Nas telas, o melhor de Hal Hartley

Ainda bem que o cinema não tem cheiro. Na cena mais desconcertante de As Confissões de Henry Fool, o personagem-título, interpretado por Thomas J. Ryan, corre ao banheiro, onde a namorada está se banhando, e vítima de uma cólica violenta submete o espectador a um inusitado festival de sons. A namorada sai do banho, Henry tem uma aliança na mão e ela entende aquilo como um pedido de casamento. A cena termina com ele sentado no vaso e ela a seus pés, beijando-lhe as mãos. Desde que foi exibido no Festival de Toronto de 1997 e, depois, em Cannes, no ano seguinte, As Confissões de Henry Fool tem dividido os críticos. Na verdade, não tem dividido, coisa alguma. Henry Fool já foi acusado de longo (tem, realmente, 137 minutos, o que é mais do que qualquer coisa que o diretor Hal Hartley tenha feito antes), dispersivo, falocrático e escatológico. Não se impressione com essas acusações. Hartley é um caso interessante do cinema americano e Henry Fool talvez seja seu melhor filme, o único realmente bom.Desde o começo dos anos 90, quando foi revelado no Brasil pela Mostra Internacional de Cinema São Paulo, o americano Hartley virou uma grife importante da produção independente dos EUA. Hartley faz um cinema que se coloca a distância de Hollywood e isso adquire um sentido mais amplo que o meramente geográfico. Ele vive e trabalha em Nova York. E, embora respeitado, nunca foi uma unanimidade. Seus filmes sempre foram considerados curiosos, mas não passam de pálidas cópias de dois franceses que Hartley idolatra, Jean-Luc Godard e Robert Bresson, assimilando o método deles sem atingir o mesmo rigor temático. Dele, pode-se dizer que formulou uma estética antes de impor-se um projeto ético ou dramatúrgico. Claro que há temas aos quais sempre foi constante - a confiança, a dificuldade de se comunicar e amar dos rebeldes contemporâneos, acrescentando-lhes uma visão irônica da suburbia americana. A Nova York (Queens) que ele filma agora não difere muito de Long Island nos filmes anteriores. A novidade de Henry Fool é que Hartley finalmente se arrisca mais. Alarga seus horizontes, expande os limites do seu cinema um tanto clean demais. Não é nenhuma obra-prima, mas um filme maduro de um artista que tem o que dizer. E, o que é muito importante, vale prestar atenção no que diz.De Férias de Amor, de Joshua Logan, a Teorema, de Pier-Paolo Pasolini, o tema do estranho que subverte a ordem estabelecida se constitui numa vertente muito rica do cinema. Todo mundo se lembra do forasteiro William Holden irrompendo numa cidadezinha de interior para desencadear o desejo de todas as mulheres e seduzir a mais linda delas, a deslumbrante Kim Novak, ou então do anjo Terence Stamp que implodia a família burguesia, acentuando suas contradições. Henry Fool começa centrado em Simon Grimm, o gari interpretado por James Urbianik. As primeiras cenas expõem uma personalidade doentia. Simon movimenta-se como um zumbi no seu local de trabalho. Passa imediatamente uma idéia de repressão e até de instabilidade mental. Segue o casal só para vê-los fazer sexo. Disgusting, dirá o espectador.Numa produção do cinemão de Hollywood esse poderia ser, quem sabe, o preâmbulo para a história de um serial killer. Ou de um pervertido. Não é o que interessa a Hartley. Logo surge Henry Fool. Ele vem para subverter a desordem da família de Simon (mãe enferma, irmã que tenta compensar a solidão na ninfomania). Dorme com a mãe, faz um filho na irmã. Mas o principal efeito transformador é em Simon. Henry o atrai com a história de um livro que está escrevendo e que anuncia como obra de uma vida inteira - uma reflexão sobre a arte, a vida, a ética, a estética, a filosofia. Henry consegue convencer Simon a colocar no papel o turbilhão interior que o consome. Simon vira um poeta aclamado, Camille Paglia vai à TV defendê-lo como a voz mais potente da nova poesia americana - a voz dos marginalizados das camadas populares.Hartley desenvolve o antagonismo entre Henry e Simon, mas é uma interpretação reducionista dizer que seu filme se propõe somente a uma inversão, à guisa de ruptura narrativa. Simon ganha o Nobel, mas renuncia ao mundo, como atesta a bela cena em que o sobrinho vai procurá-lo no hotel em que vive. E o arrogante Henry, que despeja conceitos sobre arte e vida, mas não tem rigor nem disciplina para produzir nada realmente válido (sua alegada obra-prima é um lixo), refaz, no sentido inverso, a trajetória de Simon, encerrando-se numa existência asfixiante e medíocre. Nesse sentido, o desfecho, que contribuiu para o desconcerto provocado pelo filme, não só faz sentido como despeja um pouco de luz no que poderia ser apenas mais uma descrição sombria da vida, usando a produção intelectual para dizer coisas que se aplicam a qualquer outra atividade humana.Inteligente, Hartley vai além dos arquétipos e adquire uma densidade rara, em sua carreira, ao criar esses personagens de homens devorados pela consciência da própria pequenez. À reportagem, ele definiu Henry Fool, o personagem, como uma espécie de diabo contemporâneo, no sentido não-sobrenatural. "Há pessoas que são incapazes de ser generosas, mas em compensação conseguem imprimir generosidade nos outros; Henry é dessa têmpera." Por meio da relação dele com Simon, o autor fala da ligação mestre-aluno, mostrando como ela pode funcionar mal. Hartley faz isso sem prejuízo da fina ironia que sempre se constituiu no elemento mais marcante de seu cinema. Continua ousado, mas, como ele mesmo diz, aqui se expressou mais com o coração do que com a cabeça. Hartley, quem diria, trocou a razão pela emoção e seu cinema se beneficia disso.As Confissões de Henry Fool (Henry Fool) - Drama. Direção de Hal Hartley. EUA/97. 18 anos.

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