EFE
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Nascido com status de cult

Exibido fora de competição, filme de Van Sant levou público às lágrimas

Luiz Carlos Merten / CANNES - O Estado de S.Paulo,

13 de maio de 2011 | 06h00

Há um culto, especialmente na França, a Gus Van Sant. Ele está de volta a Cannes, mas desta vez não participa da competição oficial. Van Sant exibe em Un Certain Regard - foi o filme que inaugurou ontem a seção - Restless. O filme interpretado por Henry Hopper, filho de Dennis, e Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton, é sobre garoto órfão (e mórbido) que vive frequentando velórios. Ele se liga a garota terminal, que sofre de um tumor no cérebro.

Uma história pesada que o diretor, segundo as próprias palavras, narra num estilo leve. Restless é um projeto da atriz e agora produtora Bryce Dallas Howard, que o desenvolveu com o roteirista Jason Lee. Bryce é filha de Ron Howard, que coproduz com ela o filme. Van Sant não vê diferença entre uma produção indie, como as de seus filmes anteriores, e um filme de estúdio como este (distribuído pela Sony Classics). "A diferença não está na filmagem, mas no lançamento. O estúdio leva seu filme aonde você não imagina."

Pode-se não gostar de Van Sant - ele era melhor no início de sua carreira, quando fez filmes como Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, My Own Private Idaho -, mas seu cinema certamente possui uma assinatura. Há uma maneira de enquadrar, usar a música e os atores jovens que aqui está mais adocicada do que nunca. Havia gente chorando no fim da sessão. Restless nasceu com vocação de cult. Van Sant fez a love story freak desta geração.

Os fãs lamentam que Restless não esteja em competição - ocupando o lugar de Sleeping Beauty, de Julie Leigh, o primeiro filme da mostra competitiva, ou We Need to Talk about Kevin, de Lynne Ramsay, o segundo. Dois filmes que dialogam entre si. Uma garota entra para uma irmandade secreta - meio De Olhos bem Fechados, de Stanley Kubrick. Ela dorme, é abusada por velhos (mas sem penetração), acorda e é como se não houvesse ocorrido nada. Nada? Os danos são muito mais (pro)fundos.

Por que a garota aceita fazer esse jogo? Não é por dinheiro, porque ela queima as notas que recebe por seu ‘trabalho’. Lynne Ramsay também não explica por que Kevin faz o irremediável em seu filme, deixando sem resposta a pergunta que a mãe (Tilda Swinton) faz ao garoto, mas Kevin é aquilo que se chamaria de mente doentia, um ‘monstro’. Só o pai, John P. Ryan, parece não se dar conta disso.

O festival começou estranho - após o filme de Woody Allen, Midnight in Paris, que se arrisca a vir a ser considerado um óvni nesta seleção tão sombria. O cinema brasileiro está aqui no clima dark, com Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, que deu prosseguimento, após Van Sant, a Um Certo Olhar. Superficialmente, Trabalhar Cansa sugere que Sérgio Bianchi fez escola, embora a análise da classe média também pareça embasada no horror que permeia as relações no cinema de Todd Solondz (A Felicidade).

Trabalhar Cansa é sobre dona de casa que toca um negócio - um supermercado - após o marido perder o emprego. O prédio que abriga o mercadinho está desmoronando (como o casamento?) Primeiro é o esgoto que implode, depois uma parede que oculta o cadáver de um... O que, mesmo? Lobisomem? As relações ficam cada vez menos afetivas e se tornam de classe na sociedade competitiva. Dutra e Juliana viram A Condição Humana, de Nicolas Klotz. Sua crítica aos departamentos de RH é contundente e o filme se encerra com o desempregado liberando sua agressividade urrando feito animal. A dupla de diretores veio do curta. O filme tem cenas ótimas, fragmentos do grande filme que não chega a ser porque ainda falta uma visão totalizante do próprio trabalho por parte de Dutra e Juliana. Mas podem anotar: Trabalhar Cansa vai dar o que falar ao Sul do Equador. Ganhou elogios de Transfuge, a mais importante revista intelectual da França, que o considerou uma das apostas seguras do festival.

BASTIDORES

Pode ser cultura inútil, mas o célebre tapete vermelho de Cannes estende-se por 60 metros até a base da escadaria, que possui 24 degraus. Por ela sobem astros e estrelas e diretores que aspiram à Palma de Ouro. O presidente Gilles Jacob e o delegado geral sabem que a montée des marches é o símbolo de Cannes. Por isso, o tapete é trocado três vezes por dia, para estar impecável.

Elas já foram duas das mulheres mais belas do mundo. Faye Dunaway e Melanie Griffith. Faye, a Bonnie de Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, aparece no cartaz deste ano importalizada em Puzzle of a Downfull Child, de Jerry Schatzberg. Ontem, ela e o diretor exibiram a versão restaurada do filme. Melanie acompanha o marido, Antonio Banderas. Ambas se encontraram e pareciam o mesmo híbrido: botox e plásticas tornaram-nas irreconhecíveis. Saudades de Dublê de Corpo, em que Melanie era tão sexy.

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