"Nasce uma Estrela" sai em DVD

Ele era chamado, em Hollywood, de diretor das estrelas. George Cukor dirigiu as maiores estrelas do cinema americano, dos anos 30 aos 60, quando se encerra sua grande fase (embora ele tenha continuado a fazer filmes até 1981 dois anos antes de morrer). Greta Garbo, Katharine Hepburn, Ingrid Bergman, Claudette Colbert, Lana Turner, Judy Holliday, Judy Garland, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Joan Crawford, Anna Magnani, Sophia Loren, Jane Fonda, Audrey Hepburn. Todas brilharam nas lentes deste cineasta que amava só a mulher apaixonada, mas sempre desconfiou da sinceridade dos amantes.Quais os maiores filmes de Cukor? Alguns títulos se impõem, com certeza. Núpcias de Escândalo, Les Girls, My Fair Lady. Mas o filme mais cultuado de Cukor é Nasce uma Estrela. A partir de agora você dispõe do DVD, lançado pela Warner. O disco digital é duplo. Traz extras para fã de Judy Garland nenhum botar defeito: a festa de estréia em Coconut Grove, um show da estrela, vários clipes, que na época ainda não eram clipes. Mas a atração, com som remasterizado e a qualidade da imagem própria do DVD, é mesmo o filme.Durante quase 30 anos, Nasce uma Estrela foi um dos maiores mistérios de Hollywood. Primeiro filme em cores e cinemascope do refinado Cukor, Nasce uma Estrela conquistou admiradores desde a primeira hora, mas desagradou à empresa produtora Warner por sua metragem, considerada excessiva. Tinha três horas, o que era tido como pouco comercial, principalmente para um musical. O público não agüentaria um filme cantado e dançado dessa duração. E, com menos tempo, haveria mais sessões diárias. Convencida disso, a Warner cortou cerca de meia hora. O diretor Cukor e a estrela Judy Garland sempre se recusaram a assistir à versão truncada.Começou aí o mito. Onde estariam as cenas cortadas de Nasce uma Estrela? Havia informações de que colecionadores possuiriam a versão integral. Mas quem e onde? Um pesquisador do American Film Institute, Ronald Haver, com a interferência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, conseguiu permissão para pesquisar nos arquivos da Warner. Encontrou 21 dos 27 minutos cortados de Nasce uma Estrela. Não recuperou a íntegra da obra sonhada por Cukor, mas chegou perto, colocando de volta números cortados e, principalmente, reconstituindo o número emblemático, Born in a Trunk, que a mutilação fazia parecer solto no filme, até por sua duração (nada menos de 18 minutos). E agora dá para entender por que Nasce uma Estrela virou cult.Pigmalião - Essa foi a segunda de três versões que Hollywood fez da mesma história. Na verdade, a terceira, porque além das três versões com o título de Nasce uma Estrela - a de William Wellman, nos anos 30, a de Cukor, nos 50, e a de Frank Pierson, com Barbra Streisand, nos 70 -, houve a primeira de todas, do próprio Cukor. O filme, de 1932, chamava-se What Price Hollywood e no Brasil foi lançado só como Hollywood. Todas as versões contam a história do astro bêbado e decadente que conhece e se casa com a atriz (ou cantora) em ascensão. E, enquanto a estrela dele se apaga, a dela passa a brilhar, fulgurante.Norman Maine, o personagem de James Mason, é o Pigmalião de Vicky Lester, a personagem de Judy, como o professor Higgins (Rex Harrison) seria o de Elisa Doolittle (Audrey Hepburn) em My Fair Lady, exatamente dez anos mais tarde. Apesar dessas constantes temáticas, e de outras, Cukor não se considerava um autor, preferindo se definir como um homem do sistema de Hollywood, cuja máquina sabia usar admiravelmente. Usava, mas também conhecia revezes. O de Nasce uma Estrela é o mais famoso, mas outro filme do diretor, também marcante pelo uso da cor e da cenografia, A Vida Íntima de Quatro Mulheres, foi mutilado (pela Warner!) sem que surgisse outro Ronald Haver disposto a recuperá-lo.Além do esplendor audiovisual (fotografia de Sam Leavitt canções de Harold Arlen e Ira Gershwin, incluindo a sombria The Man that Got Away), o que mais contribuiu para o culto a Nasce uma Estrela foi a própria Judy Garland, na interpretação de sua vida. A Dorothy de outro cult, O Mágico de Oz, de Victor Fleming, entrou para a história como a menina que cantava Over the Rainbow. Sua vida foi uma sucessão de porres homéricos e amores infelizes. Judy era autodestrutiva até o limite. Seu mito resistiu a tudo, até a ela mesma. Além de O Mágico de Oz e Nasce uma Estrela, fez outro clássico musical, Agora Seremos Felizes (Meet Me in St. Louis, de 1944), com direção do então marido Vincente Minnelli, pai de sua filha Liza.Até hoje há espectadores que não perdoam o Oscar, por uma de suas injustiças mais clamorosas. Judy é genial como Vicky Lester e a excelência do seu trabalho é tanto maior porque se sabe que ela atravessava uma fase de estresse. Dependente de drogas (para dormir, para manter-se acordada), ela tentou na marra acabar com a dependência durante a rodagem. Sofria o diabo. É magnífica, embora às vezes cabotina, no drama e sublime cantando. Pois a academia preferiu premiar Grace Kelly, por Amar É Sofrer, de George Seaton. Não tem comparação.Nasce uma Estrela (A Star Is Born). EUA, 1954. Direção de George Cukor, com Judy Garland e James Mason. DVD da Warner. Nas lojas, R$ 46,50.

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