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Nas telas com 'Love Film Festival', Nanda Costa exibe talento e versatilidade

Atriz também está no ar com a novela 'Pega Pega'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2017 | 06h00

Foi tudo muito rápido, inesperado. “Era terça-feira à noite e recebi um telefonema da Manu (Manuela Dias). Ela perguntou se meu passaporte estava em dia. Ótimo, passo aí (na sua casa) para combinarmos.” Mas combinar o quê? Foi o chamado convite irrecusável - um papel, um filme, uma viagem. “Embarcamos na sexta”, ainda avisou a roteirista e diretora. “Quando me dei conta, Manu estava na minha casa, vasculhando meu guarda-roupa em busca do figurino da personagem. E, na sexta, sim, eu estava no avião para a Colômbia.”

Agora, com o recuo, Nanda Costa tem distanciamento para avaliar. “Foi tudo no susto.” Ela conta essas coisas numa entrevista por telefone, do Rio. É domingo à tarde, Nanda entrou pela madrugada gravando a novela. Pega Pega está num momento ótimo, de virada de sua personagem. “A Sandra Helena entrou naquele golpe e agora está descobrindo que não precisa mais. Fica rica por causa de uma herança.” E agora, Sandra Helena? E agora, Camila? Camila é a personagem que Nanda assumiu no susto para o filme Love Film Festival, que estreou na quinta, 27. O longa não se assemelha a nada que você tenha visto recentemente, no cinema brasileiro ou mundial. Não é comédia blockbuster, não tem o pé no engajamento social nem político. Um filme de amor. Nanda/Camila fecha o triângulo amoroso com os personagens de Leandra Leal/Luzia e Manolo Cardona, um astro colombiano, que faz Adrian.

Na entrevista abaixo, a roteirista, produtora e diretora Manuela Dias fala da gênese do projeto. Um filme de amor ambientado no mundo dos festivais de cinema. Nanda explica - “A Luzia é roteirista, conhece esse ator e diretor colombiano. Vivem um romance se encontrando em festivais. Eu entro para desestabilizar um pouco a relação dos dois.” O que havia de tão interessante na ideia de ‘Manu’ para que ela não pudesse dizer não? “Manu é uma querida e me veio com essa ideia fantástica. ‘Vamos ter de viajar muito’, me disse. Viajar, conhecer gente e tudo isso como parte do trabalho. Legal, não?”, avalia Nanda.

A ideia da novela - Pega Pega - não nasceu de um susto, mas de um desafio. “A Cláudia (Souto, autora) me vendeu a novela e a personagem dizendo que a Sandra Helena teria uma risada contagiante. Sandra Helena participa de um golpe milionário no hotel em que trabalha. Eu não tenho essa risada. Tive de procurar, inventar. E a Sandra Helena ainda tem essa cabeleira loira platinada. Muita coisa nova numa personagem só, mas tem sido gratificante. Tem dado para aguentar o ritmo intenso. Ou você pensa que é fácil ficar nesse batidão até tarde, como foi nessa noite?” Nanda é grata ao universo dos festivais porque estourou num, quando seu papel em Sonhos Roubados, de Sandra Werneck, lhe valeu o Redentor de melhor atriz no Festival do Rio. Um bom começo para a garota de Paraty, que sonhava ser atriz.

“Leandra (Leal), com quem contraceno agora, era uma inspiração, porque ela começou cedo. Eu pensava - quero ser como ela.” O avô lhe dava o maior apoio. “Quando viu 2 Filhos de Francisco, ele disse que eu ia fazer um grande filme como aquele.” Nanda fez um papel importante em Gonzaga - De Pai pra Filho. No ano passado, no aniversário do avô - que morreu -, estava fazendo novo filme com Breno Silveira, e dessa vez com Ângelo Antonio, o próprio Seu Francisco. Entre Irmãs, ex-A Costureira e o Cangaceiro. Duas irmãs no sertão, Nanda e Marjorie Estiano, e a primeira, qual Maria Bonita, arrasta a outra para o cangaço. Entre Irmãs, além de filme, vai virar minissérie para estrear no começo de 2018. É muita coisa ocorrendo na vida, e na carreira de Nanda Costa. “Só chorei muito pelo meu avô, no set, porque ele não vai ver nada disso. Mas tenho certeza de que ficaria feliz, como eu.”

Para a codiretora, uma experiência 'contracultural'

Manuela Dias sabe bem o que é essa história de relacionamento a distância. “Namorei durante dois anos e meio um diretor mexicano que conheci num festival.” Mas ela nunca pensou em ficcionalizar a experiência. “Foi durante o set de A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Eu estava no interior de Minas com o Vinicius (Coimbra). A história começou a se desenhar na minha mente.” Uma roteirista brasileira conhece e se enamora de um ator e diretor colombiano, a quem conhece num festival.

Love Film Festival - a narrativa se desenrola em festivais de cinema de quatro países (Brasil, Colômbia, EUA e Portugal). Importantes diretores (Kleber Mendonça Filho, Beto Brant) fazem pontas. A ficção invade a realidade. “A inserção deles foi bem orgânica. E são meus amigos.” Roteirista aclamada (das minisséries Ligações Perigosas e Justiça), Manuela conseguiu o que parecia impossível. “Digo que sou roteirista profissional e diretora amadora.” Para levar adiante o projeto, contou com a cumplicidade do ex-marido Vinicius Coimbra e também de Bruno Safadi e Juancho Cardona. Cada um dirige um episódio, Manuela também dirige um. E ela ainda assina a produção e a montagem.

“Eles foram decisivos em todo o processo criativo. Me permitiram viabilizar o que estava em meu coração.” Trata-se, portanto, de uma rara experiência de direção cooperativa. Nem por isso ela se sente menos autora. “O filme nasceu desse desejo de misturar viagens e filmes. É um filme de amor ao cinema, mas eu tenho a impressão que mais ainda é um filme de amor pelas pessoas. Tudo no mundo atual nos empurra para o individualismo e eu estou querendo falar de amor como uma forma de resistência. Os meninos entenderam e me ajudaram."

Aos 40 anos e mãe de Helena, Manu, como é chamada, está numa fase de muita energia. Vai escrever sua primeira novela solo e a Globo Filmes também já lhe encomendou a sequência de Love Film Festival. O longa já estreia com a promessa do 2. “Tudo isso dá um trabalho imenso, mas fico feliz porque investir no romântico, como estou fazendo, virou contracultural. Estou indo contra a corrente.”

 

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