‘Não me cabe, como autor, fazer julgamentos’, diz o diretor Atom Egoyan

Em entrevista ao 'Estado', ele fala da manipulação da verdade e da atração por mentes criminosas em ‘Sem Evidências’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2014 | 02h00

Nascido no Egito, de pais armênios, Atom Egoyan naturalizou-se canadense. E foi como cineasta do Canadá que ele se tornou conhecido em todo mundo, inclusive no Brasil. A Mostra foi fundamental para isso, com filmes como Calendar, Exótica e O Doce Amanhã.

Seu novo longa, Captives, concorreu em Cannes, em maio. E o anterior, Sem Evidências, estreou nesta quinta-feira. Numa entrevista por e-mail, o autor discutiu desde a fria acolhida para Captives em Cannes até sua obsessão por temas como a violência contra crianças e o significado dos sistemas de vigilância criados pelo homem – mas que não conseguem evitar atos de barbárie cometidos nos dois filmes.

Sem Evidências, com Reese Whiterspoon e Colin Firth, é sobre o brutal assassinato de três garotos numa comunidade religiosa, que rapidamente forja provas para condenar, mesmo que sem provas definitivas, os supostos autores do crime. Captives, com Ryan Reynolds, é sobre um pai cuja vida entra em colapso quando a filha é sequestrada quase debaixo de seus olhos.

Egoyan credita à origem armênia sua obsessão pela manipulação da verdade, o tema recorrente de sua obra. E sobre os 30 anos de união com Arsinée Arkadjan, atriz em Captives, reflete – “Ela me completa, na arte como na vida.” 

Violência contra crianças, manipulação da verdade, sistemas de vigilância. Atom Egoyan discute tudo e ainda reflete sobre a acolhida mais reticente a seus trabalhos recentes. Captives ganha outro significado depois que se assiste a Sem Evidências. Ele sabe – e explica como os dois filmes integram um projeto maior.

Tenho de admitir que Captives me pareceu melhor depois de ter visto Sem Evidências. Ambos tratam do abuso de crianças sequestradas e até mortas. Há 17 anos, com O Doce Amanhã, você já falava do sacrifício de crianças e do efeito sobre os pais. De onde vem essa sua atração pelo assunto?

O mais impressionante no caso de Sem Evidências é que esse crime jamais será decifrado. Quanto mais lia, mais eu entendia a opção feita pela polícia, pelos legisladores, pela comunidade como um todo. Foi a maneira deles de lidar com o desconhecido. Me parece difícil imaginar cena mais extrema do que a encontrada pela polícia naquela manhã, na floresta de West Memphis. Mesmo que a morte dos meninos tenha sido brutal, nenhuma evidência foi encontrada pelos peritos. Nada de digitais, de DNA, de sangue. Parecia sobrenatural e, sendo a comunidade religiosa, foi quase uma decorrência que tenha forjado uma explicação para ato tão maligno. Como não havia evidência dos demônios criminosos, eles tiveram de ser fabricados. E isso foi feito de forma metódica e racional, com a conivência do sistema judicial.

Aqui, como em Captives e Verdade Nua, você aborda os sistemas de vigilância criados pelo homem. Vivemos em sociedades supervigiadas. Como você vê essa necessidade por mecanismos de proteção?

Os sistemas desenvolvidos pela tecnologia criam uma ilusão de controle e segurança, mas são impotentes quando se trata de antecipar as nuances do comportamento humano. São oniscientes e, ao mesmo tempo, falham quando se trata de revelar o lado escuro das motivações e necessidades das pessoas. Se registram o horror e a transgressão, não previnem um nem outra. Foi o que me fascinou no evento midiático criado em The West Memphis Tree. Com todas as câmeras no tribunal e demais lugares públicos, nenhuma estava lá para documentar o horror sofrido pelos garotos na floresta. Vemos o resultado final da catástrofe, mas nem minha câmera tenta estabelecer pistas para o que ocorreu. Permanecemos no desconhecido.

Como em Captives, você recorre a elementos de thriller para contar sua história. O cinema de gênero é a melhor forma de abordar certos temas?

Embora meu cinema não seja normalmente de gênero, sou fascinado pelo noir e pela textura do thriller, especialmente ao abordar a situação de indivíduos presos numa engrenagem que não conseguem controlar. Dito isso, quando me volto para meus primeiros filmes, consigo ver a influência de thrillers psicológicos que estão sempre no meu imaginário, como Um Corpo Que Cai, de (Alfred) Hitchcock, e A Conversação, de (Francis Ford) Coppola.

A manipulação da verdade é frequente em seu cinema e, aqui, é evidente na forma como polícia e juiz restringem o campo da investigação. De onde vem isso?

Minha obsessão pela distorção da verdade tem a ver com a origem armênia. A meticulosa negação do genocídio pelo governo turco foi uma coisa que impactou minha formação e, desde criança, me tornou sensível ao fato de que a verdade se acomoda a versões convenientes e que nem sempre têm a ver com o que realmente ocorre, ou ocorreu. Esse pode ter sido um dos fatores atraentes para mim nessa tragédia, mas é uma coisa que só pode ser avaliada depois.

Como você trabalhou com Reese Whiterspoon e Colin Firth em Sem Evidências? E com Ryan Reynolds em Captives?

Embora o público os veja como astros e estrelas, Reese, Colin e Ryan chegaram sem exigências ao meus sets. São atores como os outros. A forma como Reese se entregou é prova disso. É possível que o público seja atraído pelas personas, mas eu os vejo nos filmes como uma verdadeira subversão do status de ‘stars’. E, afinal de contas, o que esperamos de astros e estrelas? Me emociona o comprometimento desses atores com papéis que são bem difíceis e exigentes.

O criminoso é um personagem que o atrai sem que você se sinta obrigado a criticá-lo, ou condená-lo. Pelo contrário, você tenta entendê-lo. Estou certo?

Como diretor e roteirista não me cabe fazer julgamentos. Acredito no que diz o grande Terêncio – “Homo sum, humani nihil a me alienum puto.” Ou seja – sou homem e nada do que é humano me é estranho.

Anos atrás, os críticos aderiam com muito mais entusiasmo a seus filmes. Captives foi recebido com frieza em Cannes. É decepcionante?

Confesso que a recepção de Captives em Cannes me surpreendeu, mas foi pelo simples fato de que a gala do filme foi muito boa. Como não estava na sessão de imprensa, realizada pela manhã, não consigo avaliar muito bem o que ocorreu. Houve uma avalanche de críticas contrárias, mas eu confesso que tenho a pele dura. Estou muito orgulhoso por Captives ter integrado a competição em Cannes. Muitos grandes filmes já foram vaiados e o importante é ver Captives como parte de um projeto maior. Assumi o compromisso, comigo mesmo, de fazer filmes provocativos e que me desafiem a encarar graves questões do nosso tempo. Talvez Captives tenha sido visto como menos pessoal, não sei. Não sou crítico. Quero só continuar fazendo filmes e dirigindo para teatro e ópera. É o que dá sentido à minha vida.

Quem é

ATOM EGOYAN

CINEASTA

Nascido em 1960, no Cairo, e naturalizado canadense, filma desde 1993. Dirigiu, entre outros – Exótica, O Doce Amanhã (pelo qual concorreu ao Oscar) e Ararat (sobre o genocídio armênio). Convidado pela Mostra, visitou São Paulo e ficou fascinado pelo mistério da cidade, ‘que não se entrega com facilidade’.

SEM EVIDÊNCIAS

Título original: Devil’s Knot.  Direção: Atom Egoyan. Gênero: Drama (EUA/2013, 114 min.). Classificação: 12 anos.

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