AFP PHOTO GERARD BRAUN
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Não faltou talento à bela e discreta Virna Lisi

Premiada em Cannes, atriz italiana morreu nesta semana, aos 78 anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2014 | 13h13

Algum Antonio Pietrangeli, algum Francesco Maselli. Virna Pieralisi, que se tornou conhecida como Virna Lisi, passou os anos 1950 filmando muito, mas, salvo exceções, eram filmes de pouco prestígio artístico. Ajudaram, de qualquer maneira, a colocá-la na linha de frente da beleza no cinema italiano. Sophia Loren, Gina Lollobrigida, depois uma certa Claudia Cardinale e... Virna Lisi. Em 1962, aos 26 anos - nasceu em Jesi, 1936 -, um dos maiores diretores do mundo, Joseph Losey, deu-lhe um papel de destaque no que talvez tenha sido o mais seminal de seus filmes, Eva. Virna representava a beleza, a pureza. Não era concorrente para a personagem de Jeanne Morerau. Eva era o vício, o poder feminino de sedução usado para a degradação. Eva destruía, ou talvez seja melhor dizer, apressava a destruição moral de Tyvian Jones, o escritor interpretrado por Stanley Baker.

Tyvian, o autor de um só grande livro - que, na verdade, ele não escreveu, mas usurpou do irmão que morreu. 'Pauvre tipe', Pobre tipo, definia-o Eva. Pobre Virna, que amava Tyvian Jones e ela, sim, era destruída fisicamente por Eva. O sucesso foi grande e Virna Lisi ganhou projeção internacional. Filmou na França (A Tulipa Negra, com Alain Delon), continuou requisitada na Itália (Casanova 70, de Mario Monicelli, Senhoras e Senhores, de Pietro Germi), foi parar em Hollywood. Como uma nova Marilyn Monroe, estrelou Como Matar Minha Esposa, de Richard Quine, o príncipe da comédia, ao lado de Jack Lemmon.

Sua beleza era suave, e a própria Virna era uma mulher discreta. Na doce vida romana dos anos 1960, não fazia o jogo das celebridades. No começo dos anos 1960, casou-se com o arquiteto Franco e ficaram juntos por mais de 50 anos, até a morte dele, no ano passado. A própria Virna morreu em sua casa, em Roma, aos 78 anos. Há pouco mais de um mês foi detectado o tumor que a vitimou. Pode ser que, em seu enterro, não venha a receber a homenagem que os italianos reservam a seus grasndes artistas. Anna Magnani, Totò, Alberto Sordi, Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, mas também Federico Fellini e Luchino Visconti, todos foram enterrados sob salvas de palmas, aclamados pelo povo. Virna Lisi bem que poderia merecer a honraria.

Não lhe faltaram prêmios. Recebeu seis vezes o prêmio do Sindicato dos Jornalistas da Itália e o David do Donatello, o Oscar italiano, por La Cicala/A Cigarra, de Alberto Lattuada. Foi melhor atriz em Cannes por A Rainha Margot, de Patrice Chéreau, em 1994. Sua máscara era impressionante. A jovem ingênua e romântica de Eva virava a própria Eva, mas seu poder não vinha do sexo. Como Catarina de Médici, ela fazia o jogo do poder com maquiavelismo. Talvez essa máscara tenha sido adquirida por Virna no teatro, quando integrou o elenco do Piccolo Teatro di Milano e se tornou, no palco, uma atriz mais respeitada do que jamais foi no cinema, e não por falta de talento. É que as belas, as muito belas, sempre despertam suspeitas nos críticos, que exigem mais delas do que das outras. E Virna foi bela - muito. Conservou a beleza.

Antes de A Rainha Margot, e Chéreau deve ter-se lembrado disso, participou de um filme cultuado da sempre polêmica Liliana Cavani, Ali di Lá del Bene e del Male, como a irmã do filósofo Nietszche. Como se não bastasse a popularidade adquirida no cinema, fez TV, uma novela de sucesso de Dino Risi, ...E la Vita Continua, como uma matriarca burguesa. Nos últimos anos, diminuiu os papeis no cinema, mas Cristina Comencini, a filha de Luigi, que a dirigiu tardiamente, em 1989, em Buon Natale, deu-lhe bons papeis em Vai Dove ti Porta Il Cuore e Il Piu Bello Giorno della Mia Vita. Gianni Amelio também a celebrou, nessa fase tardia, em I Raggazzi di Via Panisperna. Há cinco anos, Virna Lisi deixou de filmar. Recolheu-se. Enterrou o marido, companheiro de mais de 53 anos, e morreu serenamente, dormindo, informam as agências internacionais. Virna e Franco Pesci tiveram apenas um filho, Corrado Pesci.

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