Nas telas, o Nordeste pop de Guel Arraes

Um Nordeste pop, aquele que vem estampado em pára-choque de caminhão, brega mas não debochado, diferente do Nordeste suburbano que se apresenta na maioria dos filmes nacionais - é com tal colorido que o diretor Guel Arraes identifica seu longa Lisbela e o Prisioneiro, que estréia hoje em diversas salas do País. "Trata-se de uma história melodramática, na qual eu tentei quebrar o preconceito contra o kitsch", comenta o cineasta. "Busquei o melhor do mau gosto."Inspirado na peça de Osman Lins, Lisbela e o Prisioneiro é uma comédia romântica que conta a história do malandro e aventureiro Leléu (Selton Mello) e da mocinha sonhadora Lisbela (Débora Falabella), apaixonada por filmes americanos. Ela está noiva e de casamento marcado quando Leléu chega à cidade. O casal se encanta, mas sofre pressões da família e do meio social, além de suas próprias dúvidas e hesitações. "É o bastante para o surgimento da versão nordestina de alguns personagens da comédia universal, como os valentões, os sabidos, a fogueteira, etc.", comenta Guel Arraes, que há dez anos está às voltas com o texto de Lisbela.Em 1993, ele fez uma adaptação para a televisão e, desde 2001, percorreu diversos teatros do País, encenando o mesmo texto. "As duas primeiras montagens (especial e peça) tiveram uma ótima resposta do público, o que me convenceu a levar a história para o cinema." Trabalhar com a prosódia e o humor nordestino no especial de televisão, aliás, estimulou o diretor a filmar um de seus maiores sucessos, o Auto da Compadecida, inspirado na obra de Ariano Suassuna. "Costumo dizer que, com esses dois trabalhos, virei pernambucano de novo."Tom de farsa - Ao apostar no melodramático e no mau gosto, mas sempre preocupado em não cair em exageros, Guel Arraes pediu interpretações especiais de seu elenco. Débora Falabella, por exemplo, no papel de Lisbela, precisou de um tempo de adaptação. "Primeiro, foi o sotaque. O Guel não queria que eu fizesse um nordestino exagerado", conta. Também a atriz Virginia Cavendish necessitou de um período de adaptação pois trocou de personagem - durante os dois anos em que participou da montagem para o teatro, ela viveu o personagem principal. No cinema, porém, Virginia interpretou Inaura, uma mulher casada e sedutora que tenta atrair o herói."Como o universo era o mesmo, não foi tão difícil, mas, ao mesmo tempo, foram fundamentais as reuniões que tive com Guel e o Marco Nanini (que interpreta o valentão e matador Frederico Evandro), pois o personagem no cinema ficou completamente diferente do que foi na peça." Apesar de enaltecer o texto de Osman Lins, Guel Arraes afirma que menos da metade do original inspirou a versão cinematográfica. "Na adaptação para a TV, o tom geral era mais de farsa com algum romance. No cinema, a história virou uma comédia romântica com toques de farsa."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.