Nas telas, a biografia do produtor Robert Evans

Robert Evans sempre teve um ego tão monumental que, aos 15 anos, convencido de que seria uma celebridade, começou a guardar tudo o que poderia ajudar na redação de sua futura autobiografia. Havia motivos para isto: graças à sua boa estampa, o adolescente imberbe tornou-se figura carimbada da imprensa marrom por suas ligações com coristas e dançarinas de strip-tease. ?Começou cedo, o rapaz?, conta Brett Morgen, co-diretor (com Nanette Burstein) de um belo filme que estréia hoje, O Show não Pode Parar. No original, chama-se The Kid Stay in the Picture e, como tal, foi exibido na programação paralela do Festival de Cannes do ano passado.Havia dois documentários americanos em Cannes-2002. Um deles, Tiros em Columbine, de Michael Moore, concorria a prêmios e ganhou o especial do júri, quase um ano antes de receber, no fim de março, o Oscar da categoria. O outro era justamente o de Morgen e Nanette, que entra agora em cartaz. É ótimo por tudo o que revela sobre uma personalidade singular e os bastidores de Hollywood. Neste sentido, não deixa de ser um filme político ? as diversas fases de Bob Evans são sempre associadas ao mundo e ao momento histórico correspondentes ?, mas Morgen sabe que vai uma distância enorme entre o seu filme e a militância de Moore. ?Ele se tornou uma referência obrigatória para quem quiser refletir sobre a violência na América?, admite, numa entrevista por telefone, de Los Angeles.Mas Morgen também acha que seu filme e o de Moore apresentam curiosos pontos comuns. ?Ambos resultam de personalidades megalôs, uma na frente e outra atrás das câmeras. Robert (Evans) era assim, Michael (Moore) também é.? Para levar adiante essa conversa, talvez seja interessante esclarecer logo quem foi esse Bob Evans. Nos anos 1950, ele foi um ícone como jovem precoce (e rebelde). Nos 60, começou a despontar como ícone dos bastidores de Hollywood. Nos 70, adquiriu a consagração ao produzir clássicos como Love Story, O Poderoso Chefão e Chinatown. Virou o jovem produtor mais importante de Hollywood desde DAvid Selznick ou Irving Thalberg. Antes disso, em 1968, sua primeira parceria com Roman Polanski foi simplesmente outro clássico, O Bebê de Rosemary.Muito antes de Spielberg, Morgen lembra, Bob Evans chegou a ser chamado de ?jovem Midas?. Tudo o que fazia dava dinheiro ? montes de dinheiro aos estúdios. E aí começou a débâcle. O traumático processo de divórcio de Ali MacGraw ? que o trocou por Steve McQueen ? lançou o produtor milionário numa trip destrutiva. Evans foi fundo nas drogas. Seu envolvimento num caso confuso de assassinato foi considerado o fim da linha do magnata, mas ele terminou provando que havia mais balas no seu calibre e ressurgiu. Escreveu uma autobiografia, The Kid Stay in the Picture, que está na base do filme que agora estréia. Morgen confessa que deve, no entanto, a idéia do seu documentário a Pam Brady.?Ela me contou que havia sido convidada para fazer um especial sobre Bob. Ia acompanhá-lo durante não sei quantos dias. Contou-me coisas e eu comecei a achar que teríamos aí um bom material, Nanette e eu.? Morgen conta como ambos gostam de trabalhar. ?Ela cuida da documentação, eu cuido do estilo.? Ambos surgiram na escola do cinema-verdade. Fazem filmes documentados, mas Morgen acredita que o estilo é fundamental. ?Embora o trabalho de captação das imagens se fundamente sobre outras bases, no fundo o documentário não difere muito da ficção.? Ele aproveita para refletir: ?Há toda uma linha de documentário, consagrada na TV, que se basdeia na objetividade. São documentários quase sempre feitos por jornalistas ou num enfoque jornalístico, para informar. Eu também quero informar, mas não sou jornalista. Tenho consciência de que trabalhamos, Nanette e eu, num registro mais subjetivo.?É outro ponto de contato com Michael Moore. ?Ele também é subjetivo, mas age como se estivesse sendo objetivo e a sua verdade fosse a única possível. Nós, não. Sabemos, desde logo, que nenhuma verdade pode ser definitiva ou pelo menos objetiva. Nossa verdade é ficcionalizada e, por isso, trabalhamos tanto com a imagem ou em cenários artificiais, que remetem ao próprio cinema.? Um dos recursos é a animação de fotografias, com todas as possibilidades daí decorrentes. É o aspecto que Morgen considera mais fascinante.?Vivemos na era da imagem e as diversas fases da carreira e da própria vida de Bob Evans ligam-se à sua imagem. Foi importante termos encontrado toda a extensa documentação que ele arquivou. A partir da imagem dele, construímos nossa crítica à civilização da imagem, consolidada pela dimensão que a TV adquiriu na vida das pessoas.?Morgen explica o título original. No fim dos anos 1950, Bob Evans fez na Fox o filme que o prestigiado Henry King adaptou do livro de Ernest Hemingway, O Sol Tornará a Brilhar. Fazia um toureiro, um jovem matador de ? claro ? boa estampa. Devido a divergências no set, Evans quase foi despedido, mas o chefão do estúdio, Darryl Zanuck, disse a frase famosa que o próprio Bob pinçou para título de seu livro: ?O Garoto permanece no filme.? Se não tivesse permanecido, talvez não tivesse construído seu mito em Hollywood. O título vira metáfora da capacidade de sobrevivência do biografado. Bob Evans, garante Morgen, não interferiu em nada na realização. ?Só viu o filme pela primeira vez quando já estava pronto, no Sundance.? Foi sempre cooperativo: ?Faz parte da sua lenda. Bob ama os filmes, não pensa só em dinheiro. Se só pensasse em lucros não teria arriscado nos grandes filmes que consolidaram sua posição na indústria."O Show não Pode Parar (The Kid Stay in the Picture). Documentário. Direção de Nanette Burstein e Brett Morgen. EUA/2002. Duração: 94 minutos. Cinearte 1, às 14 horas, 16 horas, 18 horas, 20 horas e 22 horas. 12 anos

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