Nas graças de Tarantino

Nas graças de Tarantino

Depois de roubar cenas em Bastados Inglórios, Christoph Waltz fala de sua volta, sob direção de Quentin Tarantino, em Django Livre

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S.Paulo,

13 de janeiro de 2013 | 21h39

NOVA YORK - Christoph Waltz está de novo na corrida do Oscar, indicado para o prêmio de coadjuvante por seu papel como o Dr. Schultz no spaghetti western de Quentin Tarantino, Django Livre. O filme estreia sexta-feira nos cinemas brasileiros. Tarantino ama o cinema de gênero e há muito tempo queria fazer seu faroeste ‘italiano’. Django Livre tomou forma após o sucesso espetacular de Bastardos Inglórios, com o qual o austríaco Waltz ganhou seu primeiro prêmio da Academia de Hollywood. A entrevista com o ator foi feita num hotel de luxo de Nova York - a primeira com a equipe de Django Unchained. Entre o encontro com Waltz e o seguinte, com Tarantino, o repórter soube do massacre de crianças numa escola de Connecticut. Só por isso, o assunto, repercutido com o diretor, não fez parte da agenda com o ator. Mas polêmica não faltava, como a provocada pela palavra nigger.

Tarantino está sob um vendaval de críticas por usar muito a palavra nigger, que é considerada racialmente pejorativa nos EUA. O que você pensa disso?

Como europeu, não estou sujeito às mesmas emoções dos norteamericanos. Possuía informações genéricas sobre o período da escravidão na América, como qualquer pessoa de fora, suponho. Comecei a ter uma visão mais interna do assunto a partir dos meus encontros com Jamie Foxx para discutir nossos personagens (ele faz o próprio Django, escravo liberto que busca vingança dos homens que estão de posse de sua mulher). Ele me contou histórias terríveis, histórias com pessoas de sua família, seus ancestrais. Acho hipocrisia discutir se a palavra nigger é ofensiva ou não. Na época, era como os senhores se referiam a seus escravos e o que está em discussão é o sistema escravocrata. Como europeu, austríaco que sou, nenhuma palavra me assusta, e esta menos ainda.

Qual a sua reação quando Tarantino o chamou para seu spaghetti western?

No período após Bastardos Inglórios, Quentin virou um grande amigo. Sabia desse projeto que ele carregava há tempos e Quentin volta e meia me chamava para jantar. Li as primeiras 20 páginas do que viria a ser Django Livre, depois 20, outras 20... Sabia que ele estava escrevendo o Dr. Schultz para mim. O que posso dizer? Estava encantado e lisonjeado, só tinha medo de que, com Schultz, a gente terminasse repetindo o coronel Landa de Bastardos.

O que você conhecia de spaghetti westerns?

Nunca fui muito fã dos westerns de Hollywood, não me pergunte a razão porque não saberia explicar, ou tomaria todo o tempo de nossa entrevista. Como europeu, sempre me senti muito mais próximo dos faroestes italianos. Django virou, acho que para todos os austríacos, o emblemas do gênero. O filme podia ter outro nome, ser com outro personagem, mas a gente dizia ‘vamos ver o Django?’ O gênero entrou pelo meu imaginário através desse personagem. Quando comecei a conversar com Quentin, ele ainda fazia anotações teóricas sobre o que era o gênero para os diretores míticos que lhe interessavam, Sergio Corbucci até mais que Sergio Leone. O desenho que ele me apresentou de King Schultz era o de um personagem maravilhoso.

Outro Oscar?

Oh, ter ganhado um Oscar já foi um evento extraordinário em minha vida. Quentin não nega que Django esteja sendo lançado para se candidatar aos prêmios, mas acho essa discussão prematura e desinteressante. Naturalmente que será um sonho, se eu for indicado novamente, mas o personagem existe em função da história que Quentin queria contar. Fui seu instrumento. O importante é o filme.

Na sessão para a imprensa, jornalistas foram à loucura com o cavalo que conduz seu consultório ambulante (o personagem é dentista). Foi difícil conseguir que o cavalo não roubasse a cena?

Mas ele rouba, e nós todos sabíamos disso. Não tenho muita familiaridade com cavalos, e é difícil filmar com um que tem de fazer acrobacias em cena. Num certo sentido, ele ‘representa’, também. Mas o humor já estava implícito. Meu cavalo chama-se Fritz, que é nome pelo qual os soldados nazistas são conhecidos nas produções de Hollywood. É uma volta a Bastardos Inglórios, a joke (uma piada).

Sei que você não gosta muito de falar sobre a atividade no set, mas como foi o reencontro com Tarantino?

Para que a gente ficasse imerso no clima da época e nas exigências da filmagem, que foram duras fisicamente, Quentin impedia o uso de eletrônicos no set. Nada de celulares, laptops. No começo, rolou um estresse, havia muita gente ansiosa sem seu celular, mas depois que entramos no clima tudo isso ficou supérfluo. Foi uma experiência muito interessante de desintoxicação de tecnologia (risos).

O que ou quem é exatamente o Dr. Schultz?

Não gosto de falar sobre os personagens, porque isso tende a direcionar o olhar do público, quando for ver o filme. Mas Schultz é um personagem muito rico, um justiceiro. É dentista, mas isso é só uma fachada para encobrir a atividade como caçador de recompensas. E ele liberta Django porque o outro será um aliado importante. Cada um tem a própria agenda na caçada aos vilões da história, mas a união produz laços de honra. Schultz chegará a um gesto extremo por Django.

Neste sentido, ele difere bastante do Coronel Landa, não?

Seria muito chato ficar repetindo a mesma história. Cada gênero tem seu códigos e o spaghetti western, diferentemente do de Hollywood, é mais crítico em relação ao que deve ter sido a história real. Django Livre tem esse caráter desmistificador, mas, como cinema, traduz o amor de Quentin pelos heróis, por mais tortos que sejam.

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