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'Não se fala muito de Deus em 'Benedetta'', diz Paul Verhoeven

Em entrevista ao 'Estadão', diretor discute filme que retrata relação amorosa de abadessa com outra freira em convento italiano nos século 17

Entrevista com

Paul Verhoeven

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

17 de janeiro de 2022 | 05h00

Desde que publicou o livro Jesus of Nazareth (2007), construindo uma leitura humanizada e política do Cristo católico, em meio a um hiato em seus compromissos com o cinema, o realizador holandês Paul Verhoeven persegue o desejo de levar o Evangelho às telas sem moralismo. O mais perto que chegou disso é Benedetta, recém-lançado no circuito exibidor brasileiro, com a atriz belga Virginie Efira no papel de uma freira de Pescia, na Toscana do século 17, que acreditava falar com Jesus. 

E entre os sinais que Benedetta Carlini (1591-1661) supostamente recebia do filho de Deus estava a licença para viver uma tórrida paixão com uma colega de hábito, Bartolomea (Daphne Patakia). Com base no livro Atos Impuros – A Vida de Uma Freira Lésbica na Itália da Renascença, escrito por Judith Brown, e publicado aqui em 1987 (Brasiliense), o diretor de 83 anos, autor de Robocop – O Policial do Futuro (1987) e Elle (2016), construiu um dos filmes mais eróticos dos últimos anos. Na entrevista a seguir, feita por e-mail, Verhoeven compartilha com o Estadão seu olhar sobre o Sagrado.

De que forma o desejo e a fé podem ser entendidos como um único sentimento na trilha afetiva de Benedetta e de que forma o senhor vê a representação das mulheres na história das religiões, especialmente a católica?

Antes de tudo: o filme segue a visão de Benedetta sobre Deus, Jesus e a Virgem Maria, não segue a minha visão. Benedetta criou o que eu chamaria de “um Jesus pessoal”, um Jesus que finalmente promove uma relação sexual entre ela e Bartolomea. Note também que Benedetta está à procura de poder: Jesus lhe dá os estigmas (sinais que reproduzem as chagas dele) tal qual teria dado a outras pessoas “santas”, como a dominicana Catarina de Siena. Estes estigmas provaram que Jesus a escolheu, o que a leva a se tornar a nova abadessa. E isso dá a ela um quarto privado, tirando-a do dormitório comum das freiras, que ela pode trancar. E trancando, fazer sexo ininterrupto com Bartolomea.

Além do livro, que outras referências históricas – ou cinematográficas – utiliza na construção da narrativa de ‘Benedetta’? 

Do ponto de vista “cinematográfico”, o único filme que Jeanne Lapoirie, minha diretora de fotografia, e eu estudamos foi a parte 2 de Ivan, o Terrível, de Eisenstein, que já tinha inspirado Robocop. Veja, por exemplo, a enorme sombra dos protagonistas na parede em ambos os filmes. Como a televisão tem sido ditada por uma estética palavrosa, talking head, senti que Benedetta deveria se abster de closes e apostar em planos longos, como uma ferramenta dramatúrgica. Para informações sobre a época medieval e o início da Renascença, estudei o livro de Johan Huizinga, O Outono da Idade Média, e vários livros sobre a Inquisição Espanhola e seus instrumentos de tortura. E olhei muito para as pinturas daquela época, notadamente Brueghel, Van Eyck, Caravaggio e Rembrandt, e até mesmo Hieronymus Bosch. Mas a narrativa em si foi construída completamente sobre o livro de Judith Brown. Só acrescentamos alguns elementos para fortalecer o enredo dramatúrgico, como a insurreição dos cidadãos de Pescia, mas a maior parte do que você vê vem do livro de Judith, que incluiu os detalhes sexuais muito precisos. Detalhes tirados dos autos do julgamento de Benedetta, encontradas no Arquivo de Florença, datado de 1625. O escriba do caso ficou tão perturbado com os detalhes sexuais que ouviu sair da boca de Bartolomea que cometeu muitos erros em sua escrita. Teve que riscar muitas palavras e escrevê-las novamente.

Qual é o lugar para Deus, Cristo e o homem em sua visão antropológica da vida Benedetta?

Não se fala muito de Deus no filme. É sempre Jesus. As visões de Benedetta são sobre Jesus, os estigmas vêm de Jesus, manter a praga fora de sua cidade é coisa de Jesus. E ela nunca fala no Cristo, ela fala de Jesus. Ela também não está interessada numa ideia de “homem”, talvez por existir nela um feminismo precoce, que ela talvez não reconhecesse. 

O que você espera para o futuro agora, depois de dois filmes tão marcantes – e tão femininos – como Elle e Benedetta?

Há vários projetos em consideração: um sobre o ano de 1943 em Lyon; um outro ambientado em 1923, ligado à movimentação de Hitler; uma versão moderna do livro de Guy De Maupassant chamado Bel-Ami. E tenho, ainda, a vontade de um filme sobre Jesus, baseado em meu livro (Jesus of Nazareth). Há ainda um thriller político ambientado em Washington, Young Sinner.

 

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