NÃO GOSTEI: Diretor tem boas ideias, mas não ousa

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2009 | 19h52

Roberto Moreira é professor de cinema. Seria absurdo dizer que ele não sabe filmar. Moreira, inclusive, costuma fazer um trabalho interessante de reinvenção do roteiro com seus atores. Sua colaboração com a atriz Sílvia Lourenço já vem do filme anterior, Contra Todos, e ela, como sempre, é ótima. O problema não é por aí. Pode-se apreciar certas qualidades de estilo e, mesmo assim, detestar o filme. Isso tem a ver com ideologia, com a visão de mundo - e das pessoas - do diretor.

 

Em Contra Todos, Moreira já criara o personagem do pastor religioso que também era assassino. A ambivalência do sujeito poderia fazer dele um personagem forte, mas no limite tratava-se apenas de preconceito - Moreira não ousaria, ou pelo menos não ousou, filmar um rabino ladrão ou um padre pedófilo. Quanto Dura o Amor? revela outro tipo de preconceito. Moreira quer falar sobre (des)amor e solidão na cidade grande. Temos a garota do interior, a advogada e o aspirante a escritor. A garota é atriz, mergulha na noite paulistana e vive uma relação homossexual com uma cantora. Ambas são artistas, pouco convencionais portanto, e a cantora, além de rica, é bissexual. Nossa pobre heroína será descartada, mas a vida é assim mesmo - dura.

 

A outra personagem possui um segredo que remete a Jaye Davidson, num filme que provocou sensação anos atrás, Traídos pelo Desejo, de Neil Jordan. Lembram-se? A mulher que, na verdade, era homem. Aqui temos uma situação parecida. A advogada resiste aos avanços do colega, antes de finalmente fazer sexo com ele. A cena de sexo é filmada de forma curiosa, como se fosse para mostrar uma falta de jeito dele, uma timidez. A advogada tem um segredo. Teme a reação do homem. É a pior possível, o que indica que o diretor pode estar fazendo crítica às relações no mundo moderno, ao uso das pessoas. Mas se o espectador psicologizar um pouco, poderá perceber outro movimento, o filme que Moreira de novo não ousou fazer.

 

O ator Gustavo Machado é muito bom. Já foi premiado pela APCA, a Associação Paulista dos Críticos de Artes, por seu papel em Olho de Boi. Machado cria um homem ‘feminino’, no sentido de frágil, emocionalmente, poder-se-ia dizer - inseguro, sexualmente (sua cena de cama o mostra). O segredo de polichinelo, revelado, confronta o personagem com a própria sexualidade, talvez. Fosse um caminhoneiro e a reação seria outra. O cinema de Roberto Moreira causa estranhamento. Ele tem ideias que parecem boas, mas não são. A cena final, das duas mulheres fumando, é, de qualquer maneira, notável.

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