobreviveu a um tiroteio em uma escola

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2019 | 03h00

Natalie Portman conversa pelo telefone com a reportagem do Estado. Fala sobre Vox Lux – O Preço da Fama, seu novo longa que estreia nesta quinta, 28, nos cinemas brasileiros. Uma história que ganhou trágica atualidade porque, depois da entrevista, ocorreu a chacina na escola de Suzano e ontem, em Los Angeles, foi preso o fã obsessivo que há tempos perseguia a atriz – e terminou por invadir sua casa. Vox Lux é sobre uma garota de 13 anos que sobrevive a tiroteio na escola e vira estrela cantando uma música que ajuda a comunidade, a nação, a curar suas feridas.

O filme começa com Raffey Cassidy fazendo a garota, Celeste. Ao cabo de uma hora de filme, Celeste vira Natalie, preparando-se para um concerto de retorno. Raffey segue em cena, agora como sua filha. Stacy Martin, que faz a irmã, e Jude Law, o empresário, não mudam nada ao longo dos anos. A maneira como o diretor Brady Corbet utiliza o tempo pode ser desorientadora para o público. Celeste parece duas personagens. “Brady não queria que atuássemos de forma coordenada, e pelo contrário dizia que seriam duas diferentes personagens. Começamos como mãe e filha, mas se você viu o filme (sim, o repórter havia visto) sabe que não nos comportamos como mãe e filha. Confesso que fiquei um pouco perturbada quando vi o filme pronto. No papel, ele parecia muito mais simples. Toda a complexidade está no olhar de Brady.”

“Brady ainda engatinha como diretor. É talentoso. ‘Ousa’. Talvez seja mais conhecido como ator – Aos 13, Mistérios da Carne e Violência Gratuita, a versão de 2007. O repórter observa que não é a primeira vez que Natalie interpreta personagens que produzem estranhamento. Seu papel como a bailarina de Cisne Negro, pelo qual recebeu o Oscar, tem um tanto disso e o figurino de Celeste não deixa de evocar o filme anterior, com aquelas plumas. “Embora não queira exagerar, diria que o figurino é quase um personagem à parte em Vox Lux. Aquela espécie de coleira que Celeste usa serve para esconder a cicatriz, mas também revela que ela está aprisionada ao seu passado. Sentia uma espécie de estrangulamento usando aquilo.” Impossível conversar com Natalie Portman num filme em que ela começa garota sem se referir à própria experiência da atriz, que também começou menina em O Profissional, ao lado de Jean Reno, de Luc Besson.

Tendo se iniciado tão cedo, ela não tem, às vezes, a impressão de que sua infância foi roubada? É o momento de virada da entrevista.

Natalie Portman dá uma sonora risada do outro lado da linha quando o repórter lhe pergunta se, às vezes, não tem a impressão de que sua infância foi roubada? A questão tem tudo a ver com o fato de sua personagem em Vox Lux – O Preço da Fama ser essa garota de 13 anos catapultada precocemente para o sucesso e que, agora, mãe, tenta o retorno. Natalie conseguiu ter uma infância, digamos, normal? Com aquela sua voz inconfundível, ela diz – “Se você conseguir definir normalidade e me disser quem é normal talvez eu consiga responder”, prossegue, rindo. O repórter cita Caetano Veloso – “De perto ninguém é normal” – e ela concorda. “Exactly. Existem grandes diretores que fizeram grandes filmes sobre a banalidade das pessoas comuns, mas acho que não tenho physique du rôle nem temperamento para esses papéis. Minhas personagens tendem a ser complexas, atormentadas. Celeste é.” E, como é, para uma ‘celebridade’, interpretar outra?

“Celeste, quando entro em cena, é uma ‘has been’, já foi. É interessante criar personagens assim, porque ela já teve outra imagem, e creio que isso esclarece o ponto de Brady (o diretor Brady Corbet), que queria que Raffey e eu fôssemos diferentes. Mas eu não diria que sou exatamente uma celebridade. Faço parte desse universo de glamour do cinema, tenho feito personagens fortes, mas, pessoalmente, sou discreta e gosto de preservar minha privacidade.” 

Na trilha, as canções são de Sia, que também tem um cargo de produção executiva. “É uma artista muito forte”, define Natalie. Sia, como é conhecida Sia Kate Isobelle Furler, tornou-se um fenômeno e hoje é reputada como a única artista a ter cinco clipes com mais de 1 bilhão de visualizações cada um. Cantora, compositora, diretora e produtora musical, ainda era jovem quando, em 1997, seu namorado morreu num acidente de carro. Devastada emocionalmente, tornou-se dependente de drogas. Essa fase durou seis longos anos. “O filme luta muito com a violência e o luto, e Sia, por suas experiências, entende isso muito bem.” 

Celeste inspira-se em personagens reais? Muito tem se falado sobre isso, sendo citadas Katy Perry e Lady Gaga. “Não trabalhei com referências tão precisas”, esclarece Natalie. O repórter aproveita a oportunidade para lembrar sua Jacqueline Kennedy. É outra personagem que se expressa muito pelo figurino. Todos aqueles elegantes conjuntos que marcaram a era de Camelot. “Pablo (Larraín) foi muito cuidadoso nos detalhes. E é uma personagem que está no imaginário coletivo. A batalha de Jackie para preservar o legado do marido (o presidente John F. Kennedy) ganha relevância nesse mundo à direita em que vivemos. Foi um filme que gostei muito de fazer.” 

Luc Besson, Pablo Larraín, um francês, outro chileno. São estrangeiros em Hollywood. Isso faz muita diferença? “Pode parecer clichê, mas o cinema é um país próprio. Se o diretor sabe o que quer consegue comandar sua equipe em qualquer lugar.” Sua relação mudou com os diretores, depois que ela mesma dirigiu? “Tenho um outro olhar, claro, e às vezes imagino como dirigiria certas cenas. Como atriz, tenho de respeitar o ponto de vista do meu diretor, mas opino, e eles me ouvem. Por mais autoral que seja o filme, na feitura é uma experiência fortemente coletiva.”

Natalie, nascida em Jerusalém, em 9 de junho de 1981 – tem 37 anos –, dirigiu em 2015 Uma História de Amor e Sombras, adaptado da obra do escritor israelense Amos Oz. “Amos era formidável. Tinha plena consciência de suas convicções e lutava por elas. Foi um dos fundadores do movimento pacifista Shalom Akhshav e defendia a Solução de Dois Estados, o que é um tema polêmico em Israel. Não escolhi filmar a história dele por acaso. Sou muito contra Benjamin Netanyahu, sempre fui e serei”, afirma. 

Como ela avalia sua experiência de diretora? “Creio que tinha meus pontos fracos, mas se fosse fazer outro filme agora – e tenho planos de voltar a dirigir –, sinto que teria mais segurança.” Em 2010, durante as filmagens de O Cisne Negro, conheceu o bailarino e coreógrafo francês Benjamin Millepied, com quem se casou em 2012. “Ele criou a coreografia, que é muito mais uma movimentação cênica em Vox Lux.” Juntos têm os filhos Amalia e Aleph. É uma homenagem a Jorge Luis Borges? “É a primeira letra dos alfabetos dos idiomas semíticos, o que inclui o hebraico, o aramaico, o ciríaco e o árabe. Corresponde ao alpha.”

 

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