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Nas redondezas do perigo

O jornalista inglês relembra como foi a aventura de recuperar um zoo falido, onde lidou tanto com um urso com dor de dente como com a perda da mulher

11 de dezembro de 2011 | 20h38

Em 2006, o inglês Benjamin Mee tomou uma importante decisão: ao lado da mulher, Katherine, dos dois filhos pequenos, de sua mãe de 76 anos e do irmão, ele decidiu vender tudo o que tinha e, junto com o dinheiro de uma herança, resolveu comprar um zoológico falido, o Dartmoor Wildlife Park. A ideia parecia absurda – afinal, entre os 200 animais selvagens, estavam jaguares em fuga e felinos com dor de dente. O pior, no entanto, estava por vir: mesmo com um temor cerebral removido, Katherine adoeceu novamente e morreu meses antes da reabertura do zoológico. Ainda que arruinado sentimentalmente, Mee não desistiu e, inspirado na memória da mulher, concretizou o sonho da família.

A fantástica história inspirou Mee a escrever Compramos um Zoológico (Objetiva), livro lançado agora e que já inspirou um filme, estrelado por Matt Damon e Scarlett Johansson, com estreia prevista para o dia 23 em São Paulo. Mais que uma original aventura, a narrativa demonstra como Mee descobriu detalhes da convivência animal – como a hierarquia existente entre os lobos e a distinção entre dois porcos-espinhos. Na verdade, possibilitou que ele encontrasse um novo sentido para sua vida depois de uma perda tão dolorida. Sobre tais experiências, Mee respondeu, por e-mail, as seguintes perguntas.

 

ESTADO: O livro conta uma história excêntrica (afinal, habitualmente as pessoas vão ao zoológico e não compram um), mas também relata uma experiência muito particular de sua vida. Como foi balancear tópicos tão distintos?

 

Benjamin Mee: Quando pensávamos em comprar um zoo, já era minha intenção escrever um livro. Como jornalista, via ali uma grande história, pois qualquer aspecto seria surpreendente. Também sabia que o zoo poderia se beneficiar da publicidade gerada – sua má reputação o condenava ao fechamento, o que seria ruim, pois eu sabia que as pessoas iriam visitá-lo se descobrissem como era surpreendente. Assim, eu estava diante de uma história recheada de contrastes sobre dois mundos diferentes que colidiam. Animais, burocracia, esperança, as tarefas mundanas e os altos riscos, tudo, enfim, se tornou uma história fácil de contar.

 

ESTADO: Foi quando surgiu o drama de sua mulher, Katherine.

 

Benjamin Mee: Sim, quando ela adoeceu, eu senti, como alguém que escreve sobre saúde, que havia uma história paralela a ser contada. Cuidávamos de Katherine com carinho e muito bom humor, algo que ela mesmo não deixava faltar. Escrevi sobre esse assunto na esperança de ajudar aqueles que enfrentam o mesmo problema. E, depois de publicado o livro, recebi muitas mensagens de agradecimento, de pessoas que receberam um auxílio em seu luto. Uma visitante que perdeu o marido recentemente me contou que, depois de ler o livro, fez um curso na internet sobre lobos. E então veio visitar nosso zoo. Minha intenção, portanto, era equilibrar um relato tanto sobre as aventuras dos animais como sobre fatos mundanos, como obter uma licença de jardim zoológico ou a colocação de cercas. Deixei por último a escrita do capítulo sobre Katherine pois, como tinha apenas três meses para realizar o livro, temia sofrer algum bloqueio. Eu sabia que o livro seria uma espécie de montanha-russa, mas não imaginava que tantos altos e baixos interessassem Hollywood.

 

Seu encontro com a tigresa Tammy, que inesperadamente despertou da anestesia enquanto você estava perto, foi o mais perigoso dos relatos?

 

Benjamin Mee: Sim. Já pensei nisso várias vezes e não há dúvida de que estar diante de um tigre, sem barras nos separando, foi a coisa mais perigosa que aconteceu comigo. Estive próximo dos lobos enquanto eles estavam lutando, também de um lince, mas sempre em condições seguras, ao lado de um ajudante e de um grande porrete. Quando Tammy despertou, eu estava bem ao lado de sua cabeça e sei que os olhos felinos são muito sensíveis ao movimento lateral. Então, se eu corresse, poderia ter provocado uma resposta dela e a adrenalina que ela teria liberado neutralizaria a anestésico. Como seu olhos ainda estavam vidrados, fiquei imóvel e ela cambaleou, passando por mim sem ter me notado. Acho que escrevi no livro que estava petrificado de medo, mas, dez minutos depois, quando ela estava novamente inconsciente sendo transportada na van, ao ficar novamente ao lado de sua cabeça, aí sim senti o medo. Lovely Vlad, o maior tigre que temos no zoo, mordeu minha jaqueta por cima do muro outro dia, e não soltava. Mas ele estava apenas brincando: poderia ser interpretado como perigoso, mas não havia maldade.

 

ESTADO: Qual foi o animal mais difícil de lidar? E por que?

 

Benjamin Mee: Quando Ben, o urso, que pesa 300 quilos, teve de arrancar um dente, só o fato de levá-lo à sala do veterinário exigiu uma grande operação. Primeiro, porque os ursos são muito difíceis de se anestesiar: eles têm tanta gordura que absorvem as drogas aos poucos, dificultando descobrir a dose certa. Em seguida, para levar um paciente tão pesado, descendo alguns degraus molhados e passando por pedras escorregadias até a sala, foi necessária a presença de seis homens fortes que soubessem carregá-lo sem movimentos bruscos, pois, se o derrubássemos, a adrenalina certamente o faria despertar.

 

ESTADO: Você assistiu ao filme dirigido por Cameron Crowe? O que achou? Que tipo de benefício o longa pode trazer para o zoo?

 

Benjamin Mee: Ainda não vi, mas trabalhei no roteiro e gostei muito pois a essência da minha obra foi preservada – eles apenas colocaram a morte da minha mulher antes da compra do zoo. E, sobre os benefícios, bem, gosto de lembrar que há uma mansão aqui perto chamada Anthony House, que foi palco para o Alice no País das Maravilhas, com Johnny Depp. No ano seguinte à estreia do filme, eles estavam com cinco vezes mais visitantes. Se acontecer o mesmo aqui, teremos meio milhão de pessoas vindo ao zoo no próximo ano. Vendemos ingresso pela internet e ainda uma operação de donativos chamada The Friends of Dartmoor Zoo. Minha esperança é que o zoo possa aproveitar a oportunidade e se livrar das dívidas, além de criar uma renda que fomente um crescimento sustentável. E espero também adquirir mais elefantes.

 

 

 
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